sábado, 31 de dezembro de 2011

Embriaguez


Gosto de beber e tenho elegância quando bebo. Não me embriago, apenas deixo o meu espírito delicadamente leve.

Jamais fiz qualquer tipo de escândalo. Quem me conhece sabe.

O único traço que fica em mim é uma breve distinção na voz. Distinção essa que é charmosa ao ponto de deixar homens incomodados. E mulheres também.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Esquizofrenias

Entenda a natureza do meu jogo: torrar os seus defeitos.

Como me faz falta, como sinto saudade. Olhos, pele, cabelos. Como sinto necessidade!

Penso: o que posso escrever? Me falta um olho nesta terra de deserto. E hoje é um dia... Um dia, que eu sinto mesmo falta da sua presença. Eu penso que, eu posso, eu não sei. Eu quero interpretar algum sonho.

Somos apenas pessoas. Pessoas morrem quando descobrem a face do real. Ou do absurdo. Do mundo, da vida. Tudo é mortal, tudo é irreal. Eu me perco em loucuras. Nada em mim faz sentido.

Vamos, tudo bem. Perdão. Perdão por rir. É por que você é linda.

Já matei tanto, que acho que posso fazer outra vez. No íntimo, é bom. É como tomar um banho gelado em um dia de calor. Me esgoto ao ver a alma se esvair; por aí, para o nada. É bom fazer isso ao seu lado! Eu quero todos os dias, no meu silêncio cego, no tempo devido.

Enfurnado em loucuras, preso em abismos. Tão simples como me deitar na cama. Paraplégico. Anestesiado. Esquizofrênico.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Justiça

A justiça é um ponto de vista
Assim como a amizade.
Na verdade, tudo é ponto de vista.
Aos amigos, a amizade
Ao resto do mundo, as leis.

Quando eu não precisava
Eu tive vários amigos
Mas agora que eu preciso
Bem, estou onde estou
E se eu tivesse amigos
Eu não estaria aqui

O laço da amizade não é outro se não a gratidão.
E gratidão se tem
Ou não se tem.
É ponto de vista.

Há quem vende a mãe por notas de papel
Ou por posição
Eu o pergunto:
O filho que faz isso é ingrato?
A resposta é não.

Mas há quem diga que é um absurdo
Vender a mãe ou um irmão
É absurdo vender qualquer ser humano
Não é mesmo?

Sim, é um absurdo!
Tem tantas coisas que são absurdas...
Eu só quero dizer que a justiça
Também é absurda

Quanto você pagaria para que a justiça fosse feita?
A resposta para a pergunta é depende.
Pois tudo é uma questão de ponto de vista
Por que, se você não sabe,
A justiça também tem o seu preço.
Você venderia a sua mãe para que a justiça fosse feita?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Casamento Químico

Casa-se comigo, querida
Darei-lhe um anel aromático
Teus cabelos perfumados como benzina
Meu amor por você é volátil
Uma pérola de naftalina
Ligarei você ao modo do carbono
Em cadeias fechadas que irei lhe prender
Ficarás instaurada duas, três vezes
Tens um corpo estrutural
Minha musa da química orgânica

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Perturbação

Ele corria desesperadamente, sem olhar para trás. Corria e sentia a falta de ar. Seus pulmões doíam, e era o medo que sustentava a força e a resistência para continuar correndo mais e mais. Ele tombou. E mais rápido que sua queda foi o seu impulso para se levantar e continuar correndo, sem olhar para trás, desviando das árvores; correndo mais rápido que suas próprias pernas permitiam. Ele não queria que o alcançasse. Não queria por nada. Não queria morrer.

Somente ele sabia do pavor que aquela perseguição provocava em seu espírito. Ninguém poderia compreender o seu desespero. Nem mesmo se passasse pela mesma situação. Há situações que só existem uma vez no mundo, com uma única pessoa. É uma situação singular, verdadeira, inquestionável, surpreendente. Nem ao menos se sabe o que é. Acontece.

