
Ela dança como se a terra estivesse estremecendo. E talvez estivesse mesmo. Os prédios, do outro lado da janela, inclinavam-se como animais noturnos; e as árvores, lavadas por uma lua doente, trocavam de pele no escuro.
Aqui dentro, ela apenas dançava, mas não era uma dança qualquer. Era lenta, meticulosa, cruel. A música não vinha dos aparelhos. Subia como um incenso escuro. Cada silêncio entre as batidas deixava um buraco. E nesses buracos caíam pequenos pedaços da minha razão.
Antes mesmo de eu conseguir fixar o olhar, o cheiro brotou. Perfume barato, doce, excessivo, desses que tentam gritar mais alto do que a pele que o usa. Invadiu minhas narinas antes que eu decidisse respirar. Algo em mim se perturbou.
Não era ainda destruição. Era uma desorientação primitiva, uma memória sem imagem, um incômodo na base do crânio. Eu senti que ela já estava dentro de mim antes de eu conseguir vê-la inteira.
A música pulsava. O perfume também. E eu, ali, tentando recuperar o fôlego, já havia perdido alguma soberania que nem sabia que possuía.
Então eu vi.
Suas mãos subiram pelo corpo, e eu vi: ela usava uma saia justa de vinil preto, dessas que brilham como poça de óleo, e um sutiã de lycra azul-veneno, barato, com uma pequena fenda no bojo esquerdo. Vulgar. Exatamente o tipo de roupa que não deveria causar vertigem.
Eu tentei me apoiar na visão, classificar, julgar, reduzir aquela mulher a uma imagem compreensível. Não consegui.
Ela puxou o zíper lateral da saia. O som foi um arranhão, um rato roendo o silêncio.
Olhei para o relógio. O ponteiro não se movia, mas a sombra dele, sim. Ela girava no sentido contrário, como se o tempo estivesse sendo desfeito em vez de vivido. A distância entre nós diminuía, mas não em linha reta. O ar se dobrava a cada passo dela, e eu me sentia encurvado por dentro.
Então o suor começou a se misturar ao perfume. O cheiro agora não era mais apenas doce. Havia nele um calor salgado, uma pele que se move há tempo demais. Minha visão, que antes tentava dominar, começou a fraquejar.
A saia desceu. Vinil sobre pele. O chão pareceu mais escuro onde ela tocou.
Os dedos dela encontraram a fenda no sutiã. Não o abriram. Apenas brincaram com a borda.
Eu ainda reconhecia meu rosto. Ainda sabia meu nome. Mas o suor e o perfume se confundiam na minha garganta, e eu já não distinguia se aquilo me atraía ou me repelia.
O sutiã caiu. Não houve estalo. Ele simplesmente se desfez.
Ela sorriu. Depois, as mãos foram para a calcinha, outra peça vulgar, rosa choque, alças altas.
A distância foi abolida.
O mundo deixava de ser cenário e passava a ser sintoma. A dança não acontecia diante de mim. A dança me usava como lugar. O verdadeiro chão era a minha consciência.
Então veio o resto. O cheiro da virilha a centímetros da minha boca. O doce ranço das coisas esquecidas dentro do armário. O sexo como matéria, não como promessa. O perfume, agora, era apenas uma lembrança, uma tentativa fracassada de esconder o que o corpo sempre foi.
Havia nela uma vulgaridade que me conduzia. Não porque me ofendesse, mas porque o nojo e o desejo haviam se tornado indistinguíveis.
Minha razão tentou formar uma última frase de defesa. Saiu pela metade. Depois não saiu nada. Minha boca se abriu, mas minha língua esqueceu como funcionam as palavras.
Chegou o instante. Seu corpo tornou-se contíguo ao meu sem que eu pudesse dizer onde um terminava e o outro começava. Algo no meu nome se afrouxou. Meu rosto, aquele que eu ainda reconhecia, começou a perder sua forma. Eu senti o meu olho esquerdo lembrar de uma cor que nunca existiu. Depois, o direito desaprender a forma do meu próprio rosto.
Meu corpo respondeu sozinho: um arrepio, um endurecimento errado, um vazio no lugar do estômago. Minha cabeça produziu uma última imagem. E depois produziu nada.
Minha mente apenas registrou: isso é o fim de alguma coisa que você não sabia que podia acabar. Restava o corpo dela. Restava o meu. Restava o suor escorrendo entre os dois. Foi uma morte pequena, mas definitiva. O homem que restou seria apenas uma nota de rodapé.
O relógio parou sem parar. Os ponteiros ainda se moviam, mas já não tinham autoridade. O tempo era uma carcaça de inseto na parede.
Talvez a destruição não seja uma explosão. Talvez seja mais refinada: a lenta impossibilidade de voltar à forma anterior. Um homem se perde não quando cai, mas quando percebe que a queda lhe ensinou uma verdade que a antiga postura não comporta.
Então veio o silêncio. Não o silêncio da música. O silêncio de uma identidade antiga que já não encontrava voz. O silêncio, agora, não era ausência de som. Era o fim da possibilidade de me narrar.
Ela se aproximou o bastante para que a frase parecesse surgir de dentro de mim, não dela, arrancada de uma região que eu desconhecia, pronunciada pela própria noite:
— Agora, vamos nos destruir, meu bem.