sábado, 5 de maio de 2012

Zurrapa

Somos como o vinho
O tempo passa
E nos tornamos melhores

Melhor por que nos tornamos
Mais unidos e mais corajosos
Para fazer o que tivermos vontade

Apodrecido!
Nossa vontade
Não é saudável.

Queremos destruir uma escola
Queremos ter os nossos nomes
Estampados na galeria dos que botaram
Um novo rumo para a geração.

Mas que esse novo rumo
Seja torto, ou que seja tosco
Como um de nós é

Ou cabeçudo
Um rumo de cabeça grande?

Pés grandes, cabelos grandes
Um vai se foder bem grande
Para você também.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Trinta e Quatro (Parte II)

Eu tenho trinta e cinco, com cara de de cinquenta e três; por que essa pele sensível minha definha com o ardor do sol que encaro diariamente. O sangue me cega e não me contento com a banguela. Eu estava com o rastelo na mão, cuidando do nosso jardim. Já tinha tirado quatro rosas saudáveis para a minha mulher quando ela abriu o portão. Sorri e ela veio até mim com a expressão grave; me abraçou e disse, sussurrando no meu ouvido: "Quero o divórcio". Meu mundo girou e antes de pensar em algo, muito menos falar qualquer coisa, ela me deu a segunda martelada: "Tenho outro".

E naquele momento de abandono, tudo que eu tinha posse era meu rastelo, com qual desdentei minha esposa em um só golpe; assassinei em três, trucidei em cinco e só voltei a enxergar depois do sétimo.

Foi simples como essas linhas corridas. Covarde ou covardia?

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Quinteto do Oito

Morte ao que for platônico!

Meus eternos e únicos
Meus nobres companheiros
Vocês sempre foram muito
Andaram comigo o dia inteiro

Choro toda vez que lembro daquele ano
Total felicidade
Para sempre saudade

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Tributo

Aquilo que não é firme no toque, o que não atinge com afinco, com a ponta afiada, não excita. É devido a esse toque, ainda que sutil, que eu repouso o meu olhar sobre você.

Não se trata da sua beleza e extraordinária elegância. Ou os seus cabelos finos que deslizam por todo o seu corpo; seus olhos indagadores que acariciam o olhar de cada observador. Nem mesmo a natureza quente dos seus lábios, moldura do seu sorriso cândido.

Trata-se mesmo da sua alma. Da sua alma cruelmente boa. Aqui eu faço uma observação por saber que você está sorrindo, na busca de compreender o meu porquê sobre "cruelmente boa". A sua bondade está no seu espírito, eminentemente livre. Cruel, pois a liberdade exige essa posição.

Somos companheiros, como dois pássaros. Não dois pássaros presos na gaiola. Estamos sobrevoando penhascos e oceanos; bosques e edifícios. E você, como eu, faz uso das suas asas. Podemos nos perder, é verdade; mas a maravilha consiste neste passeio.

É daí que nasce todo o meu gostar por você. O seu comportamento que me fez oferecer a minha sincera amizade, que você tem. Você é singular; e é dessa forma que você passa a ter significado para mim.

Eu poderia encerrar desejando-a frases velhas e batidas; mas na nossa amizade não cabe nada que seja velho e batido. Jamais!

Tudo o que eu posso desejar a você, de verdade, é uma vida intensa, ainda que seja breve.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Virgem

Eu cheguei em casa
Eu estava bêbado
Ela estava pelada
E eu fiquei sem jeito

Ela tirou a minha roupa
E nós fomos para a cama
E eu gozei na sua boca
Antes de começarmos a transa

sábado, 21 de abril de 2012

Anos Iguais

Janeiro, fevereiro, março
Lua, nave, espaço
Abril, maio, junho
Plutão, marte, saturno
Julho, agosto, setembro
Vejo, verei, vendo
Outubro, novembro, dezembro
Leio, lerei, lendo

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Monólogo do Soldado Carniceiro (Parte III)

No curso de formação, não aprendi nada de útil. Apenas baboseiras, como marchar e bater continência para o superior. A minha primeira aprendizagem foi com o primeiro rato que eu matei. No dia, ele espancou a mulher até a morte com um taco. Quando cheguei ao local, um barraco escroto numa viela que fedia esgoto ao ar livre, se encontrava ele sentado, assistindo televisão. O algemei e o conduzi até a viatura. A caminho da delegacia, desviei o trajeto até aqui. Esse barracão nojento, onde matei, precisamente, quarenta e oito insetos como você. O matei algemado. Espanquei-o com o taco. Com esse mesmo taco matei onze. Veja que ironia: um time de futebol! O taco quebrou no décimo segundo.

