sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Olhos


Sinto os olhos pendendo. Retorcem-se, ansiando as trevas. Meus olhos querem fazer amor com o desespero. Com o desespero que estupra os olhos daqueles que vejo nas ruas.

Hoje, de olhos esbugalhados, eu me sinto bem.  E quando eu me sinto bem, eu gosto de conversar sobre mim. Dê-me um minuto; buscarei algo gelado para tomarmos. Você quer algo para acompanhar a bebida? Sim? Buscarei.

Eu não quero nada; estou saciado. Sabe, quando você tem um problema, você deve cortá-lo pela raiz. Não se pode deixar para mais tarde. E eu, como já disse certa vez, sinto desejo por olhos e por suas expressões.

Olhos falam, olhos escondem. Olhos dançam.

Eu devo confessar que quero seus olhos. Seus olhos ágeis que ousam ler essas linhas. Os meus segredos. Olhe para trás agora; talvez eu esteja com uma faca na mão, esperando você olhar para mim. Eu arrancarei um olho seu. Olhe para mim agora. Os olhos falam; você sabe, não é mesmo? Talvez a faca não esteja na minha mão. Talvez esteja na minha bolsa. Os olhos escondem; você sabe, não é mesmo?

Eu não deveria falar; mas hoje eu me sinto bem. E quando eu me sinto bem, eu gosto de falar sobre mim. E devo dar um conselho a você: se olhe nos olhos. Pode ser que eu tenha enfiado uma agulha na sua pupila. Se você acha impossível, pois não viu nada, talvez seja porque você está em estado de cegueira.

Sinto que você não está com muita concentração no papel. Lê com um olho apenas, enquanto me procura com o outro. Seus olhos estão esbugalhados, iguais os meus. Olhos dançam; você sabe, não é mesmo?

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