sexta-feira, 6 de abril de 2012

Monólogo do Soldado Carniceiro (Parte II)

Agora que voltou, estava tudo em paz. Bastava ser discreto; roubar carros sem matar ninguém. Perfeito!

O problema é que aquele jovem no banco de trás, hoje com vinte e poucos anos, frequentando o A.A, é meu irmão. A mulher, que tempos depois enfartou, era minha mãe. E o gordo otário que você tirou a vida era o meu pai.

Eu saia todas as noites com aquele balofo, para correr. Ele tinha mais de cinquenta anos e mais fôlego do que eu. Era firme como uma rocha. Considerado pelos subalternos o melhor oficial da tropa; por acabar com asquerosos como você. Considerado uma ameaça ao governo, foi extraditado sob acusações caluniosas. Se aquele homem era um faxineiro, como os noticiários diziam, era tido pelos trabalhadores honestos como um homem que limpava lixos humanos como você. Motivo de orgulho, por que fazia aquilo que, no íntimo, todos gostariam  que fosse feito.

Você é um mártir! Vingou a sua classe e os seus simpatizantes! Veja tamanha ironia: se tornou herói sem ao menos saber. Se a vida é tão irônica, lhe contarei uma ainda maior.

Eu nunca quis ser policial. Meu pai nunca quis que eu fosse. Meu desejo sempre foi ser um bibliotecário. Levar uma vida pacata, organizando livros, sentindo o cheiro de páginas mofadas. Eu pensei assim até o dia em que vi meu pai deitado em um caixão. Eu poderia apenas querer vingança e mais nada. Não, meu desejo foi bem além. Entrei como soldado, como um mero subalterno. Não quis nem mesmo entrar como oficial, como fez o meu pai.

Nenhum comentário: