domingo, 29 de maio de 2011

Dormência

A cabeça encostada na parede, pálpebras cerradas. A dormência invade o meu repouso. Sinto os músculos penderem para baixo; a cabeça tomba, como que atraída por um imã. Minha alma dança com o sono; ela perde o controle quando um tornado de areia transcorre o meu cérebro. Sonhos latejam, vibrantes, durante o meu repouso. Sono alucinado.

Sinto o par de estrelas gêmeas consumindo o tufão de areia.

“Durma forasteiro, durma ao som dos cantos das sereias”.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Riso Letárgico


Demos trelas de rir
Há algumas horas atrás
Nós voltamos a ir
Naquilo que não iremos nunca mais

A mãe dela viajou
E a deixou em casa
Para sempre

terça-feira, 24 de maio de 2011

Registro


Criei esse caderno para, de alguma forma, me registrar; mas nunca tratei esse documento como diário. Que fosse qualquer coisa, menos um amontoado de páginas descrevendo repetidamente meus dias entediantes e iguais.

Mas hoje eu iria fazer algo diferente. Tenho uma ideia desde os treze anos de idade, que já tentei executar algumas vezes durante esses mais de sete anos. É claro que nunca executei. Mas hoje seria o dia. A visitei após o expediente para vê-la. Ver seus olhos entediados mais uma vez; não sei por que ainda a vejo. Sinto tédio quando estou ao lado dela. Lá fui eu, por que o meu plano estava marcado para a noite, e eu queria fazer o tempo passar logo. Imaginei-me em casa, contando em tom magnânimo, três... Cinco... Sete.

Escrevo agora por que nada aconteceu. Registro apenas que, se minha vida fosse um jogo de xadrez, eu perdi a rainha. E sendo ousado, é possível fazer outra rainha no jogo de xadrez.

Eu jamais executaria o meu plano por algo que me surpreenderia.

Em teoria, ainda tenho oito anos.

sábado, 21 de maio de 2011

Sonhos na Terra do Sol


O pasto do outro lado da estrada já estava amarelado devido à seca e ao sol forte do início do segundo semestre do ano. O vento era escasso e a procura por uma sombra, abundante. As sombras eram naturalmente escassas; o sol naturalmente viril. Do lado de cá da pastagem havia uma sombra miúda, que se desfazia aos poucos, devido à rotação solar. No chão daquela sombra, o único pedaço de concreto quente suportavelmente possível de se sentar. Hora ou outra, um carro acariciava a estrada fogosa, e o ronco do motor, às vezes suplicante, outrora macio, era a única música que aqueles dois rapazes ouviam naquela tarde amarela.

Encostado no muro chapiscado e rabiscado de gesso branco, Heitor descascava e quebrava suas unhas, pensando na sua vontade de um dia não estar mais ali; tinha o sonho de ser médico; cirurgião plástico. Queria mudar o rosto das pessoas, transformá-las tão bruscamente, como um dia ele próprio transformara sua vida. De uma tristeza real para uma beleza artificial. Heitor acreditava que o conforto apagaria a sua tristeza, como uma tempestade seria capaz de apagar o calor daquela estrada que ele olhava intensamente. Quando fosse um cirurgião plástico, ele seria a chuva e floresceria vida nos rostos das pessoas, como aquele mato amarelo que um dia voltaria a ser verde.

Mas conhecia também o poder do tempo; sabia que esse, naturalmente, desfaleceria pouco a pouco sua arte artificial. O tempo, naturalmente, traria o calor e a seca que secaria o seu conforto. E imaginando o mundo como um ciclo vicioso, prevendo um desespero eminente, Heitor se tranquilizou ao pensar na chuva que viria após cada seca violenta.

Do outro lado, com as costas encaixada no tronco da árvore, observando os postes de energia que se encontrava à sua frente, todos ligados por vários fios, estava Miguel. Faces rosadas, sandálias gastas – ele olhou essas com curiosidade. Por que uma sandália se desgasta quando a usamos? Fechou os olhos, encostou a cabeça no tronco e sentiu o calor formigar o pescoço e entrar pelas narinas. Mesmo com calor, seus braços estavam frios; devido ao suor, pensou. O calor tentava consumi-lo e o corpo lutava.

Olhou em seguida para o sol; viu uma enorme bola amarela brilhando no meio do céu puramente azul. Sentiu que se travasse uma batalha entre ele próprio, tendo como arma o seu corpo, contra o sol, que tinha como arma o calor, ele jamais venceria. Seu corpo era mortal. O sol também morreria, mas certamente muito depois dele. Supôs então que os dois tivessem o mesmo tempo de vida; como faria para destruir o sol? Ele sabia que o astro era, logicamente, uma bola de fogo. Ele anularia o sol se tivesse como arma uma bola do tamanho do sol, feita de água, com temperatura numericamente igual a do sol, porém abaixo de zero. Não existe água o suficiente no universo para isso; e, mesmo que houvesse, não se pode chegar à temperatura pretendida.

Poderia usar outra substância que não fosse água, mas jamais a comprimiria o suficiente para que fosse possível apagar o sol. Continuou a pensar – ele não deveria apagar o sol – deveria vencê-lo, controla-lo.  Se tivesse a luz do sol sob o seu domínio, ditaria as regras no mundo; ou melhor, criaria um novo mundo. Era o que ele queria, ter um mundo próprio e real. Teria que descobrir quais eram as matérias primas necessárias para se criar um mundo.

