segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Opinião para o Jantar
Trouxe uma opinião para você que encontrei há algumas milhas daqui. Diz ela que não é válido se esconder por tanto tempo; porque o tempo enferruja os planos. Não tenho ideia do que falo quando abro a boca, mas tenho uma boa oratória quando fico calado. Porventura, assemelha-se a mim em tal quesito? Creio que não.
Somos feios por nascença e fodidos por destino. Se ao menos fosse doença, haveria esperança de cura. Se houvesse desculpa, não teríamos culpa. Entretanto, mesmo sem motivos, não temos culpa. Apenas não sabemos justificar o que não tem justificação. E quando não há razão, fica por isso mesmo. Não interessa se é bom ou ruim; apenas mantém.
Não interessaria também a qualidade; o que interessa, de fato, é a quantidade. E se não há chances, paciência.
Trouxe uma opinião para você para o jantar. Quer digeri-la?
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Nada para Você
domingo, 30 de agosto de 2009
Selvagem
O que acha de umas palavras soltas que encontrei na selva? Havia uma pedra que dizia para não sentir medo ao removê-la; então me dê aqui uma mão para removermos o empecilho do caminho. Está tão quente aqui. Eu tenho uma solução: tire sua blusa.
Fazer força faz sentir vontade de ter força para empurrar um pouco mais. Estou tremendo um pouco; e o suor escorre pelo corpo.
Faltam algumas milhas e já não me seguro de querer dizer que seus lábios invocam pensamentos promíscuos. Acho que disse desejar tomar banho nas águas salinas do seu corpo.
Cobra à esquerda, lagarto à direita e cachorro ao centro. Estão protegendo o meu retorno. Quando falta pouco é que temos mais vontade. Todos os lados nos aplaudem; então vamos dar um espetáculo.
Seja bem-vinda às minhas pernas, com seus tremores e fibras destroçadas. Estamos enlouquecendo? Cabe mais. Um passo para cá e comece a chorar e gritar bem alto.
Todos os sonhos e espíritos correm para cá; não precisamos de nada além da reciprocidade das carícias. Você me atormenta; eu lhe curo. Você me desperta; eu desespero.
Ensina-me professora; o proveito de errar e o ódio da prudência; o desprezo pela paciência; o sufocar o nexo e espantar o medo. Disciplina-me na promiscuidade e a aceitar a beleza que mora na perfeição da enganação. Dê-me na boca o acalento doce do erro; do que tem sabor de preguiça; daquilo que esnoba a vaidade e enrijece a gula.Entrega-me os segredos dos artifícios das suas artimanhas que me golpeiam em sequência. Dê-me um lugar na delicadeza; faça com que um toque sutil pare o temporal que me encharca de fogo.
Somente mais uma vez.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Bilhete
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Recuperação

Conte as estrelas como elas são
Entre na casa de recuperação
Espere pacientemente pelo apagão
É preciso deitar e descansar
E esperar pelo médico
Ele está no seu lar
Pode até demorar
Mas trará consigo o remédio
Enquanto isso estique o lençol da cama
Prepare-se para uma partida de dama
Ou você prefere tomar uma sopa?
Então vista essas roupas
Porque aqui você terá todo o tempo
Deite-se devagar, sem pressa
E escute o ranger do vento
Essa é a nossa única festa
Achou que ninguém lhe colocaria a mão?
Que suas condenações seriam vãs?
Agora que sabe que está na prisão
Saiba que deixarei sua mente sã.
domingo, 23 de agosto de 2009
Castelo
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Retorno
Então espere o dia encontrar um tempo
Falar palavras para agradar seus ouvidos
Já que a distração é olhar para o vento
Tendo a impressão de estar perdido
Um brinde estreia no espaço
Saindo pelos poros do meu rosto
Agarra-se nos tormentos de um abraço
Se afundando no fundo do poço
Está na hora de ir para trás
Já que traça o horizonte dessa linha vertical
Não importa o que se faz
Começando ou não, acaba no final
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Vítima

É no momento crucial do golpe da redenção que o pavor se apodera do mestre. A curva que se revela no curso da reta é o sorriso do desespero. Os joelhos se rendem e não há o que se possa fazer. Confiança e crença são abatidas como se fossem iniciantes e secundárias; e não uma faísca do começo.
Chega. Vou retornar e andar, conforme convém. Isto é, em círculos. Porque todos nasceram para perseguir suas próprias sombras; e domadores não existem no plural. Há apenas um, e ele chegou aqui antes de qualquer um de nós. Seu nome é desespero. Desnorteio é a sua arma, enquanto arrependimento é o conforto que ele oferece; pois ele se dá ao luxo da misericórdia, assim como os deuses.
Portanto, se quer uma sugestão, volte para a sua cela e não saia de lá nunca mais. Exceto se quiser me fazer sorrir.
domingo, 16 de agosto de 2009
Reis do Cabaré na Terra dos Golfinhos

quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Soldados

O que há demais em ficar parado
Enquanto os homens se mantêm calados
E caminham pelo vale desesperados
Vendo que lá de longe vêm os cavalos
Com seus cavaleiros todos armados
O gosto da derrota é sempre pesado
E mesmo que olhe para os lados
A sensação é de estar encurralado
E não adianta querer voltar para trás
Porque vocês são soldados
E o dever de soldado é morrer pela paz
Aquele que não carregar o fardo
Morrerá do mesmo jeito, tanto faz
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Passado Afogado

sábado, 8 de agosto de 2009
Águas Mágicas
A água que agride a rocha, sob o olhar do sol, reflete os meus desejos que destino à natureza violenta do acaso, que me espera na espreita da quina com o punhal na mão, na ânsia de pegar minha visão desprotegida. O perigo está no instante; no piscar; na fadiga.
As ondas que mergulham para casa, quando encontra o escudo astucioso da cautela, refletem o anseio que meus medos sentem quando anestesio o desespero que me angustia. A precaução tomba no esquecimento; na confiança; na alegria.
A piscina seduz pelo manto vibrante que oculta o receio de se perder no escuro que amedronta o passageiro. A ilusão está nos olhos; no sorriso; estampado no rosto.
O segredo da mágica é o óbvio.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Trovoadas

