terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ideologia

Para buscar.
Para viver o tempo que ainda existe.
Primeiro motivado pela emoção da ideologia.
Depois a compreensão
A desistência
O entregar-se ao modelo.

Em seguida, após a transformação
A conquista.
O nome, o renome
O direito, a recompensa.

Agora sim, completo
Há tudo.
E ainda há ambição.
Há querer.

E vinte anos atrás?
A ideologia...
O contra.

domingo, 27 de novembro de 2011

No Dia que Deus Colocou Fogo na Terra

Ouçam! Eu quero que toquem The Doors durante o enterro
Eu quero ouvir poesia
Enquanto Deus põe fogo na Terra

Ladrões sentados na praça contam o dinheiro
Feridos no banco esperam o socorro
Traficantes matam milícias no terraço do morro
Gritos de pânico são ouvidos o dia inteiro

Senadores amenizam com suas conversas de palanque
Esquizofrênicos clamam de dor pedindo remédios
Soldados com metralhadoras andam nas ruas em tanques
Cavaram um buraco para os demônios fugirem do inferno

Católicos vão ao Vaticano pedir ajuda ao Papa
Protestantes dizem que é Cristo nos castigando com a espada
Vulcões cospem fogo de montanhas e serras
É Deus, que está colocando fogo na Terra.

sábado, 26 de novembro de 2011

Quatro Anos

O homem, quando criança, questionava o porquê de sua mãe ser tão insensível. Quando ficou jovem, buscou meios falsos de fugas; planos fantásticos; sonhos de metal. Concluiu que o melhor seria apenas viver da forma que convir; pois não é isso que todos fazem? Dançar conforme a música? Bem, mas esse homem que lhe digo não é uma bailarina de programas televisivos dominicais vespertinos.

Ele arrumou suas malas. Deixou todas as suas roupas e objetos no armário e foi embora, de malas vazias. As vezes o tempo muda, e o que ficou para trás deve morrer no passado. Ainda que o mundo seja apenas uma manivela.

Ele partiu. Partiu o coração de algumas pessoas. Mas o que importa, não é mesmo? Socializar é apenas sincronizar egoísmos. O embate surge por que a engrenagem humana não tem um ritmo linear.

Então ele se foi. Mudou-se para Natal; sem ao menos conhecer alguém lá. Arrumou um lugar para morar e comprou uma moto, embora andasse mesmo de bicicleta. Morou quatro anos em Natal sem conhecer nem mesmo uma única pessoa. Seu maior envolvimento era com a atendente do caixa da padaria. Ela sempre o cumprimentava com um bom dia ou boa noite, conforme o horário. Ele repetia as palavras dela, com um tom longínquo. As vezes ela sorria, mas ele não notava.

Durante os quatro anos que morou em Natal, foi à praia todos os dias que não choveu. Muito das vezes não entrava no mar. Apenas olhava as ondas vindo e quebrando. Movimento contínuo. Jamais pensava em seu passado, nunca havia ligado para alguém da sua terra natal. Também nunca havia recebido nenhuma ligação. Também não teve um telefone. Não precisava; se precisasse, havia um orelhão do outro lado da rua da casa onde morava.

Assim se foram quatro anos, que ele nem se quer sabia que eram quatro anos. O tempo havia passado muito depressa para tanto tempo.

Certo dia de manhã ao abrir a caixa de e-mail, leu um que continha a seguinte frase: "Sua mãe morreu hoje de madrugada, precisamos que você venha". Ele checou quem havia passado a mensagem; era mesmo alguém que o conhecia. Ele parou por um instante, tomou um banho, pegou um dinheiro e foi comprar uma passagem. Não fez malas. Foi com a roupa do corpo.

Chegou ao cemitério, olhou sua mãe no caixão. Ela estava diferente. Todos estavam. Só assim se deu conta de que havia se passado quatro anos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Quarto de Risin (Parte II)

Maio de 1889: Pode ter sido um crime. Claro que foi um crime, e com a mesma clareza digo que foi prazeroso. Isso deveria aumentar a minha culpa. Se por um lado aumenta, por outro não, já que o prazer aniquila a culpa. Se já estou sentenciado, não me importa agora ter o fraco sentimento de culpa.

Estávamos Lucy e eu no quarto; estávamos abraçados com os olhos ainda vermelhos e pesados por tudo que nos havia acontecido. Não era justo que crianças fossem castigadas como nós da mesma maneira, pelo motivo que houve.

- Queria tanto me vingar, mas acho que sou incapaz.

- Mesmo com o seu irmão ajudando? Respondi sem perceber.

Ela arregalou os olhos. Estava surpresa com o que eu propusera sem querer.

- Bem... Como poderíamos nos vingar?

- Eu não sei - disse eu - Poderíamos apenas assustá-la, ao ponto de fazer o arrependimento brotar em seu coração.

Lucy me abraçava intensamente. Apesar de nitidamente triste, ela estava amorosa comigo. Eu sentia seus braços macios e algumas vezes o seu beijo doce no meu rosto. A forma como minha irmã me confortava era justamente o que a tornava tão importante para mim: a capacidade de me confortar nos bons e maus momentos. É preciso salientar que até mesmo nos bons momentos é necessário conforto.

