segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Primavera Negra

A tolice e o erro
A culpa e a mesquinhez
Trabalham o nosso corpo
E ocupam o nosso ser.

Nós alimentamos nosso remorsos
Assim como o mendigo alimenta sua imundice.

O arrependimento é frouxo
E o pecado é firme.

Nossas almas reclamam demasiadamente
Pelas nossas confissões.
Voltando, após o desabafo
Ao seu lugar sórdido.
Acreditando que se lava a sujeira
Com esse choro amaldiçoado.

Junto ao berço do mal
Junto à Hermes;
A nossa alma descansa

Esse sábio torna-se transparente
A nossa ambição.

O diabo nos faz dele,
Os seus fantoches.
Objetos repugnantes são
Os que mais nos agradam.

Descemos sempre mais um degrau da escada
Entrando em fossas cadas vez mais cruéis.
Como um imoral que morde e mastiga
O seio de uma velha vadia.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Garapa

E se fosse uma locomotiva que andasse a todo vapor. Espere! Eu sei que você não me pediu, mas quero contar duas situações. Primeiro que me sinto incomodado em falar o que eu penso, sem antes ser perguntado; a impressão que tenho é a de que não sou bem vindo. Você é bem vindo aqui no no meu espaço.

Quero mesmo contar sobre um dia meu. Acho que era um domingo bobo. Éramos a garapa, o mundo e eu. A garrafa de garapa na mão, pela metade. Havia uma estrada; estava numa locomotiva que começou a correr devagar. Eu fechei os meus olhos, e ela fazia barulho de música. A locomotiva se quebrava na estrada. Me desculpe se não estou sendo claro.

Talvez eu devesse rasgar essa folha, pois eu não sei o que estou escrevendo - o que escrevo. Eu queria escrever sobre um passeio; que eu fiz numa locomotiva, com uma garrafa de garapa na mão. Rente aos destroços, me embriagando com o néctar, com mil diabos ao meu lado; com uma maldita garapa na garganta.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Musa Doente

Ah, minha pobre musa
O que você tem?
Seus olhos ocos
São visões noturnas
E sua pele reflete horror
E loucura
São sombras tristes.

Sobre você, um duende rosado
Derramou amor e medo
Sobre o seu túmulo
O seu pesadelo
Tirano, a afogou
No fundo de Minturnas.

Quis que, exalando o aroma da saúde
Fosse o seu seio força e juventude
Que o seu sangue fluísse
Lentamente.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Limpeza


São cinco da manhã de uma quarta feira
Mamãe me acorda aos gritos
E socos, apontando a sujeira
E que só terei de volta a minha vida
Depois de deixar tudo limpo

Bem, tem dias que eu me fodo
Hoje é um bom dia para eu me foder
Tudo que eu preciso saber
Onde é que está a porra do rodo

"Rodo é o caralho, moleque
Primeiro você vai limpar o penico
Já está com dezessete
E até hoje não saber deixar tudo limpo?"

É difícil mijar dentro do vaso
Sempre respinga uma gota
Outro problema também
É que quando você não tem uma garota
Também suja o banheiro de porra

Mas vamos lá que eu não posso perder tempo
Tenho aula hoje, prova de química,
Se eu tirar zero, tenho uma desculpa ao menos
Direi que estava aprendendo a fazer faxina

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Transgressão

Eu vou explicar tudo detalhado; explicarei por que entendi e por que gostei. A iniciar pelas convenções, é como se fosse uma Aletheia, com um sentido mais amplo e mais concreto. Você deve se perguntar por que concreto, se o problema, aliás, a solução, é justamente algo maleável. A questão é que concretizaram dessa maneira; e o que torna tão concreto é a opção alienada em optar por um muro feito, invés de construir o próprio muro.

Todas as questões autoritárias: a família, a igreja, a escola; tudo isso são orgãos do convívio; e pasme, eles concretizam o convívio. Definiram a maneira de viver. Eu entendo o porquê da revolta, mas eles não entendem. Um filho de deus disse-me filho do diabo quando falei que se a verdade existe, ela foi convencionada. Tolo!

Não quero me desviar. Vejamos o seu próprio exemplo; por que ao contrário das minhas, suas ações causaram impacto. Entendo sua timidez juvenil. A verdadeira juventude é uma tortura; você sabe muito bem o que eu digo. Perder a nobre euforia da infância, e pior, abrir a alma para descobrir que no fundo não há nada para ser descoberto, e digo mais, um traço feito sem ter uma consulta contigo, é no mínimo, tortuoso. É penoso procurar respostas e não achá-las.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Experiência

Esta será a primeira vez que relatarei uma experiência que tive algumas vezes.

O primeiro grande sinal que senti foi a percepção da variação de tempo entre o momento da primeira inspiração e o momento em que senti os meus olhos tombarem. Fica a dúvida se os meus olhos tombaram pouquíssimo tempo após a inspiração ou se levou algum tempo razoável. Pois não posso afirmar com certeza, já que a minha percepção está completamente alterada. Julgo que posso não ter percebido o fato no momento exato do acontecimento.