O trovão caiu
Em mais alguma cabeça
E o aviso do circo
É para que você se proteja
Hoje vai ser perigoso
Os monstros fugirão
As autoridades perguntaram
Aonde os monstros irão
Tem um na minha casa
Ele está com a minha mulher
Me mandou entrar em uma cova rasa
E orar com toda a minha fé
Ninguém está armado
Ninguém foi amado
Ninguém se defende
O monstro me rende
sábado, 1 de agosto de 2009
Olhos Fechados

Pisa no chão sem desconfiar da queda
Monta o animal sem saber onde ele o leva
Fecha os olhos e imagina um futuro
Não vê a cara que bate contra o muro
A estrada que corre é feita de pedregulhos
Lamenta-se e balbucia murmúrios
Mas pisa no chão sem desconfiar da queda
E monta o animal sem saber onde ele o leva
Enxerga ao longe o olho da fera
E não vê que aqui um monstro lhe espera
Insiste em manter os olhos fechados
Traça a corrida gritando o nome de Deus
Mas se tem algum temor, é do Diabo.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Expedição
Não há tempo a se perder e muitos lugares para conhecer. Sou pequeno nessa dimensão, mas atravessei desertos inteiros atrás de um tesouro que vi uma única vez na vida. E subi nas torres e montanhas mais altas para ter uma visão panorâmica.
Enxerguei a essência do infinito, mas fracassei na minha expedição. E foi de um penhasco medonho que pensei em voar atrás daquilo que sonho desde que me ceguei ante deslumbrante flagelo.
Morei em tocas, árvores e ocas; e descobri fontes brutas de diamante; mas aquele brilho sem cor eu não vi. Resisti aos tremores do fundo dos oceanos e à escassez de alimentos das terras de gelo.
domingo, 26 de julho de 2009
Amor aos Animais

Três passos confusos
Foi a ordem que dei para o mundo
Tomar os litros de água preta
E deixar tudo para trás na sarjeta
E quando voltarem aleijados
Todos devem rezar o hino da bandeira
E não devem se esquecer
Que terão vida nova na próxima segunda-feira
Agora que domesticamos o terror
Vamos invadir o mundo
E explorar os animais em nome do amor
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Rito
Pegue pela mão seu primogênito e único filho. Leve-o até o pico da montanha mais alta que seus olhos distinguem. Seu filho lhe faz bem; ele também me fará, por que não somos diferentes. E se somos, você é pior; porque eu me entrego aos meus filhos, e você faz com que eles se entreguem a você; portanto, não insinue que sou cruel, uma vez que somos, todos, aves de rapina.
Não se esqueça, é um sacrifício para a glória!
Vamos meu filho, me mostre sua mão. Mostre-me qualquer coisa. Está longe para dizer demais. Quão suave são suas mãos. Devagar; pois o prazer está na tortura.
Então eu fechei os olhos e tirei a batina; e coloquei cada caroço do meu instrumento na boca do jovem. Vamos fazer uma prece.
Um homem lá de longe disse que não se deve pedir com oração antes de construir um santuário; um lugar para que possamos nos esconder. Só assim poderemos fazer qualquer coisa ou preparar qualquer oferenda para aquela garota que nos distribui ordens em troca de desejos sinceramente humanos.
Antes de qualquer coisa, contar-lhe-ei sobre as catacumbas que escondem os rios onde devemos banhar juntos; que é para nos limparmos dessa moral que você carrega no seu coração.
Qual número você carrega? Se não for o mesmo que carrego, você não será bem vindo ao nosso rito.
Espere; estou falando demais sem me dar conta de que agora você já está bem interessado em saber o que lhe tenho a mostrar. Mas você consegue enxergar este leão que lhe fala, agora, sem línguas estranhas? O que ele diz é que você não tem nada a saber; somente a fazer.
Ajoelhe-se e pergunte o que é preciso ser feito; então eu lhe direi.
Esperança é o mal que eu temo. Se livre dela e faça agora como os outros estão fazendo.
Glória! Glória!
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Manifesto pela Democracia
Eu e um milhão de irmãos queríamos conhecer o seu rosto e tocar a sua mão. Derrubamos árvores com os próprios punhos e começamos a erguer um edifício em direção ao seu castelo. Ardemos no calor e nos cegamos com o gelo que respingou nos olhos. Encaramos com desafio a nossa ambição. Persistimos e imaginamos que seríamos mais honrados com as provações vencidas.
Com a queda de tantos irmãos, achávamos que nos transformaríamos em cavalheiros sagrados, e numa concepção posterior, formaríamos um conselho no qual um de nós seria designado um ministro; seu braço direito.
Diante a visão do grande paraíso e à imagem dos confins do mundo, sentaríamos em círculo e discutiríamos o seu sucessor; numa legítima democracia entre homens semelhantes em imagem.
Já que ainda me ouve, olho o espaço para lamuriar a injustiça que foi cometida. Com tirania alterou nossas falas, e sem poder nos comunicar, não foi possível mais unirmos forças e sabedoria. Tornamos-nos isolados como náufragos, torturados, sem poder dizer nada às nossas esposas, filhos e irmãos.
Indago o porquê de tamanha crueldade com os seus semelhantes; qual a razão de nos submeter a escravos e não ser generoso por não querer dividir as infinitudes do paraíso.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Duelo do Som e do Silêncio

