sábado, 26 de novembro de 2011

Quatro Anos

O homem, quando criança, questionava o porquê de sua mãe ser tão insensível. Quando ficou jovem, buscou meios falsos de fugas; planos fantásticos; sonhos de metal. Concluiu que o melhor seria apenas viver da forma que convir; pois não é isso que todos fazem? Dançar conforme a música? Bem, mas esse homem que lhe digo não é uma bailarina de programas televisivos dominicais vespertinos.

Ele arrumou suas malas. Deixou todas as suas roupas e objetos no armário e foi embora, de malas vazias. As vezes o tempo muda, e o que ficou para trás deve morrer no passado. Ainda que o mundo seja apenas uma manivela.

Ele partiu. Partiu o coração de algumas pessoas. Mas o que importa, não é mesmo? Socializar é apenas sincronizar egoísmos. O embate surge por que a engrenagem humana não tem um ritmo linear.

Então ele se foi. Mudou-se para Natal; sem ao menos conhecer alguém lá. Arrumou um lugar para morar e comprou uma moto, embora andasse mesmo de bicicleta. Morou quatro anos em Natal sem conhecer nem mesmo uma única pessoa. Seu maior envolvimento era com a atendente do caixa da padaria. Ela sempre o cumprimentava com um bom dia ou boa noite, conforme o horário. Ele repetia as palavras dela, com um tom longínquo. As vezes ela sorria, mas ele não notava.

Durante os quatro anos que morou em Natal, foi à praia todos os dias que não choveu. Muito das vezes não entrava no mar. Apenas olhava as ondas vindo e quebrando. Movimento contínuo. Jamais pensava em seu passado, nunca havia ligado para alguém da sua terra natal. Também nunca havia recebido nenhuma ligação. Também não teve um telefone. Não precisava; se precisasse, havia um orelhão do outro lado da rua da casa onde morava.

Assim se foram quatro anos, que ele nem se quer sabia que eram quatro anos. O tempo havia passado muito depressa para tanto tempo.

Certo dia de manhã ao abrir a caixa de e-mail, leu um que continha a seguinte frase: "Sua mãe morreu hoje de madrugada, precisamos que você venha". Ele checou quem havia passado a mensagem; era mesmo alguém que o conhecia. Ele parou por um instante, tomou um banho, pegou um dinheiro e foi comprar uma passagem. Não fez malas. Foi com a roupa do corpo.

Chegou ao cemitério, olhou sua mãe no caixão. Ela estava diferente. Todos estavam. Só assim se deu conta de que havia se passado quatro anos.

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