terça-feira, 25 de agosto de 2009

Recuperação


Conte as estrelas como elas são
Entre na casa de recuperação
Espere pacientemente pelo apagão
É preciso deitar e descansar
E esperar pelo médico
Ele está no seu lar
Pode até demorar
Mas trará consigo o remédio

Enquanto isso estique o lençol da cama
Prepare-se para uma partida de dama
Ou você prefere tomar uma sopa?
Então vista essas roupas
Porque aqui você terá todo o tempo
Deite-se devagar, sem pressa
E escute o ranger do vento
Essa é a nossa única festa

Achou que ninguém lhe colocaria a mão?
Que suas condenações seriam vãs?
Agora que sabe que está na prisão
Saiba que deixarei sua mente sã.

domingo, 23 de agosto de 2009

Castelo

Tudo constante, permanece. Às vezes as nuvens se movem e giram; mas o que se espera permanece onde está. Não há pressa. Lembra-se de quando havia fadiga e as preces eram pela calmaria? Mas não há o que seja mais turbulento que a essência da calmaria.

Tem algo para fazer? Então me conte o que é; pois estou com preguiça de descobrir.

As flores se movem como queríamos que movessem. O vento saiu para a caça; e o tempo se mantém propício. Talvez seja correto chorar um pouco por nós. Nenhuma mentira para o dia de hoje?

Bem, hoje eu saí para brincar, como há cinquenta anos; e me diverti bastante com os acidentes que causei. O que há para se querer mais? Mas tudo não passa de uma grande farsa, já que como você mesmo diz, não há o que se vai que não volta; exceto a resistência das tragédias. Faz parte do fortalecimento. E do amadurecimento, por que não?

Uma vez vi um castelo e não entrei. Ele se foi.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Retorno


Então espere o dia encontrar um tempo
Falar palavras para agradar seus ouvidos
Já que a distração é olhar para o vento
Tendo a impressão de estar perdido

Um brinde estreia no espaço
Saindo pelos poros do meu rosto
Agarra-se nos tormentos de um abraço
Se afundando no fundo do poço

Está na hora de ir para trás
Já que traça o horizonte dessa linha vertical
Não importa o que se faz
Começando ou não, acaba no final

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vítima

É no momento crucial do golpe da redenção que o pavor se apodera do mestre. A curva que se revela no curso da reta é o sorriso do desespero. Os joelhos se rendem e não há o que se possa fazer. Confiança e crença são abatidas como se fossem iniciantes e secundárias; e não uma faísca do começo.

Chega. Vou retornar e andar, conforme convém. Isto é, em círculos. Porque todos nasceram para perseguir suas próprias sombras; e domadores não existem no plural. Há apenas um, e ele chegou aqui antes de qualquer um de nós. Seu nome é desespero. Desnorteio é a sua arma, enquanto arrependimento é o conforto que ele oferece; pois ele se dá ao luxo da misericórdia, assim como os deuses.

Portanto, se quer uma sugestão, volte para a sua cela e não saia de lá nunca mais. Exceto se quiser me fazer sorrir.

domingo, 16 de agosto de 2009

Reis do Cabaré na Terra dos Golfinhos


Cansado de olhar o rosto alheio e notar uma mentira ambulante querendo me convencer de que estou errado. Cansado de ficar calado, já que, quando abro a boca, sou acusado de errado, ignorante, ameaça, fascista. Cansado de decorar ideias das quais não concordo apenas para ser visto com bons olhos; obter méritos e ter chances de progresso.

Cansado de ser encarado como boneco, ser vendido como objeto e carregar o fardo da consciência. Se ao menos fosse cego, não testemunharia a mim mesmo as covardias; mas, como não sou idiota, desfruto do meu direito de ficar calado. Cansado de estudar a prostituição; fazer oferendas de honrarias e observar, no semblante alheio, o brilho do desejo em tornar-se mais uma prostituta, crendo que carregará a coroa de um rei.