Um silêncio que corre para esse lugar
Vacila no canto do lado de lá
Rasgado ao meio por um assovio
Uma linha contínua como linha de fio
Tropeça e cai no meio do entulho
Perde a honra com o barulho
Agoniza-se no meio das ruas
Corta volta e entra na curva
A procura de uma paisagem nua
E bate a cara em quinas turvas
Entra em uma sala escura
E ouve uma voz pedindo que durma
Adentra a uma vereda a esmo
Reconhece o som de si mesmo
Descobre um planalto imenso
Assiste ao duelo entre o som e o silêncio
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Curinga

Um dia eu poderei comprar
Um par de asas para poder voar
Nessas nuvens que vão confundir
As únicas coisas que sei sentir
Quando não estou neste céu azul
Sentado na cadeira, compondo um blues
Lembrando da cabeleira
De uma garota fugaz
Sendo eu o curinga
E ela o ás
Mas se eu fosse um pássaro
Para mim tanto faz
E se ela fosse um ato
Também tanto faz
Um dia me disseram
Que se eu fizesse um feito
E não surgisse o efeito
Eu teria um defeito
Mas de qualquer jeito
Para mim tanto faz
Por que um dia eu poderei comprar
Um par de asas para poder voar
Nessas nuvens que vão confundir
As únicas coisas que sei sentir
Quando não estou neste céu azul
Sentado na cadeira, compondo um blues
domingo, 12 de julho de 2009
Galo
A mobilidade é restrita pelo calcanhar a partir do momento em que uma mão desconhecida o puxa pela cabeça. A única reclamação é o choro que eles dizem ser primordial para a vida. Se você está aqui, como qualquer idiota, você chorou.E se houve alguma ligação fraterna, ela foi cortada. Anos mais tarde, o hospício fez questão de podar a simbolização. O que se encontra são gritos por ajuda enlatados nas retinas das outras vítimas dessa tortura chamada mentira. Vadiagem e fidalguia se baseiam no mesmo conceito de mentira, apartados por direção. Vadio mente para os outros; fidalgo, para si mesmo.
Quando saí do hospício encontrei um galo cantando; e bombas ecoaram nas nuvens. Coloquei em prática tudo que aprendi: levei a mão à cabeça, encolhi o corpo e despistei obstáculos.
Um profeta na esquina cantava que há algo que não se pode enganar; e há algo que nos espera quando não há de se esperar. Então, essas datas premeditadas são falsas. Descobrir mentiras prontas é fácil; difícil é saber onde não encontrá-las.
Os olhos petrificados de um galo eu vi, certa manhã, quando saí do hospício, e ele cantou. Bombas ecoaram nas nuvens.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Legítima Defesa

Saindo do serviço depois de um dia estressante
Pego o primeiro ônibus em direção ao centro
O ônibus voa como uma barata ambulante
Rumando cada vez mais pelo esgoto adentro
Uma parada, pego outro ônibus
Não presto atenção, só se que sigo a viagem
Passo pelo córrego, não presto atenção
Só sei que sinto o odor humano daqui da margem
Chego ao terminal, começo a caminhada
Só penso em chegar em casa, poder banhar
Poder descansar, assistir ao noticiário local
Mas não imaginava que antes seria parado
Por uma viatura policial
Plantaram um revolver na minha pasta
E me acusaram de assalto
Eu disse: “Mas eu só estava trabalhando”
O soldado riu e respondeu:
“Nós também estamos”
Fui interrogado e autuado
Ameaça a integridade física
Ou seja:
Fui morto em legítima defesa
terça-feira, 7 de julho de 2009
Clemência
Ajoelhou-se, fechou os olhos, juntou as mãos. Esqueceu-se dos tormentos e entrou na janela dos olhos de quem não vê. Guardou as perguntas que sustentaram o massacre e se entregou.
Fez a renúncia e sentiu a chuva chovendo. Contorceu-se e não pediu nada. Olhou as mãos e viu decadência. Cortou o pulso e sentiu dor. Abraçou as sandálias do mestre e sentiu a mão pousando na sua cabeça. A língua dançou, a alma chorou e o veneno virou pedra. Pagou pela agonia que causou. Sentiu sede e os joelhos derretendo; extirpou os desejos.
Levantou a cabeça e viu os olhos dourados. Pediu clemência.
sábado, 4 de julho de 2009
Depois da Sete

Você quer saber o que faço quando acordo
Depois de dormir o dia inteiro
Eu lhe digo: eu não sei
O que faço primeiro
Expressões são movimentos faciais
Gestos são expressões canibais
Quando acordo, olho o espelho
Vejo pares corando de medo
E recordo tudo que disse que lembraria jamais
Mas me esqueço do mais importante
Das lembranças gravadas na instante
Das particularidades de uma mente ignorante
Tomo banho, visto a roupa.
E arranho a voz rouca
De sono permanente
Já não me lembro do dia quente
Que partiu depois da sete.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
A Um Amigo de Guerra
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Drama
É indescritivelmente quente. Um suco gelado cairia bem. Ainda mais sentado numa so1bra. Só de pensar, a boca umedeceu. E assim aconteceu. Pediu um suco e de pronto entregou a nota. Logo veio um suco de acerola, que descido pela garganta, fez a cabeça doer, de tão gelado. Mesmo assim, ficou satisfeito; estava regando o deserto do seu bucho.Bebeu meio litro de suco numa única golada. Quando terminou lambeu os lábios, mas foi interrompido por uma abelha que pousou na ponta do nariz. Afanou com as mãos; o inseto circulou e voltou a pousar na ponta do nariz. Deu um tapa no nariz; os olhos umedeceram e a abelha voltou a pousar no mesmo lugar. Fungou. Não adiantou. Fungou de novo, agora com mais força; o inseto voou para cima e a secreção escorreu para baixo. Uma jovem bela assistia o drama. Até então sorria, mas ao ver a última cena, fez cara de asco.
Duas gotas de suor correram da testa do fadigado. Novamente a abelha estava pousada na ponta do nariz. Permaneceu imóvel, no intuito do inseto perder a graça e abandonar a brincadeira. A abelha começou a andar pelo nariz. Sacudiu a cabeça e em frações de segundos aquele animal demoníaco pousou novamente no nariz. Sentiu calor. A camisa pregou-lhe nas costas. Os sapatos sufocaram os pés.
Estava com a boca entreaberta quando a abelha pousou nos lábios. Num gesto ligeiro abocanhou-a. Ela se debateu nas bochechas por alguns instantes. Parou. Sentiu-se aliviado. Foi interrompido pela ferroada na língua. Instintivamente abriu a boca e a abelha partiu. Afogou o gemido de dor e notou que havia inchado. Mas pensou consigo mesmo que abelhas vão embora depois de agredir. Foi interrompido por zunidos no ouvido. Instintivamente tapou o ouvido. Com receio de outra picada, deixou a abelha sair; que caprichosamente pousou na ponta do nariz.
Engoliu um amargo de aflição. Lembrou-se dos caipiras que usavam insetos voadores como desculpa para justificar o vício do fumo. Sendo assim, acendeu um cigarro. O bicho voou e pousou no cigarro. Tragou com força, na esperança de queimá-la. Quando ia, voltou para o nariz. Continuou fumando e a abelha saiu. Terminou o cigarro e ela voltou.
Balançava a cabeça e ela saia; parava e ela voltava. Sentiu vontade de chorar. Em pensamentos, reclamou da vida pobre que levava, do fracasso intelectual, por não ter família, por duvidar de Deus. Sentiu vontade de morrer, quando enfim uma lágrima escorreu do olho.
Fechou o semblante, e com a astúcia de uma cascavel escorregou o braço para o bolso da calça. E com a fúria de uma águia, levou o isqueiro até o nariz. Ouviu o tilintar agoniante da abelha se queimando. Sentiu o ardor agudo no nariz. Mas ao menos matara o inseto. Olhou o relógio; era hora de voltar ao serviço. Atravessou a rua e foi.
Um companheiro surgiu e quando o olhou, sorriu, dizendo:
- Bastava me dizer, meu chapa. Não era preciso fazer bico no semáforo. Mas já que quis, nariz de palhaço é vermelho, não roxo.
Abaixou a cabeça para achar uma pedra e tirar o sorriso daquele desgraçado. Ao invés disso, pegou as ferramentas no chão e começou a trabalhar. O outro ainda ria, chamando um colega para ver aquele nariz.
Ao menos matara a abelha, pensou.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Correntes
As vezes há um círculo que me prende
Tranca tudo que tenho em mim mesmo
Apenas sinto que é algo que tende
A me jogar a esmo
Sinto que sou aleijado de entranhas
Incapaz de compreender aquilo que não entendo
Mas vejo sensibilidade em coisas estranhas
Só não sei mais o que estou querendo
Minha cabeça me limita
Meu pensamento é minha cadeia
Celas, grades
Selam a paz
E a liberdade?
domingo, 21 de junho de 2009
Enfeites
Mas esta noite só queremos um pouco de música para os elementos poder dançar. Helmo afinou as duas cordas mais finas do violão, lançou dois ou três acordes que mesclaram ao vento. Tomou um gole vistoso da bebida anil.
[...]
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Carolina
Carolina se prepara para sair
Ficou enfurnada em casa o dia inteiro
Está cansada e pensa em se distrair
Não sabe direito o que fará primeiro
Tira a roupa e entra no banheiro
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre o primeiro dia que vi Carolina
Esperei o pai dela sair para fumar
E entrei na casa daquela menina
Não a conhecia direito, apenas uns rumores
Que ela saía a noite para tomar cerveja
Com um rapaz que sempre lhe dava flores
Então a vi sentada sobre a mesa
Abotoando os laços dos cabelos
Vi de perfil sua boca cor de cereja
Devo ter sentindo um pouco de receio
Mas creio no íntimo que foi medo
Ou algum impulso nas pontas dos dedos
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre a primeira vez que Carolina me olhou
Eu me colei na parede sem poder notar
Que atrás de mim havia um bangalô
E era uma dessas noites de luar
De verão, que faz certo calor
Talvez seja por isso eu estava vermelho
Foi quando Carolina me olhou
Procurando na verdade um espelho
Ela se espantou, sorriu e perguntou o meu nome
Balbuciei qualquer palavra, sem jeito
E ela entendida, perguntou se eu estava com fome
Disse que sim, e ela me ofereceu uma cadeira
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre a primeira vez que vi Carolina
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Purificação
Hoje eu vi o vento varrendo da cidade tudo isso que os homens têm, mas que as vistas não distinguem. Vi no dedo de um velho um anel de diamante sugando tudo que o vento carregou.
Ele olhou o céu cinza de decepção e sorriu, porque o olho do sol sangrava uma fonte de água límpida, que é para limpar toda água doente que brota no coração dos homens.
A terra engoliu todo o papelão dessa selva de zinco apodrecido no tétano. E tudo que vi em seguida foram borboletas invadindo apartamentos, bares e cinemas.
domingo, 14 de junho de 2009
Quarto Esbranquiçado

No quarto esbranquiçado, cortinas negras, as estações morrem
Os pastos florescem, pavimentos de asfaltos, grudam no chão
E as crianças, quem será que as socorrem?
Cavalos de prata, nascem flores, aonde eles pisam
Cavalgaram sobre minha cabeça
Oh... Agora, outra coisa, esqueça
Tem flores na minha cabeça
E isso é tudo.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Porcos
Meu pai me disse certa vez: “Os porcos comem tudo que você imagina”. Soou aquele silêncio reflexivo por instantes. “Até bosta?” Questionei. “Sim, até bosta”. “Nossa, porco então... é um animal tão porco. Ouvi a resposta do meu pai: “por isso porco é conhecido por porco”.Meu pai, hoje um velho, fora um lenhador desde a juventude. Lenhava árvores de dimensões inexistentes nos tempos singulares de hoje. Trabalhava sozinho na construção de uma canoa que ele mesmo desenhara, escaldando troncos numa matinha fechada perto da fazendo que vivia.
Em meio aos dias plurais, houve um especialmente particular. O dia ardia no extremo colosso do calor tropical, e o cansaço sugava o velho de cima para baixo. A fadiga o instigava a jogar o machado no chão e sentar. Punhos dormentes, pernas bambas e consciência bêbada. Olhou sua sombra e notou que ainda estava no primeiro quarto do dia bravo. Parou para tomar o chá de coca e olhou o sol severo. Neste instante, ouviu um sussurro: “caia desgraçado”, acompanhado de um baque nos pulmões.
Respirou fundo, inclinou o corpo para frente, tosse rouca e seca; segurou o machado com firmeza e estalou duas, três, cinco vezes. Ouviu um sorriso tímido. Ignorou e continuou a labuta. Uma rolinha pousou na sua sombra e bicou o chão. O velho parou, olhou para trás e viu o pássaro sair voando.
Percebeu as mãos trêmulas, ignorou, e derrubou a árvore. Continuou o serviço. Viu a mesma rolinha estática em outra árvore e sua boca salivou. Saliva quente. Ignorou e trabalhou brutalmente por horas consecutivas, ouvindo de vez ou outra um sorriso infantil, progredindo para o sarcástico.
O machado caiu da mão. Tentou pegar e não conseguiu; o corpo inteiro tremia. Olhou o sol severo e resolveu parar para refeição. Saiu da matinha se arrastando e sentou no banco ao lado da pocilga. Não conseguia comer. Com dificuldades acendeu o fumo e tragou. Começou a transpirar um suor denso e sentiu o mundo girar. Ouviu sons estrebuchados, estranhos. Ouviu os porcos grunhidos no meio da alucinação. Olhou para trás e viu os suínos comerem sua sombra. Os olhos semicerrados se esbugalharam. Um grito agudo esgueirou-se. Soou um silêncio reflexivo por instantes. O velho suspirou e se sentiu saudável.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Desinibida

