sábado, 6 de novembro de 2010

Soldados


O que há demais em ficar parado
Enquanto os homens se mantêm calados
E caminham pelo vale desesperados
Vendo que lá de longe vêm os cavalos
Com seus cavaleiros todos armados

O gosto da derrota é sempre pesado
E mesmo que olhe para os lados
A sensação é de estar encurralado

E não adianta querer voltar para trás
Porque vocês são soldados
E dever de soldado é morrer pela paz
Aquele que não carregar o fardo
Morrerá do mesmo jeito, tanto faz

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Olha para Cá


O cheiro doce de infância
Os cabelos que esvoaçam pelo vento
Se quer me deu a esperança
Mas eu fiquei parado atento
Com vontade de ser esbarrado pelos seus dedos
E dentro de mim sentindo medo
De ser encarado por aquele olhar meigo

E se ela é tão linda e eu tão feio
O pessimista diria que não há meio
Mas mesmo eu que não sou interesseiro
Tenho meus motivos de qualquer jeito

E não há nada a fazer que eu não tenha feito
Só quero um pedaço do inteiro
E experimentar de olhos fechados um beijo
Que anotei no pedaço de papel que vou lhe entregar
Sugerindo que você olhe para cá

domingo, 31 de outubro de 2010

Águas Mágicas


A água que agride a rocha, sob o olhar do sol, reflete os meus desejos que destino à natureza violenta do acaso, que me espera na espreita da quina com o punhal na mão, na ânsia de pegar minha visão desprotegida. O perigo está no instante; no piscar; na fadiga.

As ondas que mergulham para casa, quando encontra o escudo astucioso da cautela, refletem o anseio que meus medos sentem quando anestesio o desespero que me angustia. A precaução tomba no esquecimento; na confiança; na alegria.

A piscina seduz pelo manto vibrante que oculta o receio de se perder no escuro que amedronta o passageiro. A ilusão está nos olhos; no sorriso; estampado no rosto.

O segredo da mágica é o óbvio.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Passado Afogado


Lembra-se do prazer em destruir
Das vozes estridentes e alegres
Dos sonhos que constituí
Lembra-se da vida leve?

Quando a mentira era um exercício
Nada era deles, tudo era seu.
Lembro-me de tudo isso
E você por acaso se esqueceu?

Lembra-se do fogo que consumimos
Em homenagem aos ídolos?
Você guarda as lembranças
Que não nos deixa perdidos?

E se hoje ainda existe um passado
Ou ele está esquecido
Ou está a passeio
E o que se tem guardado
É um olhar esquisito
Para as injúrias deste meio

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Expedição


Não há tempo a se perder e muitos lugares para conhecer. Sou pequeno nessa dimensão, mas atravessei desertos inteiros atrás de um tesouro que vi uma única vez na vida. E subi nas torres e montanhas mais altas para ter uma visão panorâmica.

Enxerguei a essência do infinito, mas fracassei na minha expedição. E foi de um penhasco medonho que pensei em voar atrás daquilo que sonho desde que me ceguei ante deslumbrante flagelo.

Morei em tocas, árvores e ocas; e descobri fontes brutas de diamante; mas aquele brilho sem cor eu não vi. Resisti aos tremores do fundo dos oceanos e à escassez de alimentos das terras de gelo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Trovoadas


O trovão caiu
Em mais alguma cabeça
E o aviso do circo
É para que você se proteja

Hoje vai ser perigoso
Os monstros fugirão
As autoridades perguntaram
Aonde os monstros irão

Tem um na minha casa
Ele está com a minha mulher
Me mandou entrar em uma cova rasa
E orar com toda a minha fé

Ninguém está armado
Ninguém foi amado
Ninguém se defende
O monstro me rende

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Rito


Pegue pela mão seu primogênito e único filho. Leve-o até o pico da montanha mais alta que seus olhos distinguem. Seu filho lhe faz bem; ele também me fará, por que não somos diferentes. E se somos, você é pior; porque eu me entrego aos meus filhos, e você faz com que eles se entreguem a você; portanto, não insinue que sou cruel, uma vez que somos, todos, aves de rapina.

Não se esqueça, é um sacrifício para a glória!

Vamos meu filho, me mostre sua mão. Mostre-me qualquer coisa. Está longe para dizer demais. Quão suave são suas mãos. Devagar; pois o prazer está na tortura.

Então eu fechei os olhos e tirei a batina; e coloquei cada caroço do meu instrumento na boca do jovem. Vamos fazer uma prece.

Um homem lá de longe disse que não se deve pedir com oração antes de construir um santuário; um lugar para que possamos nos esconder. Só assim poderemos fazer qualquer coisa ou preparar qualquer oferenda para aquela garota que nos distribui ordens em troca de desejos sinceramente humanos.

Antes de qualquer coisa, contar-lhe-ei sobre as catacumbas que escondem os rios onde devemos banhar juntos; que é para nos limparmos dessa moral que você carrega no seu coração.

Qual número você carrega? Se não for o mesmo que carrego, você não será bem vindo ao nosso rito.

Espere; estou falando demais sem me dar conta de que agora você já está bem interessado em saber o que lhe tenho a mostrar. Mas você consegue enxergar este leão que lhe fala, agora, sem línguas estranhas? O que ele diz é que você não tem nada a saber; somente a fazer.

Ajoelhe-se e pergunte o que é preciso ser feito; então eu lhe direi.

Esperança é o mal que eu temo. Se livre dela e faça agora como os outros estão fazendo.

Glória! Glória!