Sua mente, ainda sã, estava cada vez mais a favor da pertubação e do medo. Adentrado a floresta, não via sinais de civilização; sem saber se era dia ou noite. Sujo, cansado, sozinho, coração pela boca, afogado pela sede. Ajoelhou, passou a mão pela terra. Se rendeu. Sim! Se entregou! Que venha o carrasco, que o assassine. Que rasgue as veias do seu pescoço. Que ao menos o vermelho do sangue seja capaz de florir esses campos virgens.

A verdade é que não conseguia mais. A fuga é sempre um meio de pisar em falso em velocidade. Rápido, sagaz, sem dor. Chega. Há sensações que só existem uma única vez no mundo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Tiro

O deserto fica para trás
Com toda a ignorância de uma população
A guerra estoura no ar
Ei madame! Mais cinco minutos no salão
A dona sai ao mundo escovada
Uma bala de fuzil na cabeça da caçada

Dê-me um beijo, princesa
Um beijo de despedida
Um beijo de boa noite, sozinha, despida
Aproveite: os monstros ceiam.

Lembro da agonia do cambaleio
Guerra: sou uma estátua
Mãe: "Por seres filhos, não és feio".
Imagens: ainda medo de tarântula
Linda solidão naquele dia

Explodi minha cabeça com pólvora
E ela flutua agora
E meus dedos puxam o gatilho
A cada segundo de hora
Leões saltam os demônios.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Malandragem

Eu que sou limitado, cheio de defeitos, procuro por tudo me superar. Tento sempre acompanhar esse seu ritmo desenfreado que sempre me surpreende. Que sempre me mostra que atrás desse rosto fino há um aglomerado de belas ideias; que me orgulha e me prende. É mais do que já foi. É crescente, ligeiro, imponente. E o melhor: é madraço.

Sou da espécie que compartilha, que presenteia com a fundação de um novo mundo. Tenho disposição em passear pelas enseadas das nuvens. Digo o que não se deve pela diversão. Minto dizendo a verdade. Me dedico pelo nada, mas me dedico. 

Seja em prosa, seja em verso, eu simbolizo. Faço cultos pagãos; minha oferenda é a minha ironia sem disfarce, pois eu gosto mesmo de curvas, acidentes e do que foge ao correto. Convido por larápia e convenço. Sem nada na mão, sem nada em mente, consigo me enveredar. E vou pela sua trilha, sentindo o seu cheiro. Gosto daquilo que você tem fácil. Sou sim sorrateiro e quero cair para ver você me estender a mão.


domingo, 11 de dezembro de 2011

Senhora da Flor de Lótus

À minha espera havia uma senhora
Com uma flor de lótus em suas mãos
Em uma época em que a primavera
Não passava de um embrião

Em silêncio se dirigiu até mim
Em vestes de seda e cetim
Perfumada com o mais puro jasmim
E com colar de prata e marfim

Ao sorrir cessou a chuva
Delicadamente tocou a flor
E a minha visão embaçada e turva
Deixou de ser escura e ganhou cor

O corvo interrompeu o voo
O peixe saiu da água
O lagarto não rastejou
E eu deixei de lado a minha mágoa

Ela me fez pensar
Ela me fez dormir
Ela me fez sonhar
Ela me fez sorrir

E no meu sonho ela estava sentada em um trono
Acariciando as penas de um rouxinol
Que cantava brilhando ao sol:
O mundo é livre e não tem dono

Havia anjos dançando no pátio do palácio
E eu tinha uma flor de lótus na mão
Atrás de mim havia curingas e mágicos
E todos nós esperávamos a abertura do portão

Ela nos fez pensar
Ela nos fez dormir
Ela nos fez sonhar
Ela nos fez sorrir

E quando a senhora abriu uma fenda no céu azul
E esbanjou para todos da platéia o seu sorriso
Evocando orações mágicas para o paraíso
Do céu brotaram querubins de cabelos vermelhos e corpos nus 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dez Anos

Não queria morrer assim, sentado em uma cadeira
Sem ver pela última vez todos aqueles que passaram pela minha vida
Todas as pessoas que quando matei, joguei suas fotos na lareira
Recordando que foram essas pessoas que me deram água e comida