Cansado da repressão à minha natureza humana vingativa, de caráter satisfatório; e com ódio no peito por saber que não sou diferente de ninguém. Porque, se ao menos eu fosse, saberia que estava errado. Mas não estou; o problema é esse. Cansado de ver a lepra tomar o meu lugar ao sol todos os dias, enquanto eu e meus semelhantes precisamos nos ocultar nas trevas, por sermos normais; e, por consequência, não aceitarmos a doença e sermos condenados.

Aquele que não for egoísta, que se manifeste agora. Então, o que é um homem para censurar outro? Um egoísta também, provavelmente. Qual o direito que este homem tem de me amordaçar?

Cansado de mentir e mentir para evitar o espanto falso no rosto de alguém que mora na terra onde não há nada que o sol não presenciou até então.

Há muito tempo achava que a treva era escuridão; mas não. Treva é claridade, porque já não há nada mais claro do que saber que, neste circo, eu sou o golfinho que brinca com a bola, escondendo-se no fundo das águas depois do espetáculo e vendo o mérito destinado ao domador.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Soldados


O que há demais em ficar parado
Enquanto os homens se mantêm calados
E caminham pelo vale desesperados
Vendo que lá de longe vêm os cavalos
Com seus cavaleiros todos armados

O gosto da derrota é sempre pesado
E mesmo que olhe para os lados
A sensação é de estar encurralado

E não adianta querer voltar para trás
Porque vocês são soldados
E o dever de soldado é morrer pela paz
Aquele que não carregar o fardo
Morrerá do mesmo jeito, tanto faz

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Passado Afogado


Lembra-se do prazer em destruir
Das vozes estridentes e alegres
Dos sonhos que constituí
Lembra-se da vida leve?

Quando a mentira era um exercício
Nada era deles; tudo era seu.
Lembro-me de tudo isso
E você, por acaso, se esqueceu?

Lembra-se do fogo que consumimos
Em homenagem aos ídolos?
Você guarda as lembranças
Que não nos deixam perdidos?

E se hoje ainda existe um passado,
Ou ele está esquecido,
Ou está a passeio,
E o que se tem guardado
É um olhar esquisito
Para as injúrias deste meio.

sábado, 8 de agosto de 2009

Águas Mágicas


A água que agride a rocha, sob o olhar do sol, reflete os meus desejos que destino à natureza violenta do acaso, que me espera na espreita da quina com o punhal na mão, na ânsia de pegar minha visão desprotegida. O perigo está no instante; no piscar; na fadiga.

As ondas que mergulham para casa, quando encontra o escudo astucioso da cautela, refletem o anseio que meus medos sentem quando anestesio o desespero que me angustia. A precaução tomba no esquecimento; na confiança; na alegria.

A piscina seduz pelo manto vibrante que oculta o receio de se perder no escuro que amedronta o passageiro. A ilusão está nos olhos; no sorriso; estampado no rosto.

O segredo da mágica é o óbvio.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Trovoadas


O trovão caiu
Em mais alguma cabeça
E o aviso do circo
É para que você se proteja

Hoje vai ser perigoso
Os monstros fugirão
As autoridades perguntaram
Aonde os monstros irão

Tem um na minha casa
Ele está com a minha mulher
Me mandou entrar em uma cova rasa
E orar com toda a minha fé

Ninguém está armado
Ninguém foi amado
Ninguém se defende
O monstro me rende

sábado, 1 de agosto de 2009

Olhos Fechados


Pisa no chão sem desconfiar da queda
Monta o animal sem saber onde ele o leva
Fecha os olhos e imagina um futuro
Não vê a cara que bate contra o muro

A estrada que corre é feita de pedregulhos
Lamenta-se e balbucia murmúrios
Mas pisa no chão sem desconfiar da queda
E monta o animal sem saber onde ele o leva

Enxerga ao longe o olho da fera
E não vê que aqui um monstro lhe espera
Insiste em manter os olhos fechados
Traça a corrida gritando o nome de Deus
Mas se tem algum temor, é do Diabo.