Do doze ao dezoito eu matei esfaqueado. Eu sei os detalhes de todos as mortes. Tenho tudo registrado em um caderno. O diário do soldado carniceiro, diria um jornalista sensacionalista. Do dezenove ao vinte e um, por exemplo, eu matei com um tiro calibre doze, na cara. Achei bacana a ideia daquele filme. Depois, até o trigésimo, matei enforcado, como fazia os mafiosos da cosa nostra. A partir de então, não matei mais usando métodos em sequência. Diria eu que as mortes aconteceram de acordo com o estado do meu espírito.

Você pode me perguntar por que eu matei tantos homens; por que uma chacina de tal dimensão, se meu alvo era apenas um único homem. Tenho meus motivos, e acho que posso expô-los; afinal, suponho que você não esteja com pressa, não é mesmo? Tempo é o que não lhe faltar depois dessa noite.

domingo, 15 de abril de 2012

Trinta e Quatro (Parte I)

E você pode acreditar que eu tenho trinta e quatro agora, e todos precisam de pão e só eu que trabalho. O sangue me cega e eu não me contento com a banguela.


Li em um grafite de rua que ou você derruba você, ou você derruba a vida. E para nós, humanos pobretões, vida, muito das vezes, não é uma sinfonia bem orquestrada; um conjunto de substâncias interligadas. Muito das vezes, a vida se resume a muito menos do que isso. Em uma conversa de pé de ouvido, eu diria que a vida se resume a fardos.

Vida são pianos pesados cravados em lombos arrombados de homens que, para suprir a necessidade da existência, devem carregá-los ladeiras acima. Como disse o maldito "Sobrevive o que sobressai". É necessário amputar a pele sensível que a natureza fez e implantar o couro de animal que a mesma natureza fez, só que para os rudes dos matos. Além do mais, está nas leis dos homens que nós devemos ter ética. Mas a vida não tem ética.

Tudo isso que estou pensando agora é por que quarenta minutos atrás eu estava em casa, deitado na minha cama, pensando em mais um emprego para sustentar a minha esposa e o nosso filho. Sou honesto, trabalho duro durante a semana e faço bico nos fins de semana.

Morro todas as noites e ressuscito todas as manhãs; por que sou trabalhador, pai de família. Sou um homem ético; como a moral inquere que sejamos. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Cavaleiros da Morte

Cavalo branco a passos alienados
Meio a mármores do passado
Barbas vermelhas estão montados
Caçando seus últimos escravos

Cavalo da morte, cavalo da morte
São motoqueiros fantasmas
Tem espíritos e asmas
Quando deuses são fracos
Quando cavaleiros são fortes

Aqui estão os vermelhos da cavalaria
Foram deuses no passado
São filhos do rei dourado
Que sibila as palavras da bíblia
O refaz em poesias
Criando um novo dicionário

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Banco Vermelho

Voltamos ao início
Digo, à paisagem do início
Se lembra do cemitério?
Em frente ao nosso túmulo
Há um banco vermelho
Onde poderemos nos sentar

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Monólogo do Soldado Carniceiro (Parte II)

Agora que voltou, estava tudo em paz. Bastava ser discreto; roubar carros sem matar ninguém. Perfeito!

O problema é que aquele jovem no banco de trás, hoje com vinte e poucos anos, frequentando o A.A, é meu irmão. A mulher, que tempos depois enfartou, era minha mãe. E o gordo otário que você tirou a vida era o meu pai.

Eu saia todas as noites com aquele balofo, para correr. Ele tinha mais de cinquenta anos e mais fôlego do que eu. Era firme como uma rocha. Considerado pelos subalternos o melhor oficial da tropa; por acabar com asquerosos como você. Considerado uma ameaça ao governo, foi extraditado sob acusações caluniosas. Se aquele homem era um faxineiro, como os noticiários diziam, era tido pelos trabalhadores honestos como um homem que limpava lixos humanos como você. Motivo de orgulho, por que fazia aquilo que, no íntimo, todos gostariam  que fosse feito.

Você é um mártir! Vingou a sua classe e os seus simpatizantes! Veja tamanha ironia: se tornou herói sem ao menos saber. Se a vida é tão irônica, lhe contarei uma ainda maior.

Eu nunca quis ser policial. Meu pai nunca quis que eu fosse. Meu desejo sempre foi ser um bibliotecário. Levar uma vida pacata, organizando livros, sentindo o cheiro de páginas mofadas. Eu pensei assim até o dia em que vi meu pai deitado em um caixão. Eu poderia apenas querer vingança e mais nada. Não, meu desejo foi bem além. Entrei como soldado, como um mero subalterno. Não quis nem mesmo entrar como oficial, como fez o meu pai.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Linha da Mentira

Admito que quero matar o tempo, mas sinto medo de ir até ela. Medo de ficar no chão; só que eu já estou, e quero expulsar as tristezas das notícias ruins que recebo.