Queria ver todas essas pessoas uma única e última vez
Segurar a mão e agradecer um por um, por terem me moldado assim
Queria ouvir de um por um o nome de vocês
Ao menos a morte poderia ser generosa e dar esse presente para mim

Meus únicos amigos, que nunca tive, assistam a minha morte comigo
Não quero que façam missa de sétimo dia
Não quero que pesquisem sobre os meus escritos
Não é preciso mentir sobre mim para a minha filha

Digam a ela que a deixei, fui fraco, optei pela suicídio
E o dia que a levei ao bosque, eu chorei por que era uma despedida
Digam a ela que, como foram para mim, vocês serão amigos dela.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Dama das Quimeras

A dama das quimeras loucas gira as retinas; prisioneira de um calabouço desconfigurado. A vítima olha a catapulta, olha o tiro lançado que dança sobre o gás leve de hélio que forma o ar. O diabo, atrás da vítima, o puxa pelos cabelos. A vítima sente seu cabelo erguendo, no meio do nada, junto com o ar leve e gélido que sobe por suas entranhas sujas, até sua espinha emborcada. A vítima, estática, olha hipnotizado a dama das quimeras no céu escuro, com olhos loucos. E o diabo, atrás da presa, a energiza com assombrações infernais e sonhos de pânico.

A vítima acorda, bêbada. O som que a rua faz é de escárnio. A vítima pensa em beijar o rosto da mãe, que repousa em outro quarto. Ele se senta na cama, passa as mãos pelos cabelos que não existem mais; sente o cheiro singular de cabelo queimado. Ao passar a mão pela testa, sente o buraco do tiro que perfurou o osso do crânio.Capacete que não barra o medo.

Então ele se levanta e se sente encolhendo. Há ácido no chão; tudo derrete. Suas pernas terminam nos joelhos e não há mais nada para baixo, nem mesmo o chão. Um grito estoura seus tímpanos. A massa cinzenta escorre do cérebro até os olhos, pelo buraco de sua testa. Os olhos se fecham. Ele quer acordar desse sonho macabro, mas seus olhos não se abrem mais. Ele quer ouvir a voz de alguma pessoa querida dizendo: "calma, foi apenas um sonho"; mas seus tímpanos não funcionam mais. Ele quer correr, mas os pés estão corroídos. Ele quer se arrastar, mas uma fenda se abriu no chão.

Sobrou apenas o paladar para saborear o beijo tântrico da dama das quimeras, e o tato para sentir o diabo se infiltrando em sua carcaça morta.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Carta Morta

Talvez esta será a última carta que lhe escreverei e que você lerá. Ainda que assim seja, escreverei com todo o meu carinho, da maneira como sempre me dediquei a você.

Me mantenho deitado na cama, olhando o desenho que você me deu de presente. Tento observar cada detalhe do desenho; e para cada detalhe, consigo identificar um segundo vivido em sua companhia. Tempos bons. Lembro de dias em que estava na escola, com a sua imagem em mente, rabiscando frases desbotadas na cadeira, apensos de estrofes, frases febris; em suma, enchendo aquela cadeira com o seu significado para mim.

Me lembro das vezes em que lágrimas embaçaram-me os olhos. Lágrimas sem sal, com gosto doce. A saudade é tão doce a ponto de adoecer. Lágrimas que caíram na cadeira, em cima de tudo aquilo que eu havia escrito e, na tentativa inocente de secar a cadeira, grafite e lágrimas se fundiam, borrando todas as minhas palavras. E ali perecia o meu presente para você. Um presente secreto, jamais entregue. Confesso que não havia importância, pois aqui no meu mundo fantasioso eu era capaz de sentir o seu sorriso acanhado ao ver a minha obra.

Essa carta continua e, sinceramente, não sinto a mínima disposição em transcrevê-la. É uma carta antiga, melosa, que me faz sentir ridículo. Essa sensação piora quando sinto que estou sendo observado. Que não seja interpretado como provocação. Nós somos humanos: caçadores e camufladores natos.