sábado, 29 de janeiro de 2011

Processo


Na transferência dos estigmas hora calculados, hora inteiramente demonstrados, sucedem considerações ambíguas, de acordo com o sucinto dizer que se pretende ao indicar calamidades de consciência. Dispensa-se simplicidade ao se tratar, veementemente, suposições que antecedem a ação locomotora; isto é, habitam-se campos não palpáveis, mas não menos existentes; muito ao contrário, aliás. Não se trata puramente de agir na conformidade do plano, e sim de exaurir as possibilidades nas mais diversas hipóteses metodológicas das análises que visam concluir consequências.

Um ato vaidoso adquire suas honrarias próprias ao romper tal processo de elaboração. Atividade executiva é, sempre, mera ferramenta. Há governantes compulsivos, meras ferramentas de ferramentas. Os grandes governantes, isto é, os maestros, perfeccionistas e egoístas por deriva, coordenam toda a máquina sob o salto da mais essência elegância.

O funcionamento se dá em um autêntico regime de servidão, onde monarcas são artifícios; armas são execuções e servos somos nós mesmos. Nada age com surpresa; somente se houver anteriormente tal concepção. O que não é presumido é inexistente; não por ignorância, sim por fato. Fato é fato.

Criação não presume fermento ou logaritmo. Criação vem do poder original, que nasce com o primeiro respirar. O primeiro respirar é a primeira expressão da teoria colocada em prática. Não com todas as suas astúcias nesse momento inicial, já que se inicia por instinto. As artimanhas nascem da experiência, matéria bruta para novas concepções. O maestro é aquele que domina os sentidos e domestica suas ganâncias.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Choque


- São quantos andares mesmo?

- Fica no décimo oitavo, senhor?

- Ah, perfeito.

- Não, senhor; vá pelo elevador.

- Claro. O elevador.

Nunca moraria em um apartamento. Não se pode gritar sem pagar multa. Na verdade, um arroto alto é notado ao longe. “Viu como o senhor do 204 é nojento? Sinto daqui da minha casa”, diria a diretora de recursos humanos da construtora, para a promotora de vendas. “Mas você deve ter contato com piores”, retrucaria a víbora. “Estamos acostumados, não é mesmo?” Alfinetada elegante.

Apartamento. Tem quem goste. Ainda mais quando se custa trezentos mil reias.

- Olá, tudo bom?

O certo é pegar na mão primeiro e depois beijar? O rosto, evidentemente. Ou ignora a parte da mão? Prefiro sem beijo. Chamam isso de desprezo. Não que seja desprezo; não que não seja desprezo também.

- São quantos andares mesmo?

- Este é o décimo oitavo.

Por que há tantas coisas aparentemente simples, que não são de fato? A professora de artes diria que a dificuldade está nos detalhes. Já a de ética, diria que o que falta ao mundo são palavrinhas mágicas.

- O quadro é Monet?

- Não, Diderot.

- Nossa, como é alto aqui.

- Sim, estamos no décimo oitavo andar.

- E são quantos... Olá, garoto!

- Oi, tio.

- E aí, jogando muita bola?

- Sim, sim. Comprei o Ronaldo. Ele tem 98 de chute; mas acho que vou editar.

- É a função nova do PS que ganhei da vovó no natal.

- Ah, sim. O PS.

- Ganhei um hamster, você quer ver?

No meu tempo era senhor. Aliás, no meu tempo, era golzinho. Falo meu tempo como se eu fosse um velho. No meu tempo, 34 era jovem.

- Olha aqui, ela é tailandesa.

- Mas ela não é francesa?

- Eu falo sobre a minha hamster.

- Dizia eu sobre a tela. Pois bem, então é rata.

- Errata? Mãe; o tio disse que o quadro tem uma errata.

- Tem o que?

- É, minha irmã. Uma dissolução congruente nos âmbitos das extremidades da hipérbole. Em uma análise superficialmente fria, creio que há uma distorção angular. É óbvio que se trata de um manuseio artístico bem executado. Afinal, é Diderot.

- É... É claro. Belíssimo!

- Sim. Belíssimo.