O dia está acabando e eu confesso que sinto vontade de fugir. Tenho mais nada para dizer, só que eu quero continuar. Sei que para ela não há recuperação, que ela é sempre sincera, que ela nunca mente. Nunca mente.

E sinto saudade, sinto falta.

domingo, 1 de abril de 2012

Abortado

Nascido de uma barriga indesejada
Com dois dias de vida, ainda sem dono
Mais um caso de criança abandonada
Uma criança salva por uma desempregada

O menino estava vivo, mas passava fome
A desempregada chorava e perdia o sono
Não podia dar ao menino ao menos um nome
E passou a guarda do menino para uma família de renome

Menino sortudo, de família rica
Agora poderia ter tudo
Passar as férias na Suiça
Gostava da luxúria
E não sabia o que era a missa
Usava lentes
Por que tinha problemas nas vistas.


quinta-feira, 29 de março de 2012

Monólogo do Soldado Carniceiro (Parte I)

- Se lembra da fita do posto de gasolina? O corola preto de placa de Goiânia. Estava lá a máquina morrendo, não é mesmo? Um gordo falando alto ao celular. Vocês sentado na mesma, pitando um cigarro, tomando uma cerva, na moral. Então aparece uma caranga daquela, com um otário daquele. Um presente de ouro enviado pelos deuses, não é mesmo?

Havia uma mulher e um jovem atrás. Estava muito manha. Era só meter o cano na cara do trouxa e levar o carro. Com destreza, daria para fazer quanto? Trinta mil? Talvez mais. Realmente um presente.

Então você e seus parceiros terminaram a breja, pagaram a conta, se levantaram e foram em direção ao imbecil. Só não contavam que aquele balofo também estaria ferramentado. Não interessa, você é tão ligeiro quanto a farinha que come. Sacou primeiro e disparou. Tiro certeiro no peito. Pegou o ferro do mané, enquanto os camaradas expulsavam os outros dois que estavam no toyota. Saiu voado. Que fuga! Que fita foi aquela que vocês fizeram?! Capa de jornal do outro dia.

O problema é que aquele gordo era um coronel aposentado. Os homens iriam grudar na sua cola. Olho por olho, dente por dente. Pelo seu vacilo, seu enterro era questão de relógio. Não ainda! Tinha para onde fugir! Vendeu rápido a caranga, pela metade do preço que achava que iria ganhar. Pegou a mulher e o filho de seis meses e saiu fora. Foi para Rondonópolis; de lá poderia se esconder em uma fazenda do interior do Mato Grosso. Tinha parentes por lá. Ficaria lá por um ou dois anos; até a poeira abaixar; depois voltaria. Não foi assim com o sargento que você trincou anos antes? Tinha esse carma de fazer milico. Carma não...Era dom mesmo. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Raio Roxo

O céu era verde
Uma fenda se abriu
No meio do céu

Um raio roxo partiu
O estralo ecoou
E os anjos das luzes
Se perderam

sábado, 24 de março de 2012

Cenas

O ônibus pára no ponto. Atrás do ponto, um muro desbotado. Na rua nada mais que o ônibus. É noite e está chovendo; a água pluvial escorre para dentro de uma boca de lobo.

Um tiro de rifle no céu. A manada explode e os animais correm babando. Uns estão cegos de medo, outros estão cegos de fúria. Todos estão cegos.

O homem andando pela calçada. Sobretudo preto, botas pretas, chapéu preto. Tem os cabelos pretos e as mãos nos bolsos. Caminha lentamente pela calçada chuvosa. Pensativo.

Os predadores são cavalos da morte que caçam as almas dos animais miseráveis, ou as flores raras que não se encontram em jardins secretos nenhum.

Um punk esquelético encostado no muro, perna encolhida apoiada no muro. Mãos no bolso, óculos escuro, olha para o homem.

Mas há sempre infelizes que não são miseráveis ou flores raras. Esses estão vivos e às vezes tem uma missão. Às vezes acordam sem saber por que acordaram. Pensam que seria melhor nunca mais ter que acordar.

O homem atravessa a rua . A chuva cessou. Apenas uma árvore sombria no canto da tela.

Os homens permaneciam selvagens e animalizados unicamente por que o mundo queria mantê-los famintos pela submissão; ou matá-los pela dor.

Ele conseguiu aspirar os elementos de uma espiritualidade, cuja característica principal...

quarta-feira, 21 de março de 2012

Harodes

Minha menina
A você que sempre pinta
E desenha para mim
Quero escrever um desenho
Quero escrever uma pintura

Harodes fogosas que oscilam
Na estrada da escuridão!

domingo, 18 de março de 2012

Paranoia dos Pensamentos

Eu me conhecer
Significa saber
O que posso fazer?

