domingo, 30 de agosto de 2009

Selvagem


O que acha de umas palavras soltas que encontrei na selva? Havia uma pedra que dizia para não sentir medo ao removê-la; então me dê aqui uma mão para removermos o empecilho do caminho. Está tão quente aqui. Eu tenho uma solução: tire sua blusa.

Fazer força faz sentir vontade de ter força para empurrar um pouco mais. Estou tremendo um pouco; e o suor escorre pelo corpo.

Faltam algumas milhas e já não me seguro de querer dizer que seus lábios invocam pensamentos promíscuos. Acho que disse desejar tomar banho nas águas salinas do seu corpo.

Cobra à esquerda, lagarto à direita e cachorro ao centro. Estão protegendo o meu retorno. Quando falta pouco é que temos mais vontade. Todos os lados nos aplaudem; então vamos dar um espetáculo.

Seja bem-vinda às minhas pernas, com seus tremores e fibras destroçadas. Estamos enlouquecendo? Cabe mais. Um passo para cá e comece a chorar e gritar bem alto.

Todos os sonhos e espíritos correm para cá; não precisamos de nada além da reciprocidade das carícias. Você me atormenta; eu lhe curo. Você me desperta; eu desespero.

Ensina-me professora; o proveito de errar e o ódio da prudência; o desprezo pela paciência; o sufocar o nexo e espantar o medo. Disciplina-me na promiscuidade e a aceitar a beleza que mora na perfeição da enganação. Dê-me na boca o acalento doce do erro; do que tem sabor de preguiça; daquilo que esnoba a vaidade e enrijece a gula.

Entrega-me os segredos dos artifícios das suas artimanhas que me golpeiam em sequência. Dê-me um lugar na delicadeza; faça com que um toque sutil pare o temporal que me encharca de fogo.

Somente mais uma vez.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Bilhete


Tenho comentários a tecer
Hoje, nessas escadas de lamúrias
Algo íntimo de você
Lembranças de fúria
Indignas da minha personalidade
Trocadilhos fora da normalidade
Alterado pela estima da sua idade

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Recuperação


Conte as estrelas como elas são
Entre na casa de recuperação
Espere pacientemente pelo apagão
É preciso deitar e descansar
E esperar pelo médico
Ele está no seu lar
Pode até demorar
Mas trará consigo o remédio

Enquanto isso estique o lençol da cama
Prepare-se para uma partida de dama
Ou você prefere tomar uma sopa?
Então vista essas roupas
Porque aqui você terá todo o tempo
Deite-se devagar, sem pressa
E escute o ranger do vento
Essa é a nossa única festa

Achou que ninguém lhe colocaria a mão?
Que suas condenações seriam vãs?
Agora que sabe que está na prisão
Saiba que deixarei sua mente sã.

domingo, 23 de agosto de 2009

Castelo

Tudo constante, permanece. Às vezes as nuvens se movem e giram; mas o que se espera permanece onde está. Não há pressa. Lembra-se de quando havia fadiga e as preces eram pela calmaria? Mas não há o que seja mais turbulento que a essência da calmaria.

Tem algo para fazer? Então me conte o que é; pois estou com preguiça de descobrir.

As flores se movem como queríamos que movessem. O vento saiu para a caça; e o tempo se mantém propício. Talvez seja correto chorar um pouco por nós. Nenhuma mentira para o dia de hoje?

Bem, hoje eu saí para brincar, como há cinquenta anos; e me diverti bastante com os acidentes que causei. O que há para se querer mais? Mas tudo não passa de uma grande farsa, já que como você mesmo diz, não há o que se vai que não volta; exceto a resistência das tragédias. Faz parte do fortalecimento. E do amadurecimento, por que não?

Uma vez vi um castelo e não entrei. Ele se foi.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Retorno


Então espere o dia encontrar um tempo
Falar palavras para agradar seus ouvidos
Já que a distração é olhar para o vento
Tendo a impressão de estar perdido

Um brinde estreia no espaço
Saindo pelos poros do meu rosto
Agarra-se nos tormentos de um abraço
Se afundando no fundo do poço

Está na hora de ir para trás
Já que traça o horizonte dessa linha vertical
Não importa o que se faz
Começando ou não, acaba no final

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vítima

É no momento crucial do golpe da redenção que o pavor se apodera do mestre. A curva que se revela no curso da reta é o sorriso do desespero. Os joelhos se rendem e não há o que se possa fazer. Confiança e crença são abatidas como se fossem iniciantes e secundárias; e não uma faísca do começo.

Chega. Vou retornar e andar, conforme convém. Isto é, em círculos. Porque todos nasceram para perseguir suas próprias sombras; e domadores não existem no plural. Há apenas um, e ele chegou aqui antes de qualquer um de nós. Seu nome é desespero. Desnorteio é a sua arma, enquanto arrependimento é o conforto que ele oferece; pois ele se dá ao luxo da misericórdia, assim como os deuses.

Portanto, se quer uma sugestão, volte para a sua cela e não saia de lá nunca mais. Exceto se quiser me fazer sorrir.

domingo, 16 de agosto de 2009

Reis do Cabaré na Terra dos Golfinhos


Cansado de olhar o rosto alheio e notar uma mentira ambulante querendo me convencer de que estou errado. Cansado de ficar calado, já que, quando abro a boca, sou acusado de errado, ignorante, ameaça, fascista. Cansado de decorar ideias das quais não concordo apenas para ser visto com bons olhos; obter méritos e ter chances de progresso.

Cansado de ser encarado como boneco, ser vendido como objeto e carregar o fardo da consciência. Se ao menos fosse cego, não testemunharia a mim mesmo as covardias; mas, como não sou idiota, desfruto do meu direito de ficar calado. Cansado de estudar a prostituição; fazer oferendas de honrarias e observar, no semblante alheio, o brilho do desejo em tornar-se mais uma prostituta, crendo que carregará a coroa de um rei.

Cansado da repressão à minha natureza humana vingativa, de caráter satisfatório; e com ódio no peito por saber que não sou diferente de ninguém. Porque, se ao menos eu fosse, saberia que estava errado. Mas não estou; o problema é esse. Cansado de ver a lepra tomar o meu lugar ao sol todos os dias, enquanto eu e meus semelhantes precisamos nos ocultar nas trevas, por sermos normais; e, por consequência, não aceitarmos a doença e sermos condenados.

Aquele que não for egoísta, que se manifeste agora. Então, o que é um homem para censurar outro? Um egoísta também, provavelmente. Qual o direito que este homem tem de me amordaçar?

Cansado de mentir e mentir para evitar o espanto falso no rosto de alguém que mora na terra onde não há nada que o sol não presenciou até então.

Há muito tempo achava que a treva era escuridão; mas não. Treva é claridade, porque já não há nada mais claro do que saber que, neste circo, eu sou o golfinho que brinca com a bola, escondendo-se no fundo das águas depois do espetáculo e vendo o mérito destinado ao domador.