No meu tempo, chamavam-se isso de rato. E quando se via algum, matava com espingarda de chumbinho. No meu tempo... No meu tempo o cacete, eu não sou defasado para pensar o tempo inteiro “no meu tempo”.

- O marido dela morreu.

- Dela quem?

- Da Tofu.

- Tofu?

- É, a minha hamster.

- Ah sim, o marido da... Hamster. Como venta aqui, não é?

- É. É o décimo oitavo andar.

Até mesmo os suspiros têm os seus momentos adequados para suas execuções. No momento errado, causa desconfianças; condenações.

- O que foi?

- Não, nada. Como o hamster morreu?

- Eu o coloquei na sacada, para brincar ao sol. Faz bem para os pelos.

- Então... Ele caiu?

- Ele estava na gaiolinha. Tem escadinha e rodinha para ele correr. O sol estava muito quente, ele se cansou; aí eu joguei um pouco de água nele. O médico, especialista, disse que a causa mortis dele foi choque térmico.

Concluo que sou antiquado e defasado, aos 34; pois como meu velho pai, eu pensei: “é para acabar mesmo”.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Arco


Eu choro por ver o que é meu
Tão fora do meu alcance estreito
Um arco dourado condiz sombras
Que tapam algo que seria perfeito

Não gosto de olhar os seus dedos
E sentir vontade de ser cego
Só assim eu teria no meu leito
A chance que sempre observo

Desconfio que nessas vistas cansadas
Escondem uma vontade de olhar ainda mais
Você entende; esquecer e lembrar
Questões de tempo e espaço; tanto faz

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Incompleto e Acabado


O melhor não foi dado
Foi escolhido e oferecido
E não foi aceito
Alguém se importa com isso

Eu não ligo se seu tesouro
Foi roubado
Não importo se alguém o tenha jogado
No lixo.

No mesmo lixo
Que eu fui encontrado
Não interessa
Não tem festa

Então aproveita
Que ninguém olha
Essa é a hora
De beber e comer
O que vale a pena
Incompleto e acabado
Termina assim.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Gladiador Mesquinho


Volte para debaixo da cama enquanto mantenho a ordem aqui do lado de fora. Sossego custa caro no atacado. A moeda de pagamento é vermelha. Um desejo consome o outro. Vê se visualiza a lógica da encomenda agora.

Quando eu era como você, também pensava como você. Mas o que conclui é que não se muda conclusões; muito menos princípios. Terminologias eu prefiro que fiquem expressas nas paredes de dentro dos armários. Não que eu seja contra elas.

É que argumentos são feridos com argumentos. E argumentos se perdem com o vento. O que fica é o que é, ou que o sobra. Então fique aí debaixo da cama enquanto eu faço o necessário para o necessário.

Nunca houve muita diversão mesmo; apenas uns joguinhos onde a graça é vencer. Enquanto houver condutas desse gênero, serei o tecido da cortina; pois só assim que se vê a dama a nua. É o que importa.

Mas por mesquinho que sou, eu ainda digo: prefiro as marionetes, acima de tudo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Juvenil


Quem vai falar
O que se tem que fazer
Quando todos querem ser
E saber da notícia da televisão

Quando penso no que vai dar
É melhor nem dizer
Porque o que importa
É o que está na TV
E se não estiver
Melhor eu fazer um curso
Ou passar a saber
Sobre a vida dos ursos
Que se vão quando eu tusso

Ou dois anos atrás
Na época do vestibular
Quando não tinha o que fazer
E inventava coisas para a cabeça

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ondas Curtas


Você preparou seus sapatos
Com algumas mudas de roupas.
Mantém os olhos vidrados
E a voz macia, rouca.

O tempo atravessou
A minha funerária de dor.
Olhe pela janela
E descubra uma fresta

Que peça por ajuda
Nos instantes de glória
Porque uma língua muda
Foi jogada para fora.

Quando se sente o efeito
Não há nenhum remédio.
Talvez o único jeito
É dormir de novo com o tédio

Brinque de dormir
Enquanto permaneço acordado
Ou tente fugir
Pelas ruas, governado
Pela astúcia do frio