A princípio, uma grande sensação de medo se apoderou de mim. Fui atormentado por pensamentos autofágicos, aniquilações, sarcasmos e humilhações. Percebi que os meus sonhos tremiam, da mesma forma que o meu corpo tremia. Associei tremor ao medo e concluí que se todos nós tremíamos, era por que todos nós sentíamos medo.

O medo é a casca de ovo do mundo.

Acomodei-me ao novo terreno. Às vezes sinto algumas pontadas; é como se os seres desse lugar quisessem que eu dançasse em uma roda. Seria um ritual de iniciação; ou uma festa de boas vindas.

Considero que estou um pouco desconfiado. Acho que é a estranheza de voar e olhar para baixo; ver tudo que era grande, agora pequeno, em milimétrica proporção.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Sobre a Perda


Perda, como uma pedra
Arremessada em um ninho
Arrebenta meu caminho

Perda, que me atinge na curva
Me acerta em cheio, me remove
Me remói de culpa
Umedece meus olhos, me comove

Perda, das infernais
O carrasco espreita pela fresta
Saca o revólver, me remove
Com um tiro seco na testa

Perda, por não ter
O que se desejava ter
Como se pode perder
O que não se pode ter?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Desgraça


Desgraça, minha primeira esposa, meu primeiro amor
Foi você quem veio, da mais profunda e estranha cova
Me agarrar com unhas e dentes, dizer que me adora
Você foi a divindade suprema que me desvirginou!

Sou seu servo, escravo fiel
A toco, beijo, mordo e chupo, sua desgraçada
Até você virar os olhos para o céu
E me desgraçar até o fundo da alma

Desgraça, minha amada
Eu quero ter desgraças contigo
Até você dizer que essa minha vida azarada
Durará até o romper do infinito!

Eu quero levar tapa no pé da orelha
E bicos violentos na boca da barriga
Serei para sempre sua ovelha
Desde que você desgrace para sempre a minha vida!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Galope Selvagem

Sei que sou apenas mais um. Mas serei o último. Deslizarei o meu olhar convidativo sobre a sua cabeleira sedosa; abaixando as pálpebras para os seus seios, até o balanço da sua cintura. O balanço da sua cintura me embriaga; e é nela que apoio minhas mãos nuas.

A nudez é uma estrela; e você sabe que uma estrela somente não faz uma constelação. É por isso que estou aqui; acuando-a para a parede. Sinta o gelo dos tijolos nos seus lábios enquanto eu aprecio o calor das suas costas. O navegar da sua cintura... Me seduz lentamente. Cada movimento do seu quadril vibra uma fibra do meu corpo. Galope selvagem.

Na sua nuca brota as primeiras gotas do suor proibido. Nas suas coxas nascem os primeiros tremores do frenesi cobiçado. Ah! Dance, garota. Dance no ritmo da bomba que explode em seu peito.

Não existe nada lá fora, além do desejo que exala de nós. Ninguém nos espera lá fora; e aqui tudo o que eu espero são os nossos corpos em transe.

Seu gemido quente é o combustível para esse acesso de fúria. Que a carne sacie os tormentos de nossos anseios. Galope selvagem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Olhos


Sinto os olhos pendendo. Retorcem-se, ansiando as trevas. Meus olhos querem fazer amor com o desespero. Com o desespero que estupra os olhos daqueles que vejo nas ruas.

Hoje, de olhos esbugalhados, eu me sinto bem.  E quando eu me sinto bem, eu gosto de conversar sobre mim. Dê-me um minuto; buscarei algo gelado para tomarmos. Você quer algo para acompanhar a bebida? Sim? Buscarei.

Eu não quero nada; estou saciado. Sabe, quando você tem um problema, você deve cortá-lo pela raiz. Não se pode deixar para mais tarde. E eu, como já disse certa vez, sinto desejo por olhos e por suas expressões.

Olhos falam, olhos escondem. Olhos dançam.

Eu devo confessar que quero seus olhos. Seus olhos ágeis que ousam ler essas linhas. Os meus segredos. Olhe para trás agora; talvez eu esteja com uma faca na mão, esperando você olhar para mim. Eu arrancarei um olho seu. Olhe para mim agora. Os olhos falam; você sabe, não é mesmo? Talvez a faca não esteja na minha mão. Talvez esteja na minha bolsa. Os olhos escondem; você sabe, não é mesmo?

Eu não deveria falar; mas hoje eu me sinto bem. E quando eu me sinto bem, eu gosto de falar sobre mim. E devo dar um conselho a você: se olhe nos olhos. Pode ser que eu tenha enfiado uma agulha na sua pupila. Se você acha impossível, pois não viu nada, talvez seja porque você está em estado de cegueira.

Sinto que você não está com muita concentração no papel. Lê com um olho apenas, enquanto me procura com o outro. Seus olhos estão esbugalhados, iguais os meus. Olhos dançam; você sabe, não é mesmo?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Fragmentos


Querida, acorde!
Nós estamos voando
Nós podemos voar!

Para quem sempre cuidarei.

Mãos entregues
Ao som das flautas das montanhas
Para quem sempre me acompanha
Me cega, mas não me fere

Pequenos passos, sombras
Clarões, trovões, reanima
Dê-me uma epifania
Você sim, menina.