Voltas pelo parque, a garota anda desinibida
Conversando Paul Sartre, sobre os limites da vida
Estranha os objetos estranhos
São só ovelhas do rebanho
Observa a roda gigante
Apostando aonde irá parar
Lembra de quando foi amante
E sente vontade de descansar
Talvez seja cedo, mas é cedo que mistifica
Não existe medo, só uma vontade desinibida
Um passo a mais não machucará
Apenas a fará lembrar
Dos muros do seu parque
Que fez questão de escalar
E mostrar a sua arte
Voltas pelo parque, a garota anda desinibida
sábado, 6 de junho de 2009
Viagem Urbana
Onze e meia da manhã, hora do almoço. Arroz, feijão, carne, rúcula, tomate e suco forte de tamarindo. Como rápido, já estou atrasado. Banho gelado de alguns minutos, dentes escovados em instantes. Visto a roupa e parto com a mochila de guerra nas costas. Vinte minutos de caminhada sob o calor escaldante do sol a pino do cerrado brasileiro, na estação da seca. Seca está minha boca, como ameixa.
O ônibus está cheio, mas no fundo há espaços. Encolho o corpo e caminho atropelando pernas; "Passageiros idiotas que não sabem andar de ônibus". Viagem longa, tão longa quanto a espera no ponto.
Chego ao centro e no céu o sol brilha, soberano. Há de se fazer uns 40 graus neste instante. O ponto é de zinco, e mesmo na sombra acredito estar em uma estufa ao ar livre. O golpe de misericórdia é saber que pagamos por esse sofrimento.
A linha 018 para e eu entro. Agora sim o verdadeiro espetáculo começa. Consigo contar 32 pessoas em pé. O ônibus está lotado e não para de entrar gente. Não se distingue mais o calor solar do calor humano. Todos se estorricam; ambiente abafado. O motorista, atrasado e apressado, faz curvas fechadas em altas velocidades. Nos debatemos como leitões em caçambas de caminhões. Lembro novamente que todos pagam por essa viagem; me desperto dos pensamentos ao ver chegando, no ponto que o motorista acabara de parar, um rapaz que estuda na mesma classe que eu. Pobre coitado, perderá a aula.
A viagem segue, minha barba me pinica; minha camiseta está pregada nas costas. Não se respira ar naquele ambiente, apenas calor; e o odor fétido do alho que uma velha carrega.
Enfim, chego ao fim da minha viagem. Com dificuldade desço do ônibus, arrastando comigo a mochila de guerra. Logo atrás tem outro ônibus, este vazio, que para para descer o rapaz que estuda comigo. É duro saber que a alguns metros atrás de você não havia sofrimento. É difícil aceitar sofrer sozinho. Mas não penso muito, preciso ir ao banheiro, o tamarindo fizera efeito. Além de tudo, mais essa.
Subo as escadas, em direção à sala de aula; aliviado. Todo mal já passara; perdi metade da aula com essa guerra chamada pegar ônibus, mas ainda há tempo para aprender alguma coisa.
Abro a porta e todos procuram o professor em mim, enquanto procuro o professor na sala.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Elas e Eu
Então elas chegam. A de lá com uma expressão de lágrimas recém caídas; de um rosto que propõe uma feição diferente da que a impressão causa. Mas fatos são sempre minuciosos. De nada vale a generalidade das impressões.
Elas sentam, em um único acento. Fatos são fatos; e eu me lembro, orgulhoso, da minha ideia anterior. Uma no colo da outra. Todos olham desconfiados. Em instantes a desconfiança se torna espanto. “O que é isso?” “Não é possível”; é o que consigo ouvir dos cochichos. Já os veteranos daquele ambiente não se espantam mais; já se acostumaram. Apenas o novo causa espanto. Depois que deixa de ser novidade, se torna rotina. E depois tédio. Acredito que é assim, pelo que já vivi. Tédio corrói.
E é o que sinto agora: um belo tédio desafinado.
Faz calor e eu olho, observando. Lembro-me de quando tomei o ônibus para vir até aqui. Até os transeuntes dos coletivos são os mesmos; nos mesmos horários.
Volto da minha divagação; a primeira passa a mão nas costas, por dentro da blusa, da outra. “O que é isso?” “Sutiã.” “Aquele que lhe dei?” “Não...” “Para, amor!” Amor? Alguns olham, outros não. Mas todos fingiram não ouvir. Inclusive eu.
As duas são belas, e eu encaro a segunda, a feminina. Apenas para irritar a primeira. Procuro o vinco dos ciumentos no rosto dela. Elas mudam de cadeira; se sentam de costas para mim.
“Você não faz parte deste mundo”. É, não faço. Mas temos gostos em comum.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Cotidiano

Um milhão de pessoas cruzam por você todos os dias
E lhe assassina com o mesmo olhar lombriguento
E você é apenas mais um maníaco dessa mania
Apenas mais um homem de terra e de cimento
É como aquela velha brincadeira de assassinar
As crianças jogam com um piscar
Mas você pisca um milhão de vezes todos os dias
Pisca até mesmo para a mulher da sua vida
sábado, 30 de maio de 2009
Blues da Loucura
segunda-feira, 25 de maio de 2009
O Profissional
Você acha que é pelo dinheiro. Ter dinheiro é muito bom, com ele eu posso comprar tudo. Com ele eu me sinto um senhor feudal rodeado de servos. Ser senhor nesse século é melhor do que séculos atrás e sabe por quê? Por que os servos de hoje bajulam, além de tudo. Bajulação é algo que apenas o dinheiro compra. Com certeza eu não seria feliz sem o dinheiro; sem minha piscina aos domingos à tarde, sem minha sauna às quintas à noite, sem minhas bebidas finas. Eu se quer seria generoso, se não fosse o dinheiro. Mas você pode me perguntar sobre a fama. Bem, é claro que eu não faço o meu trabalho apenas pelo dinheiro. Eu também adoro a fama. É uma necessidade ter os meus 15 minutos de fama. Nesse mundo no qual vivemos é inútil sonhar com um autorretrato que envelheça por nós. Não! Podemos ser capas de revistas. As revistas elegem, em suas capas, os novos príncipes do mundo contemporâneo. É o sucesso que me entrega os convites para participações especiais nos cinemas. Para ser sincero com você, é o meu sucesso que seduz as atrizes glamorosas que eu transo. Sou um grande colecionador de transas com mulheres famosas. Isso, é claro, me envaidece. Transar, graças ao dinheiro, com ninfetas fantásticas; gastar milhares em joias legítimas com essas vagabundas é bom. É algo apenas para os poderosos. Mas foder a coelhinha do mês ou a musa da novela das nove é algo apenas para os magníficos.
Isso tudo que eu disse até agora pode ser o suficiente para responder o porquê eu trabalhar com o que trabalho. O luxo, a vaidade, e até mesmo a arrogância, só não são tão sórdidos para aqueles que não possuem. Mas irei lhe perguntar: você gosta de apostas? De jogar? O jogo é a brincadeira dos riscos. Apostar todo o dinheiro batalhado, o sustento de uma família em uma partida, em um cavalo, em uma simples carta. O desejo do perigo, do tudo ou nada, fulmina em nossas entranhas. Eu adoro, sou viciado nisso! Diz se não é gostoso olhar os olhos arregalados de espanto das pessoas em volta? A confiança amedronta as pessoas, e eu me sinto exuberante assim.
Contar-lhe-ei um segredo agora, o porquê, verdadeiro, que escolhi essa profissão. Melhor do que jogar com dados ou cartas é jogar com a vida das pessoas. Perder não passa a ser apenas perder dinheiro, torna-se destruir vidas. No tribunal há uma pessoa que é o centro das atenções e eu sou o único que aposto ao seu favor; sou o único que faz apostas na probabilidade desvalorizada. A arte do meu ofício é nadar contra a maré. Defendo assassinos natos e jogo tão bem que no final da partida ele não é mais culpado. Torna-se vítima do sistema; o mesmo sistema que tenho como vítima preferida.
Eu sou um advogado. Eu nunca perco. Sou um jogador vibrante que embriaga a sociedade com uma jogada esplêndida, isto é, com uma retórica esplêndida.
É claro que tudo isso é bobagem. Tornei-me advogado pela justiça. Ofereço-me para defender aquele é acusado porque acredito que as pessoas nascem boas. Os meios que fazem as pessoas tomar ações impensadas. Essa pessoa, frágil que é, não precisa, como não deve, ser privada. É necessário meios para que ela se inclua na sociedade, contribuindo com a melhoria do bem estar comum. Acredito que todos que sentam no banco dos réus são inocentes até que se provem o contrário. O meu trabalho é apenas materializar esse conceito, e demonstrar claramente para a sociedade.
O ser humano é essencialmente bom.
Publique uma única palavra de tudo que acabei de lhe dizer e lhe mostrarei o homem da sociedade.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Navegador Confuso
terça-feira, 19 de maio de 2009
Observação de um Passageiro
Ando de ônibus todos os dias; a maioria deles, lotados. As vezes consigo sentar em algum banco suado. O fato que quero contar aconteceu em um dia que eu estava sentado. Sentar é um luxo, mesmo quando espremido por uma gorducha que ocupava três quartos de um banco duplo; maneira pela qual estava eu acomodado, naquela estufa de salgados podres, denominada "transporte" público, naquele dia em que até mesmo os prédios derretiam de calor.
Quero fazer mais uma ponderação. No meu entendimento, pessoas de espíritos fracos gostam de andar de ônibus. Se sentem os donos da ratoeira, embora não passam de ratos. No dia do qual narro, eu prestava atenção na arrogância de uma senhora ao reclamar da arrogância dos passageiros. O sol queimava a minha cara e as palavras da velha queimavam os meus ouvidos. Fechei os olhos e me concentrei no banco claustrofóbico que eu estava sentado. Um grito de alma penada me despertou dos ranços escuros de minha mente.
domingo, 17 de maio de 2009
Imagens ao Pé da Cadeira

