terça-feira, 31 de agosto de 2010

Viagem Urbana


Onze e meia da manhã, hora do almoço. Arroz, feijão, carne, rúcula, tomate e suco forte de tamarindo. Como rápido, já estou atrasado. Banho gelado de alguns minutos, dentes escovados em instantes. Visto a roupa e parto com a mochila de guerra nas costas. Vinte minutos de caminhada sob o calor escaldante do sol a pino do cerrado brasileiro, na estação da seca. Seca está minha boca, como ameixa.

O nibus está cheio, mas no fundo há espaços. Encolho o corpo e caminho atropelando pernas; "Passageiros idiotas que não sabem andar de ônibus". Viagem longa, tão longa quanto a espera no ponto.

Chego ao centro e no céu o sol brilha, soberano. Há de se fazer uns 40 graus neste instante. O ponto é de zinco, e mesmo na sombra acredito estar em uma estufa ao ar livre. O golpe de misericórdia é saber que pagamos por esse sofrimento.

A linha 018 para, e entro. Agora sim o verdadeiro espetáculo começa. Consigo contar 32 pessoas em pé. O ônibus está lotado e não para de entrar gente. Não se distingue mais o calor solar do calor humano. Todos se estorricam; ambiente abafado. O motorista, atrasado e apressado, faz curvas fechadas em altas velocidades; nos debatemos como leitões em caçambas de caminhão. Lembro novamente que todos pagam por essa viagem; me desperto dos pensamentos ao ver chegando, no ponto que o motorista acabara de parar, um rapaz que estuda na mesma classe que eu. Pobre coitado, perderá a aula.

A viagem segue, minha barba me pinica; minha camiseta está pregada nas costas. Não se respira ar naquele ambiente, apenas calor; e o odor fétido do alho que uma velha carrega.

Enfim, chego ao fim da minha viagem. Com dificuldade desço do ônibus, arrastando comigo a mochilha de guerra. Logo atrás tem outro ônibus, este vazio, que pára para descer o rapaz que estuda comigo. É duro saber que a alguns metros atrás de você não havia sofrimento. É difícil aceitar sofrer sozinho Mas não penso muito, preciso ir ao banheiro, o tamarindo fizera efeito. Além de tudo, mais essa.

Subo as escadas, em direção a sala de aula; aliviado. Todo mal já passara; perdi metade da aula com essa guerra chamada pegar ônibus, mas ainda há tempo para aprender alguma coisa.

Abro a porta e todos procuram o professor em mim, enquanto procuro o professor na sala. O professor não veio.

Nenhum comentário: