sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Carta Morta

Talvez esta será a última carta que lhe escreverei e que você lerá. Ainda que assim seja, escreverei com todo o meu carinho, da maneira como sempre me dediquei a você.

Me mantenho deitado na cama, olhando o desenho que você me deu de presente. Tento observar cada detalhe do desenho; e para cada detalhe, consigo identificar um segundo vivido em sua companhia. Tempos bons. Lembro de dias em que estava na escola, com a sua imagem em mente, rabiscando frases desbotadas na cadeira, apensos de estrofes, frases febris; em suma, enchendo aquela cadeira com o seu significado para mim.

Me lembro das vezes em que lágrimas embaçaram-me os olhos. Lágrimas sem sal, com gosto doce. A saudade é tão doce a ponto de adoecer. Lágrimas que caíram na cadeira, em cima de tudo aquilo que eu havia escrito e, na tentativa inocente de secar a cadeira, grafite e lágrimas se fundiam, borrando todas as minhas palavras. E ali perecia o meu presente para você. Um presente secreto, jamais entregue. Confesso que não havia importância, pois aqui no meu mundo fantasioso eu era capaz de sentir o seu sorriso acanhado ao ver a minha obra.

Essa carta continua e, sinceramente, não sinto a mínima disposição em transcrevê-la. É uma carta antiga, melosa, que me faz sentir ridículo. Essa sensação piora quando sinto que estou sendo observado. Que não seja interpretado como provocação. Nós somos humanos: caçadores e camufladores natos.

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