E como eu não sei
Antes de tentar
Então eu sou
Aquilo que já fiz?

Tudo que eu penso
Sou eu mesmo?

Ou não, sou apenas
Esse amontoado
De imbecilidades
Que já fiz?

Droga!
Não estrague
O meu mundo assim
Ninguém tem o direito
Portas!
São todas minhas

quinta-feira, 15 de março de 2012

Intervalo

Meu bem, é intervalo. Aqui não se diz recreio. Se diz intervalo. Recreio é por demais infantil. Não sabem eles o que é ser criança. Eles nunca brincaram como nós dois brincamos. Certamente não sabem o que é andar na rua imitando um manco, ou um lutador de sumor, ou um bicho qualquer.

Eles aqui gostam de beber nos recreios. Digo, nos intervalos. Gostam de beber! Eu penso: Tolos! Se fossem crianças, seriam embriagados por natureza.

É tão bom ter uma mamãe que seja embriagada e infantil, como eu sou. E eu fico desapontado quando preciso encerrar as minhas palavras, como agora; por que o intervalo acabou e eu preciso voltar para aquela sala feia.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Eumicela - IV Carta

- Olá, Eumicela.
- Olá, meu amigo.
- Você também está sentindo que estamos nos enfurnando em uma bola de espinhos, certo?
- E nós já sabemos qual é a saída.
- Será que vale a pena?
- Sua indagação não é sem motivos...
- Mas você conhece a liberdade pressionada...

sábado, 10 de março de 2012

Anjo dos Olhos Claros

Sou um homem com o coração esquartejado
Com o espírito desconfigurado
E com a alegria de viver inteiramente morta
Enterrado nas águas lamacentas do Rio Aqueronte
Por que sem você, meu anjo dos olhos claros
Não sei como, quando e nem onde
Eu terei o meu sorriso de volta

quarta-feira, 7 de março de 2012

Eumicela - III Carta (Parte II)

- Você existe?
- Sim, eu moro contigo.
- Quando eu morrer, nós dois vamos para o inferno.
- Você fala do inferno, mas gostaria de ir para o céu, certo?
- Eumicela, boa noite...
- Não pense que você está louco; você não está. Coloque aquela canção e faça o que é preciso fazer. Não fale para mim. Fale para quem é verdadeiramente importante. Depois deite e durma. Nós precisamos descansar.
- Certo. You Never Give me Your Money...
- ...Today.
- Quando tivermos 60 anos, iremos ouvir músicas de um século atrás.
- Se chegarmos aos 60.
- Pessimista
- Não haverá mais água, morreremos secos. Já disse para você enterrar garrafas com água.
- Vou fazer o telefonema.
- Certo. Eu quero ouvir a voz dela.
- Eu também.

domingo, 4 de março de 2012

Eumicela - III Carta (Parte I)

- Olá Eumicela, você está aí? Podemos conversar? Coloquei uma música agradável para nós.
- O que você quer? Tem algum assunto ou quer apenas encher essa folha com bobagens?
- Na verdade eu não queria falar com você.
- Então por que fala comigo? Fale com quem você quer.
- Eu tentei. Não exatamente tentar. Eu tentei tentar, entende? Mas eu não pude.
- Está me dizendo que foi fraco?
- É. Sabia que ela conhece você?
- Sim.
- Sabia que ela o admira?
- Sim, eu sei.
- E sabe também que se eu não o controlasse, nada disso existiria?
- Ouça, meu amigo. Nós já chutamos demais, muitas vezes. Não por que somos superiores, você sabe disso. Não somos tão razoáveis como gostaríamos de ser; mas também não somos idiotas como as vezes pensamos que somos. Você sabe da sua maldade - e sabe da minha. Conhece os nossos segredos. Sobre ela, você sabe, não faremos mal algum.
- Faremos a outras pessoas?
- Por que não? Você sabe das nossas tendências...
- Por que faríamos?
- Apenas se houver razão.
- Não tenho segredos com você, Eumicela. Obrigado por aquele dia.
- Você já me agradeceu nos outros registros.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Blues Proibido


Eu quis uma canção de blues
Mas eles me proibiram
Sinto que estou inspirado
Só que eles já me viram
Quando eu estava sentado
Tomando meu pileque
Lá no canto, enciumado

Ela sempre foi essa cobra
Por que, como você já sabe
Só sorri por uma nota de dólar
Querendo que você se acabe

Comigo não foi diferente
Vendi todo o meu diamante
A toda hora eu rangia os dentes
Para que ela fosse a minha amante

Ela sorria dengosa e linda
Prometendo uma vida nova na Argentina
Mas quando perdi tudo que era meu
Ela apenas me disse adeus

Agora que tenho dinheiro
Tudo bem, eu pago
Mas eles me proibiram
Só que me sinto inspirado
E eles já me viram
Pedindo uma canção de blues

