terça-feira, 8 de junho de 2010

II Epílogo: A Viagem

Um bom gole daquele líquido azulado e gelado para me aliviar das tensões, por momentos cronologicamente minúsculos, enfaticamente eternizados naquela parada. A cronologia perde o bom senso diante daquele homem chamado Acusador. Outro bom gole daquele veneno azul e gelado, para que eu pudesse apreciar a agonia de uma noite inteira e sentir o término da aflição com o nascente do Sol.

Naquele momento da viagem eu já não mais queria sentir a luz brilhante do Sol exacerbando os meus olhos. Mais tarde eu aprendi que essa mesma luz se traduz como um início que jaz o fim. As Luzes Soam Delírios.

Tudo se passava pela minha mente: a partida, a queda, a generosidade, a partilha, a viagem. Cada quesito desse citado é um capítulo da minha história. Cito a Viagem agora, pois a cronologia perde o bom senso diante daquele homem chamado Acusador.

Lembro quando aquele veículo intenso e denso embarcou; já havia homens embarcados. Era apenas a minha vez de subir, sentar-me próximo à janela e olhar a paisagem selvagem que aquela viagem me proporcionaria. Selvagem é o melhor adjetivo para aquela viagem única. Naquele ônibus não era preciso ceder lugar a velhos, grávidas ou aleijados, pois todos tinham o direito de sentar-se à janela, com o direito sublime de ver toda a paisagem daquela viagem selvagem. Todos ali viviam com seus próprios recursos. Todos tinham o recurso de fazer aquela viagem, bastaria querer.

O ônibus acelerou. Todos calados durante a viagem, todos flutuando em ideias. Como seria chegar lá? Há tanto tempo sonhava com isso, sempre intrigado, questionando todas as fantasias. E o que vejo? Flores vermelhas! É totalmente fantasioso... É
real. Eu presenciei o imaginável que eu questionava. Havia homens e mulheres e deformados a bordo, eu era apenas mais um. Apenas mais um. Como era real, todos eram apenas mais um. Como era real!

A estrada, contraditoriamente como dita nos livros, não era uma descida, embora houvesse sim descidas. Entretanto havia subidas e curvas, e sempre que eu olhava para a janela eu via flores, em sua maioria vermelha; mas às vezes via amarelas, azuis, roxas. O chão era verde. A paisagem, no contexto, era colorida, como o chapéu do motorista. Ele sempre estava sorrindo, mesmo mantendo sua expressão séria. Todos permaneceram calados durante toda a sua viagem. Vários pararam antes de mim. O mais nítido é que cada vez que o motorista parava o ônibus e dizia o nome de quem deveria descer, os olhos dos outros passageiros brilhavam. Todos estavam embriagados com aquela viagem.

Tomei outro gole daquela bebida azul e gelada.

Sempre houve tolos que jamais foram perturbados por não darem-se conta de suas próprias tolices. Eu nunca saberei dizer até quando o mesmo tolo estará afundando nesse poço miserável. O vento dançava lá fora. Naquele mundo os elementos pareciam ser jovens.

Pela primeira e última vez o motorista falou algo além dos nomes dos passageiros que havia chegado ao fim da linha da sua viagem: “Todos dançam ao lado de fora, essa sempre foi a regra”.

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