segunda-feira, 30 de abril de 2012

Quinteto do Oito

Morte ao que for platônico!

Meus eternos e únicos
Meus nobres companheiros
Vocês sempre foram muito
Andaram comigo o dia inteiro

Choro toda vez que lembro daquele ano
Total felicidade
Para sempre saudade

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Tributo

Aquilo que não é firme no toque, o que não atinge com afinco, com a ponta afiada, não excita. É devido a esse toque, ainda que sutil, que eu repouso o meu olhar sobre você.

Não se trata da sua beleza e extraordinária elegância. Ou os seus cabelos finos que deslizam por todo o seu corpo; seus olhos indagadores que acariciam o olhar de cada observador. Nem mesmo a natureza quente dos seus lábios, moldura do seu sorriso cândido.

Trata-se mesmo da sua alma. Da sua alma cruelmente boa. Aqui eu faço uma observação por saber que você está sorrindo, na busca de compreender o meu porquê sobre "cruelmente boa". A sua bondade está no seu espírito, eminentemente livre. Cruel, pois a liberdade exige essa posição.

Somos companheiros, como dois pássaros. Não dois pássaros presos na gaiola. Estamos sobrevoando penhascos e oceanos; bosques e edifícios. E você, como eu, faz uso das suas asas. Podemos nos perder, é verdade; mas a maravilha consiste neste passeio.

É daí que nasce todo o meu gostar por você. O seu comportamento que me fez oferecer a minha sincera amizade, que você tem. Você é singular; e é dessa forma que você passa a ter significado para mim.

Eu poderia encerrar desejando-a frases velhas e batidas; mas na nossa amizade não cabe nada que seja velho e batido. Jamais!

Tudo o que eu posso desejar a você, de verdade, é uma vida intensa, ainda que seja breve.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Virgem

Eu cheguei em casa
Eu estava bêbado
Ela estava pelada
E eu fiquei sem jeito

Ela tirou a minha roupa
E nós fomos para a cama
E eu gozei na sua boca
Antes de começarmos a transa

sábado, 21 de abril de 2012

Anos Iguais

Janeiro, fevereiro, março
Lua, nave, espaço
Abril, maio, junho
Plutão, marte, saturno
Julho, agosto, setembro
Vejo, verei, vendo
Outubro, novembro, dezembro
Leio, lerei, lendo

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Monólogo do Soldado Carniceiro (Parte III)

No curso de formação, não aprendi nada de útil. Apenas baboseiras, como marchar e bater continência para o superior. A minha primeira aprendizagem foi com o primeiro rato que eu matei. No dia, ele espancou a mulher até a morte com um taco. Quando cheguei ao local, um barraco escroto numa viela que fedia esgoto ao ar livre, se encontrava ele sentado, assistindo televisão. O algemei e o conduzi até a viatura. A caminho da delegacia, desviei o trajeto até aqui. Esse barracão nojento, onde matei, precisamente, quarenta e oito insetos como você. O matei algemado. Espanquei-o com o taco. Com esse mesmo taco matei onze. Veja que ironia: um time de futebol! O taco quebrou no décimo segundo.

Do doze ao dezoito eu matei esfaqueado. Eu sei os detalhes de todos as mortes. Tenho tudo registrado em um caderno. O diário do soldado carniceiro, diria um jornalista sensacionalista. Do dezenove ao vinte e um, por exemplo, eu matei com um tiro calibre doze, na cara. Achei bacana a ideia daquele filme. Depois, até o trigésimo, matei enforcado, como fazia os mafiosos da cosa nostra. A partir de então, não matei mais usando métodos em sequência. Diria eu que as mortes aconteceram de acordo com o estado do meu espírito.

Você pode me perguntar por que eu matei tantos homens; por que uma chacina de tal dimensão, se meu alvo era apenas um único homem. Tenho meus motivos, e acho que posso expô-los; afinal, suponho que você não esteja com pressa, não é mesmo? Tempo é o que não lhe faltar depois dessa noite.

domingo, 15 de abril de 2012

Trinta e Quatro (Parte I)

E você pode acreditar que eu tenho trinta e quatro agora, e todos precisam de pão e só eu que trabalho. O sangue me cega e eu não me contento com a banguela.


Li em um grafite de rua que ou você derruba você, ou você derruba a vida. E para nós, humanos pobretões, vida, muito das vezes, não é uma sinfonia bem orquestrada; um conjunto de substâncias interligadas. Muito das vezes, a vida se resume a muito menos do que isso. Em uma conversa de pé de ouvido, eu diria que a vida se resume a fardos.