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Grande Mentira

Minha mulher é uma pensadora
E eu penso nela todos os dias
E sonho com ela todas as noites
E hoje eu tive o melhor sonho que já tive

Acordei para escrever
Esse sonho, mesmo
Que jamais se apagará de mim

Estávamos abraçados
E eu pude sentir o seu calor
Dentro do meu sonho

Ela estava irradiante
E suas feições me faz amá-la
Querer a mentira para sempre

Eu pude sentir o seu calor
Através do meu sonho
E ela estava quente
E nos beijamos até amanhecer
E quando amanheceu
Nos beijamos até anoitecer

O nosso mundo
É o nosso mundo
E quando digo sobre mentiras
É por que sonho com você

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Desenho

Escrevo agora, somente, e tão somente, pelos meus desenhos e pinturas guardadas. Retribuo os gestos, gastando linhas em homenagem ao que penso. Ao carinho há carinho, à ternura há ternura; e o resto eu não preciso dizer.

Sobre a ideia; a inspiração. Ninguém desenha sem ideias. E nesta noite de cara fechada que terminou agora a pouco, seus olhos de jabuticaba sorriram assim que partiu. Esses riscos de luz, quando vagam dentro de mim, me tiram a tontura que sinto nessas noites. E sonho com o caramelo até ficar outra vez tonto, eufórico, no ponto adequado para escrever sobre os seus desenhos. Agora que posso recordar, posso também escrever.

Eu contaria como Deus fez os seus cabelos; de maneira mais copiosa, por que daquela vez foi tão sucinto. Não tínhamos tanto tempo para conversas, não é mesmo? E eu hoje tenho tempo, mas meu o talento se resume aos olhos. Fluir pelos traços da sua formosura.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Trimegista

És tu, a minha Trimegista!

Por trás de toda grande fortuna
Há sempre um crime!

Você, o anjo que me ensinou
Que me mostrou
A outra face do mundo

A face que me doa prazer
Pois você, minha perfeita
É o anjo mais belo da terra

Exalto e venero
Por que eu tenho a minha fortuna


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Minha Menina

Não me sinto desanimado por caminhar tantos quilômetros contigo. Também não me sinto cansado; apenas me preocupo com o seu cansaço, que eu nunca vejo. Minha vontade apenas aumenta com o seu sorriso.

Um fim de tarde, início de noite simples. Marcante. Uma ponte, um lago, uma vista. Uma paisagem, uma companhia: minha única alegria. Importante, valiosa, significante: minha única maravilha. 

Não preciso fazer rimas em linhas inteiras. Basta a recordação para escrever. A mesma delicadeza com as mãos é a mesma que me orienta. A grama, a música, o frio da água. Se lembra? A mesma água salgada nasce hoje. A imagem se formou como verdade naquele dia.

Vivendo outra noite sem sono. Está tudo bem. Pode tudo não estar tão certo, mas somos felizes. Sentimos a falta e amanhã estaremos perto. Você, por dentro das minhas veias, levando os brilho das cores para os meus olhos. Dependo tanto de você.

Estou dormindo. Sonhando que estou dormindo, com um semblante terrível, e a agonia indo e vindo pelos ponteiros do relógio. Protegendo-a, sentindo-a como minha menina. Olhos de ouro, respiração serena.

Acordei do meu sonho! Estou deitado, ouvindo as batidas do meu coração. E tudo se foi, não resta mais nada. E eu preciso da minha menina mais uma vez. Só mais uma vez. Para sempre.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nuvens

Escrever é complexo
Desenhar é viver
Roda, mundo
Roda...

Eis aqui a sua letra
A ponta o lápis quebrou

Lá! Aqui!
Você! Sim?
Eu estou pensando
Nas nuvens
Pensa em todas aquelas
Nuvens...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Becquerel

Um homem chamado Becquerel
Descobriu uns raios poderosos
Capazes de manchar o papel
Esses papeis que tanto gosto

Uma mulher trouxe o segundo elemento
Marie Curie e seu amigo Tório
E esses raios que ninguém tinha conhecimento

Ah! Mas eu não gosto deles
Eu gosto de outros elementos!

E foi nesse mesmo mês
Que conheci o benzeno
Meu novo amigo!

Ele também tem bom gosto
Ele também é poderoso

E tem raiva de mim
Pois escrevi para a sua mulher
Um amoroso, um carinhoso
Poema!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Estranha Loucura


Queria estar louco agora e sentir a morte mordendo meus braços e pernas. Sabe, tem muitas almas penadas nesse mundo e eu sei que sou apenas mais uma. Mas eu queria que essa fumaça me engolisse ao ponto de me fazer esquecer disso.

Existem dias que já nascem mortos. Basta olhar para o sol e contemplar suas feições de abortado. Hoje é um dia desses. Tem dias que um pouco de loucura não faz mal, por que tem dias que o que faz mal é que faz viver.

Acho que não há erro em às vezes deixar se ceder. Quem não cede?

É estranho ouvir os zunidos da mente. É estranho olhar faces estranhas nas ruas. É estranho contemplar as paredes quentes do quarto.

Você sabe o que é desespero? Desespero é respirar a velhice. Envelhecer é morrer, e quem não sabe disso? E quem desfaz isso?

Tem dias que não há mal nenhum em dar um tiro na cara.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Salto para a Morte

O helicóptero se mantinha em velocidade e em ruído constante. O sargento gritava comigo, tentando inutilmente fazer com que sua voz soasse mais poderosa que o barulho forte das hélices da máquina voadora. Ele me entregou o fuzil ao fim dos berros explicativos. Estava na hora do salto. "O salto para a morte", como dizia os outros soldados. Alguns já haviam pulado e aquela era a minha vez. Olhei para o sargento que disse um seco e sincero boa sorte.

Saltei do helicóptero, contei vagarosamente até cinco e puxei a corda do paraquedas. As pequenas manchas verdes que via lá de cima eu conseguia distinguir notoriamente agora.

Com o fuzil em mãos, passeei pela mata em câmera lenta. Não ouvia mais o motor poderoso da aeronave. Somente as bombas e tiros de fuzis e metrancas nas trincheiras lá embaixo. O salto para a morte era lento e fresco. Os soldados diziam que aquele era o último e primeiro momento em que um homem se sentia com precisão. Era naquele salto que se descobria o porquê do vento ser invisível aos olhos e nobre ao corpo. Todos valorizavam intensamente o vento.

Pude pegar nas árvores enquanto caía. Notei o alvoroço desesperado dos pássaros. Era como se eles se perguntassem o que estava acontecendo, que explosões eram aquelas, e por que as árvores estavam no chão e os homens no ar. E a resposta, diriam depois os sobreviventes: "Esse é o salto para a morte".

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Tolos Morrem Antes

Hoje, neste tristonho dia
Que dia triste!
Não há palavra mais adequada
Tristeza faz feriado em qualquer alma
O meu hoje se calou para a dor
Estou dolorido
Estou triste
É ruim
Sinto-me sozinho no escuro
Sem ouvir, ver, sentir nada
Sem ter nada
Apenas a sílaba de uma canção convidativa
Um barulho de gatilho
Um desejo que me persegue

Poderia eu ser uma lepra
Que contamina, marca e destrói
Mas sou uma pessoa
Preferia uma nuvem
Dissolvido no céu!
Seria nobre!

Palavrões me vem em mente
Eu não sei
Um convite
Certo, certo
Recuso!
Covarde?!
Sim, covarde...

Durmo em um lençol verde
Cheio de flores desenhadas
Pena que são apenas desenhos
Como diria um amigo
Os tolos morrem antes

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mil Novecentos Setenta e Um

Eu não tinha nada, mas eu tinha tudo. Não é difícil explicar.

Muito dos que estão aqui, ainda que mereçam estar aqui, tinham casa, família e amigos. Não tinham dinheiro e por isso diziam que não tinham nada. Mas hoje, quando perderam as pessoas, continuam dizendo que não têm nada. A diferença é que dizem ter perdido tudo.

Comigo não é diferente.

- Pai, eu não preciso da sua ajuda. Eu sei o que posso fazer sozinho.

- Não seja arrogante. Todas as vezes que você precisou de alguém, foi eu ou sua mãe que lhe acudiu.

- Certo, mas eu que pedi a ajuda. Jamais fui orgulhoso o suficiente para recusar a necessidade da ajuda.

- Você não sabe tudo e eu sei mais que você. Estou dizendo: é muito cedo para você guiar um carro na estrada.

- Já não sou mais criança!

- E também não é um homem completo, ainda.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Primavera Negra

A tolice e o erro
A culpa e a mesquinhez
Trabalham o nosso corpo
E ocupam o nosso ser.

Nós alimentamos nosso remorsos
Assim como o mendigo alimenta sua imundice.

O arrependimento é frouxo
E o pecado é firme.

Nossas almas reclamam demasiadamente
Pelas nossas confissões.
Voltando, após o desabafo
Ao seu lugar sórdido.
Acreditando que se lava a sujeira
Com esse choro amaldiçoado.

Junto ao berço do mal
Junto à Hermes;
A nossa alma descansa

Esse sábio torna-se transparente
A nossa ambição.

O diabo nos faz dele,
Os seus fantoches.
Objetos repugnantes são
Os que mais nos agradam.