Heitor o interrompeu, com uma voz baixa e grave: “Enquanto ficamos aqui a navegar em ideias vagas, as pessoas morrem lá fora”.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Eterno


Quando meu irmão Gabriel
Me deu uma rasteira
E me empurrou do céu
Tirando o meu nome de Estrela
Eu voei por toda a Terra
Para conhecer o projeto de Deus
Os sonhos não fazem promessa
Mas são eternos

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Século das Luzes


A lua desaparece como uma fatia de luz
As estrelas estão mortas no futuro
O homem nos contra sobre o século das luzes
Leis naturais praticadas pela razão

As palavras refletem aquilo que achamos
Que podemos, ou que, no máximo
O que queremos

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Manicômio


Na sala do manicômio. Paredes brancas, sem ventilação corrente. À direita um casal homossexual, à esquerda, um casal heterossexual. A modernidade caminha para a direita. Eu sou antiquado.

Conversas, conversas; conversas. Ouço um assovio neurótico ao fundo. Vem de um gordo, careca, peludo. Ele transmite o som da morte tranquila. Tranquilíssima! Ele é um psicótico nato, seus olhos revelam. Olhos esbugalhados naturalmente, que apenas se adquire artificialmente enxergando navios na manta do Cristo Redentor.

O manicômio se enche aos poucos. Os homossexuais conversam histericamente. Não sou criador, sou narrador. Narro os movimentos do manicômio e observo o psicótico.

Entro em mim. Um pouco de areia mágica dentro de mim. Fecho os olhos e aparece aquela fenda vermelha. Pronto. Estrelas azuis no céu branco. Minha mente está lenta e dolorida.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Meditações Sobre Lord Henry e Dorian Gray


Lord Henry é demasiadamente sincero. Mesmo quando leio suas palavras, sozinho, recolhido em minhas ideias vagas, me sinto por várias vezes envergonhado; como se eu estivesse me despindo pela primeira vez, frente a um espelho.

Quando a vergonha evapora, pelo exercício da prática, o prazer se distribui no vazio que fica; e ouvir as palavras de Lord Henry torna-se viciante.

Eu, a pico da posição de Dorian Gray, faria o mesmo: cairia em tentação da mesma forma; e caso me arrependesse, pediria castigo; invés de perdão, como Dorian fez. Entretanto, outrora me envergonhei, pois Lord Henry me provou que sou sórdido, já que, ao contrário de Dorian, eu não me arrependeria de nada.

Envergonhado novamente pela descoberta de minha sordidez, o exercício da prática deu trono ao prazer. É um efeito de evolução, que a olhos medíocres é catastrófico. A princípio, fui medíocre. No meridiano da descoberta, eu estava aterrorizado. A um quarto do fim, eu estava temorizado. No fim, eu estava conformado.

Dorian era um anjo enfeitiçado; e a Terra não é lugar para anjos; a não ser quando os enfeitiçados. Eu não sou um anjo enfeitiçado. Oscar diz que aquele que se sobressai, cria inimigos. E aquele que é popular, é medíocre. Não quero exuberância, e muito menos populismo. Logo, sou pupilo de Oscar, o criador; e não de Lord Henry, a criação; que paradoxalmente, manipula. E também não sigo o vaidoso Dorian Gray, o belo fantoche que me trouxe sensações ébrias em pleno estado sóbrio.

sábado, 7 de maio de 2011

Encontraremos-nos


Agora que você se foi
Nós somos deixados a continuar
Pelas noites que parecem duas vezes mais longas
E aqui, dentro do meu coração
Eu não me sinto muito forte
Mas nos encontraremos novamente

Ao vento eu ouço sua música
A cada hora que passa
Sinto-me cada vez mais só
Mas um dia nos encontraremos de novo
Um dia...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Geração Internet


Entrei hoje na biblioteca para pegar um álbum do The Who, saudoso como estava dessa grande banda – inclusive os ouço agora enquanto aqui escrevo – e me deparei com o meu irmão batendo punheta em frente ao computador. Já o percebi várias vezes masturbando em frente ao computador, mas hoje não me toquei que ele poderia estar fazendo isso naquele exato momento. Eu apenas queria ouvir The Who. Minha geração se masturba vendo vídeos na internet. 

domingo, 1 de maio de 2011

Homem Velho e Ganancioso


A história de um homem velho e ganancioso
Que trazia um casal de filhos consigo
É a história que lhes contarei de novo
Para que parem de olhar para o próprio umbigo

Nunca foi correto escravizar os seus iguais
Pior ainda quando são os seus filhos
Não é certo alegar amor de pai
Pois não posso dar a outro
O que não quero comigo

E se você tem filhos
Não basta dizer que é proibido
Você precisar explicar
Quais são os motivos

A qualquer hora
Pode aparecer uma senhora simpática
Encenando uma antiga peça de palco
Oferecendo aos seus filhos algo por nada
E lhes entregando nada por algo

Se eu fosse algum zombador
Diria que a história é uma herança
Mas se tem uma lição que aprendi
É que sempre se deve temer a ganância