Vida são pianos pesados cravados em lombos arrombados de homens que, para suprir a necessidade da existência, devem carregá-los ladeiras acima. Como disse o maldito "Sobrevive o que sobressai". É necessário amputar a pele sensível que a natureza fez e implantar o couro de animal que a mesma natureza fez, só que para os rudes dos matos. Além do mais, está nas leis dos homens que nós devemos ter ética. Mas a vida não tem ética.

Tudo isso que estou pensando agora é por que quarenta minutos atrás eu estava em casa, deitado na minha cama, pensando em mais um emprego para sustentar a minha esposa e o nosso filho. Sou honesto, trabalho duro durante a semana e faço bico nos fins de semana.

Morro todas as noites e ressuscito todas as manhãs; por que sou trabalhador, pai de família. Sou um homem ético; como a moral inquere que sejamos. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Cavaleiros da Morte

Cavalo branco a passos alienados
Meio a mármores do passado
Barbas vermelhas estão montados
Caçando seus últimos escravos

Cavalo da morte, cavalo da morte
São motoqueiros fantasmas
Tem espíritos e asmas
Quando deuses são fracos
Quando cavaleiros são fortes

Aqui estão os vermelhos da cavalaria
Foram deuses no passado
São filhos do rei dourado
Que sibila as palavras da bíblia
O refaz em poesias
Criando um novo dicionário

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Banco Vermelho

Voltamos ao início
Digo, à paisagem do início
Se lembra do cemitério?
Em frente ao nosso túmulo
Há um banco vermelho
Onde poderemos nos sentar

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Monólogo do Soldado Carniceiro (Parte II)

Agora que voltou, estava tudo em paz. Bastava ser discreto; roubar carros sem matar ninguém. Perfeito!

O problema é que aquele jovem no banco de trás, hoje com vinte e poucos anos, frequentando o A.A, é meu irmão. A mulher, que tempos depois enfartou, era minha mãe. E o gordo otário que você tirou a vida era o meu pai.

Eu saia todas as noites com aquele balofo, para correr. Ele tinha mais de cinquenta anos e mais fôlego do que eu. Era firme como uma rocha. Considerado pelos subalternos o melhor oficial da tropa; por acabar com asquerosos como você. Considerado uma ameaça ao governo, foi extraditado sob acusações caluniosas. Se aquele homem era um faxineiro, como os noticiários diziam, era tido pelos trabalhadores honestos como um homem que limpava lixos humanos como você. Motivo de orgulho, por que fazia aquilo que, no íntimo, todos gostariam  que fosse feito.

Você é um mártir! Vingou a sua classe e os seus simpatizantes! Veja tamanha ironia: se tornou herói sem ao menos saber. Se a vida é tão irônica, lhe contarei uma ainda maior.

Eu nunca quis ser policial. Meu pai nunca quis que eu fosse. Meu desejo sempre foi ser um bibliotecário. Levar uma vida pacata, organizando livros, sentindo o cheiro de páginas mofadas. Eu pensei assim até o dia em que vi meu pai deitado em um caixão. Eu poderia apenas querer vingança e mais nada. Não, meu desejo foi bem além. Entrei como soldado, como um mero subalterno. Não quis nem mesmo entrar como oficial, como fez o meu pai.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Linha da Mentira

Admito que quero matar o tempo, mas sinto medo de ir até ela. Medo de ficar no chão; só que eu já estou, e quero expulsar as tristezas das notícias ruins que recebo.

O dia está acabando e eu confesso que sinto vontade de fugir. Tenho mais nada para dizer, só que eu quero continuar. Sei que para ela não há recuperação, que ela é sempre sincera, que ela nunca mente. Nunca mente.

E sinto saudade, sinto falta.

domingo, 1 de abril de 2012

Abortado

Nascido de uma barriga indesejada
Com dois dias de vida, ainda sem dono
Mais um caso de criança abandonada
Uma criança salva por uma desempregada

O menino estava vivo, mas passava fome
A desempregada chorava e perdia o sono
Não podia dar ao menino ao menos um nome
E passou a guarda do menino para uma família de renome

Menino sortudo, de família rica
Agora poderia ter tudo
Passar as férias na Suiça
Gostava da luxúria
E não sabia o que era a missa
Usava lentes
Por que tinha problemas nas vistas.