Descemos sempre mais um degrau da escada
Entrando em fossas cadas vez mais cruéis.
Como um imoral que morde e mastiga
O seio de uma velha vadia.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Garapa

E se fosse uma locomotiva que andasse a todo vapor. Espere! Eu sei que você não me pediu, mas quero contar duas situações. Primeiro que me sinto incomodado em falar o que eu penso, sem antes ser perguntado; a impressão que tenho é a de que não sou bem vindo. Você é bem vindo aqui no no meu espaço.

Quero mesmo contar sobre um dia meu. Acho que era um domingo bobo. Éramos a garapa, o mundo e eu. A garrafa de garapa na mão, pela metade. Havia uma estrada; estava numa locomotiva que começou a correr devagar. Eu fechei os meus olhos, e ela fazia barulho de música. A locomotiva se quebrava na estrada. Me desculpe se não estou sendo claro.

Talvez eu devesse rasgar essa folha, pois eu não sei o que estou escrevendo - o que escrevo. Eu queria escrever sobre um passeio; que eu fiz numa locomotiva, com uma garrafa de garapa na mão. Rente aos destroços, me embriagando com o néctar, com mil diabos ao meu lado; com uma maldita garapa na garganta.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Musa Doente

Ah, minha pobre musa
O que você tem?
Seus olhos ocos
São visões noturnas
E sua pele reflete horror
E loucura
São sombras tristes.

Sobre você, um duende rosado
Derramou amor e medo
Sobre o seu túmulo
O seu pesadelo
Tirano, a afogou
No fundo de Minturnas.

Quis que, exalando o aroma da saúde
Fosse o seu seio força e juventude
Que o seu sangue fluísse
Lentamente.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Limpeza


São cinco da manhã de uma quarta feira
Mamãe me acorda aos gritos
E socos, apontando a sujeira
E que só terei de volta a minha vida
Depois de deixar tudo limpo

Bem, tem dias que eu me fodo
Hoje é um bom dia para eu me foder
Tudo que eu preciso saber
Onde é que está a porra do rodo

"Rodo é o caralho, moleque
Primeiro você vai limpar o penico
Já está com dezessete
E até hoje não saber deixar tudo limpo?"

É difícil mijar dentro do vaso
Sempre respinga uma gota
Outro problema também
É que quando você não tem uma garota
Também suja o banheiro de porra

Mas vamos lá que eu não posso perder tempo
Tenho aula hoje, prova de química,
Se eu tirar zero, tenho uma desculpa ao menos
Direi que estava aprendendo a fazer faxina

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Transgressão

Eu vou explicar tudo detalhado; explicarei por que entendi e por que gostei. A iniciar pelas convenções, é como se fosse uma Aletheia, com um sentido mais amplo e mais concreto. Você deve se perguntar por que concreto, se o problema, aliás, a solução, é justamente algo maleável. A questão é que concretizaram dessa maneira; e o que torna tão concreto é a opção alienada em optar por um muro feito, invés de construir o próprio muro.

Todas as questões autoritárias: a família, a igreja, a escola; tudo isso são orgãos do convívio; e pasme, eles concretizam o convívio. Definiram a maneira de viver. Eu entendo o porquê da revolta, mas eles não entendem. Um filho de deus disse-me filho do diabo quando falei que se a verdade existe, ela foi convencionada. Tolo!

Não quero me desviar. Vejamos o seu próprio exemplo; por que ao contrário das minhas, suas ações causaram impacto. Entendo sua timidez juvenil. A verdadeira juventude é uma tortura; você sabe muito bem o que eu digo. Perder a nobre euforia da infância, e pior, abrir a alma para descobrir que no fundo não há nada para ser descoberto, e digo mais, um traço feito sem ter uma consulta contigo, é no mínimo, tortuoso. É penoso procurar respostas e não achá-las.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Experiência

Esta será a primeira vez que relatarei uma experiência que tive algumas vezes.

O primeiro grande sinal que senti foi a percepção da variação de tempo entre o momento da primeira inspiração e o momento em que senti os meus olhos tombarem. Fica a dúvida se os meus olhos tombaram pouquíssimo tempo após a inspiração ou se levou algum tempo razoável. Pois não posso afirmar com certeza, já que a minha percepção está completamente alterada. Julgo que posso não ter percebido o fato no momento exato do acontecimento.

A princípio, uma grande sensação de medo se apoderou de mim. Fui atormentado por pensamentos autofágicos, aniquilações, sarcasmos e humilhações. Percebi que os meus sonhos tremiam, da mesma forma que o meu corpo tremia. Associei tremor ao medo e concluí que se todos nós tremíamos, era por que todos nós sentíamos medo.

O medo é a casca de ovo do mundo.

Acomodei-me ao novo terreno. Às vezes sinto algumas pontadas; é como se os seres desse lugar quisessem que eu dançasse em uma roda. Seria um ritual de iniciação; ou uma festa de boas vindas.