As vezes você quer algo de qualquer jeito
E então cria fantasmas aos seus meios
Buscando sempre alcançar algum efeito
Para acabar com as dúvidas que lhe atormenta
Você se acomoda na primeira cadeira
Procura nos bolsos o seu isqueiro
Olha os outros e ela da mesma maneira
Buscando em seus olhos algum letreiro
Que a faça sentir a única e primeira
Você procura um buraco num pequeno espaço
Evita sons surdos que rangem num único minuto
Mas não cansa de olhar os seus braços
E imaginar cenas de um breve futuro
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Poção Estranha
- Aceita um drinque?- Não posso deixar alguém a sós com um drinque, não é mesmo?
- Eu entenderia como uma desfeita
- Pois bem, o que tem para me oferecer?
- Uma poção... Estranha.
E então eu bebi aquilo que mata tudo que está dentro de mim. Ela é uma bruxa, cheia de problemas, com uma melancolia elétrica. Ela desce fervendo de paixão por mim. Por mim.
- O que você vai fazer?
- Sobre?
Ela se apega em mim, como se eu fosse uma cola. Sou um anestésico. Desconfio que ela tenha vontade de se grudar em mim. Sinto os raios de sol invadindo minha garganta.
- Esqueci de perguntar se posso falar sobre esse assunto contigo.
- Claro que pode.
- Pois bem, semana passada ela me contou algumas coisas. O que você pretende?
- Vamos viajar semana que vem. Tomaremos um cruzeiro. Quando voltarmos, decidiremos.
Ela é um mar conturbado e eu sou um barco pequeno, sem controle. Ela encenou uma peça na última vez, a fim de ignorar qualquer problema que pudéssemos ter. Que tipo de tolo sou eu? Bom, eu perdi as estribeiras.
- Quantos meses?
- Dois e meio, acredito.
- Então é certo.
- Naturalmente.
E quem diria que uma vida inocente destruiria outra. E destruindo a inocência, se destruiria o corpo da perversão. Alguém diria que o amor se resumiria a destruição?
- O que você acha que devo fazer?
- Dê a ela uma poção. Uma poção... Estranha.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Ironia da Despedida
Fico admirado como quão irônico o Destino se revela ser em momentos sensíveis.
Hoje, ele, em seus eventuais sermões, dizendo-me coisas repetidas que me fazem vagar em outros pensamentos, soltou-me a seguinte frase: “essa garota, ela logo enjoará de você”.
Algumas horas antes, em outro recinto, não ouvindo sermões, mas sim lamentações, ela, isto é, aquela garota a qual ele se referia, me disse: “acho que até demorou muito, mas você sabe como eu sou e, bem, é, eu enjoei de você sim; mas não quero que você sinta raiva de mim. Apenas aceite”.
O que aprendi; e aceito. Não há mesmo outra alternativa; é o escárnio do Destino. Um ser sádico que gosta de dançar, como um bêbado alegre. Sua música preferida é o choro dos homens.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Teatro
A lua que caminha sobre a ruaÉ a mesma que nas noites flutua
Aquela que esconde os pecados
Nos momentos em que nada é errado
Então Cecília estacionou o carro
Pegou da bolsa e acendeu um cigarro
Um homem manco e caolho
Caminhando do outro lado da esquina
Achou que sua desgraça era infinita
Se achou no direito de machucar uma outra
E perguntou a si mesmo: por que não uma menina?
Uma que seja rica
E que seja linda
Magno, o esquisito, tirou um canivete da cintura
Olhou o carro e atravessou a rua
Bateu com as mãos leves na janela
E não olhou a expressão da cara dela
Apenas pensou:
Uma que seja rica
E que seja linda
Eu não quero terminar este conto
Não do ângulo do meu amigo esquisito
Porque se aquele manco não está agora um pouco tonto
Ele vai ficar quando souber o que ela pensa sobre isto
Há algo que você quer ouvir?
Bem...
A lua que caminha sobre a rua
É a mesma que nas noites flutua
Aquela que esconde os pecados
Nos momentos em que nada é errado
Cecília abriu os vidros
E convidou o meu amigo
Para um passeio.
E quando ele a tocou os seios
Aquele caolho não era mais eu.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Pássaros
Um pássaro voa e saboreia a liberdade nas alturas, nos ares remotos; desvinculado da noção de tempo e espaço.O pássaro flutua. Ingênuo, porém soberano. E quando sente fome, bate as asas. E foge de tudo, até não enxergar mais nada. Nada além da plenitude dos ventos, que se confunde com a sua.
Portanto eu lhe digo que o pássaro é cego.
E eu, nesta cela, acendo um cigarro, bebo alguma coisa; talvez assim eu roubo alguma plenitude do ar. Está tudo em minha volta, basta eu deixar a morbidez de lado e fazer. Mas sempre há algo que me amputa.
São tudo cinzas e eu pareço preferir me retalhar à me prevenir.
Talvez seja sono.
Talvez...
domingo, 3 de maio de 2009
Manhã Singela

Assopre tudo que há em você para dentro de mim
Há vários mundos vagos lá fora lhe esperando
Talvez precisamos apenas segurar nossas mãos assim
Fechar os olhos e seguir por aí caminhando
Hoje estou bem porque sei que estamos longe do fim
Existem dias que me repito, que me pego sempre olhando
Para livros de histórias velhas, vestidas de cetim
Se há um feito sem tal efeito, surge um defeito
E aí me dizem que sua perfeição me desagrada
Mas não penso muito sobre tudo enquanto não deito
Gosto mesmo de olhar para o nada e esperar uma fada
Que clama nos meus gestos, tímida, sem jeito
Por uma visita, uma palavra bem dita, uma palavra bem falada
Se não faço nada, é por ignorância, sou imperfeito
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Máscaras e Luzes
Não estou brincando, é preciso abaixar as luzes. Oras, vamos lá, faça-me esse favor.
Bem, preciso acender uma antes.
Obrigado. Agora vamos, esta é uma história que não gosto muito de contar, pois nunca mais olhei outra vez nos seus olhos. Você imagina o quanto fui livre e ilimitado depois de tudo? Só precisei de um amigo estranho para conversar comigo, entende? É porque existe um sonho desesperado em nós.
Sente-se aqui ao meu lado, quero sentir o seu hálito. Por longos instantes...
Qual máscara da sua coleção você usará hoje?
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Poema das Línguas

Línguas lindas, mudas
Línguas estranhas, pontudas
Línguas de loucos
Nascem na boca dos outros
Línguas mundanas
São o meu tesouro
Línguas de fogo
Línguas abastecidas de violência
Queimam o meu corpo
Línguas sem prudência
Línguas que caminham pelo pescoço
Causam calafrios na nuca
Línguas que buscam meu almoço
Enquanto a donzela caminha para o nunca
Línguas bastardas fazem filhos em homens
Línguas loucas soletram prazeres
Línguas me chamam aqui
Línguas desocupam os afazeres
Línguas fazem leitura labial
Línguas, línguas..
Línguas curam minhas ínguas
sábado, 25 de abril de 2009
Independência
Imagine! Porque ninguém, nenhum alguém, jamais saberá verdadeiramente o que você imagina.Esse é o seu maior segredo, a sua arma, o seu poder.
Imagine! Realize seus sonhos mentalmente. Sua imaginação é o seu mundo. Então, valorize-o.
Sorria para o seu mundo, pois você o controla. Ame seus amados, maltrate seus odiados. Ajoelhe-se e se exalte. Trabalhe e durma. Viva no castelo ou na calçada.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Intempestivo


















