segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Reis do Cabaré na Terra dos Golfinhos


Cansado de olhar o rosto alheio e notar uma mentira ambulante querendo me convencer de que estou errado. Cansado de ficar calado, já que quando abro a boca, sou acusado de errado, ignorante, ameaça, fascista. Cansado de decorar idéias das quais não concordo apenas para ser visto com bons olhos; obter méritos e ter chances de progresso.

Cansado de ser encarado como boneco, ser vendido como objeto e carregar o fardo da consciência. Se ao menos fosse cego, não testemunharia a mim mesmo as covardias; mas como não sou idiota, desfruto do meu direito de ficar calado. Cansado de estudar a prostituição; fazendo oferendas de honrarias e observar no semblante alheio o brilho do desejo em tornar-se mais uma prostituta; crendo que carregará a coroa de um rei.

Cansado da repressão à minha natureza humana vingativa, de caráter satisfativo; e com ódio no peito por saber que não sou diferente de ninguém. Por que se ao menos eu fosse, saberia que eu estava errado. Mas não estou; o problema é esse. Cansado de ver a lepra tomar o meu lugar ao sol dos dias, enquanto eu e meus semelhantes precisamos nos ocultar nas trevas, por sermos normais; e por conseqüência, não aceitar a doença e sermos condenados.

Aquele que não for egoísta, que se manifeste agora. Então o que é um homem para censurar outro? Um egoísta também, provavelmente. Qual o direito que este homem tem em me amordaçar?

Cansado de mentir e mentir para evitar o espanto falso no rosto de alguém que mora na terra onde não há nada que o sol não presenciou até então.

Há muito achava que treva era escuridão; mas não. Treva é claridade; por que já não há nada mais claro do que saber que neste circo eu sou o golfinho que brinca com a bola, se escondendo no fundo das águas, depois do espetáculo; e vendo o mérito destinado ao domador.

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