Considero que estou um pouco desconfiado. Acho que é a estranheza de voar e olhar para baixo; ver tudo que era grande, agora pequeno, em milimétrica proporção.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Sobre a Perda


Perda, como uma pedra
Arremessada em um ninho
Arrebenta meu caminho

Perda, que me atinge na curva
Me acerta em cheio, me remove
Me remói de culpa
Umedece meus olhos, me comove

Perda, das infernais
O carrasco espreita pela fresta
Saca o revólver, me remove
Com um tiro seco na testa

Perda, por não ter
O que se desejava ter
Como se pode perder
O que não se pode ter?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Desgraça


Desgraça, minha primeira esposa, meu primeiro amor
Foi você quem veio, da mais profunda e estranha cova
Me agarrar com unhas e dentes, dizer que me adora
Você foi a divindade suprema que me desvirginou!

Sou seu servo, escravo fiel
A toco, beijo, mordo e chupo, sua desgraçada
Até você virar os olhos para o céu
E me desgraçar até o fundo da alma

Desgraça, minha amada
Eu quero ter desgraças contigo
Até você dizer que essa minha vida azarada
Durará até o romper do infinito!

Eu quero levar tapa no pé da orelha
E bicos violentos na boca da barriga
Serei para sempre sua ovelha
Desde que você desgrace para sempre a minha vida!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Galope Selvagem

Sei que sou apenas mais um. Mas serei o último. Deslizarei o meu olhar convidativo sobre a sua cabeleira sedosa; abaixando as pálpebras para os seus seios, até o balanço da sua cintura. O balanço da sua cintura me embriaga; e é nela que apoio minhas mãos nuas.

A nudez é uma estrela; e você sabe que uma estrela somente não faz uma constelação. É por isso que estou aqui; acuando-a para a parede. Sinta o gelo dos tijolos nos seus lábios enquanto eu aprecio o calor das suas costas. O navegar da sua cintura... Me seduz lentamente. Cada movimento do seu quadril vibra uma fibra do meu corpo. Galope selvagem.

Na sua nuca brota as primeiras gotas do suor proibido. Nas suas coxas nascem os primeiros tremores do frenesi cobiçado. Ah! Dance, garota. Dance no ritmo da bomba que explode em seu peito.

Não existe nada lá fora, além do desejo que exala de nós. Ninguém nos espera lá fora; e aqui tudo o que eu espero são os nossos corpos em transe.

Seu gemido quente é o combustível para esse acesso de fúria. Que a carne sacie os tormentos de nossos anseios. Galope selvagem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Olhos


Sinto os olhos pendendo. Retorcem-se, ansiando as trevas. Meus olhos querem fazer amor com o desespero. Com o desespero que estupra os olhos daqueles que vejo nas ruas.

Hoje, de olhos esbugalhados, eu me sinto bem.  E quando eu me sinto bem, eu gosto de conversar sobre mim. Dê-me um minuto; buscarei algo gelado para tomarmos. Você quer algo para acompanhar a bebida? Sim? Buscarei.

Eu não quero nada; estou saciado. Sabe, quando você tem um problema, você deve cortá-lo pela raiz. Não se pode deixar para mais tarde. E eu, como já disse certa vez, sinto desejo por olhos e por suas expressões.

Olhos falam, olhos escondem. Olhos dançam.

Eu devo confessar que quero seus olhos. Seus olhos ágeis que ousam ler essas linhas. Os meus segredos. Olhe para trás agora; talvez eu esteja com uma faca na mão, esperando você olhar para mim. Eu arrancarei um olho seu. Olhe para mim agora. Os olhos falam; você sabe, não é mesmo? Talvez a faca não esteja na minha mão. Talvez esteja na minha bolsa. Os olhos escondem; você sabe, não é mesmo?

Eu não deveria falar; mas hoje eu me sinto bem. E quando eu me sinto bem, eu gosto de falar sobre mim. E devo dar um conselho a você: se olhe nos olhos. Pode ser que eu tenha enfiado uma agulha na sua pupila. Se você acha impossível, pois não viu nada, talvez seja porque você está em estado de cegueira.

Sinto que você não está com muita concentração no papel. Lê com um olho apenas, enquanto me procura com o outro. Seus olhos estão esbugalhados, iguais os meus. Olhos dançam; você sabe, não é mesmo?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Fragmentos


Querida, acorde!
Nós estamos voando
Nós podemos voar!

Para quem sempre cuidarei.

Mãos entregues
Ao som das flautas das montanhas
Para quem sempre me acompanha
Me cega, mas não me fere

Pequenos passos, sombras
Clarões, trovões, reanima
Dê-me uma epifania
Você sim, menina.