Percebi uma luz no seu olhar e um sorriso diabólico na sua boca. Com certeza ela teve uma ideia. Ela não quis me contar, apenas me instruiu. Disse que a mamãe estava na sala, sentada na cadeira. Eu deveria apenas chegar frontalmente, caminhando e sorrindo lentamente; e depois pousar a mão sobre a de mamãe. O resto era com Lucy.

sábado, 19 de novembro de 2011

Banda de Rock

Um dia, um dia. Sim!
Um dia teremos a nossa banda de rock
Isso é sonho de infância
Sonhamos quando éramos crianças
Seremos uma banda de rock
O governo,em segredo, nos matarão
Assim que transformarmos uma geração
O mundo não vai morrer antes de nós
Deixaremos nosso legado.
Seremos uma banda de rock
Zurrapa, uma banda de rock

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Preso no Tempo

Basta saber separar para fazer
O que há de se querer fazer
Tempo que não passa
Segunda-feira que não termina
Trocaria qualquer riqueza
Pela sua companhia

Esse mundo é tão chato
E tão chato sou eu aqui
Esperando chegar
O momento de dormir
Só para depois acordar

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Quarto de Risin (Parte I)

Essa talvez seria a desvantagem de ser um investigador experiente. Nas outras profissões, os iniciantes sempre ficam com os problemas mais graves. Agora, eu, um investigador com 20 anos de carreira, estava diante daquele caso. Aquele infeliz senhor Risin me resolve causar problemas depois de morto. Maldito! Ao menos o pérfido não causaria mais problemas a ninguém.

Entrei no quarto; a perícia estava trabalhando. Risin estava estirado no chão. No corpo havia uma quantidade de morfina quatro vezes maior que um dependente aguentaria. O problema não era esse. O problema é que o homem havia levado um tiro no pescoço. A biopsia constatou que o disparo e a dosagem de morfina foram fatos acontecidos quase ao mesmo tempo, sendo impossível saber o que de fato ocorrera primeiro. Entretanto, a suspeita maior era a de que a morfina havia sido injetada antes do disparo. Era apenas suspeita, longe de ser comprovado.

Junto ao corpo havia uma seringa com vestígios de morfina e a arma do crime. Digitais de Risin por todos os lados. A pergunta é simples: suicídio ou assassinato? Em caso de assassinato, por que deixaria a arma no local do crime? A princípio não creio que o senhor Risin disparou contra si. Ele era viciado em morfina e se drogou naquela noite, mas será que realmente com aquela quantidade? Não teria sido alguém a drogá-lo uma segunda vez e depois o matou? O meu dever era descobrir quem havia feito aquilo.

Ninguém sabia ao certo a idade daquele homem. Talvez algo entre 25 e 30 anos. Não bastando a cena terrível no quarto, havia também horror nas folhas que encontrei em uma gaveta da mesa. Coloquei os papéis em ordem e me pus a ler o documento.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Signos

Para quem é de áries; pessoa de áries; pessoa desse signo. Não, ela não é de áries. Eu sou de áries, mas não acredito em horóscopo; nem tenho simpatia. Ela também não tem simpatia por signos. Ela não é de áries, embora tenha um signo representativo. Mas foi no signo de áries que encontrei um nome.

Segredo. Tudo isso é segredo. Tudo isso é oculto. Ninguém jamais saberá o que essas palavras querem dizer; apenas nós: você e eu, seres tão introspectivos. Jamais revelaremos os nossos segredos que existem assim como há segredos no céu e no mar. Principalmente no mar. O mar! Ah, o mar... O mar diz tudo, tudo.

O mar é o reino dos pontos. Pontos, aqui, entra como junção. Junção entre o seu reino e uma constelação. Lembra-se de quando lhe disse sobre tudo isso?

O mar me disse um nome. O nome do meu signo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Doce Tumba

Doce tumba na qual me apoio
Para ver o fim da tarde
Escutar se posso enxergar
Em um olhar a felicidade
Se posso enxergar
Nesse olhar a intensidade
Se posso enxergar
A intensidade de um sentimento
Sentimento concreto
Concreto como cimento
O meu é livre como o vento
Escrevo para ela
Necessito dela
Como espera
Pelo fogo
A vela

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Memórias do Quarto

"Um dia descansarei da maneira que mereço". Era isso que se podia ler na parede daquele cômodo de chão batido. O chão era velho e sujo como tudo daquele lugar. Além do chão, havia uma cama que já não mais proporcionava sono. Havia uma mesa com uma pilha de papéis escritos, outros em brancos; na verdade todos amarelados.

No cômodo viveu um homem. Um senhor que foi condenado à prisão perpétua; sendo que, talvez, o seu problema poderia ser apenas a sua insanidade.

Não se sabe ao certo o que aconteceu durante sua infância, mas o que se sabe é encontrado no seu diário. Na realidade, fragmentos de diário - que nem mesmo data tinha. Entretanto, sabe-se que é um diário. Se não for, pode ao menos ser considerado alguma espécie de registro.

Ninguém sabe o ano de nascimento desse senhor - apenas que em 1914 ele faleceu. Segundo os cientistas, ele teria entre 25 e 30 anos de idade.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Quadro

A porta está aberta. No quadro, na parede, está escrito alguma equações e soluções. Do outro lado há os problemas a resolver. Temos horários, mas não será cumprido; não ainda hoje. O mestre faz anotações e pede silêncio; o barulho atrapalha a concentração. Como? O barulho não é apalpável... A concentração também não. Será que o que não é apalpável influencia apenas aquilo que também não é apalpável? Não sei, continuemos a descrição.

Acima do verde, que antigamente era chamado de negro, há uma estaca pregada; com um homem pregado. Tudo isso no meio do branco.