quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Jaú (Parte II)

No nosso penúltimo dia de viagem, aconteceu algo que eu jamais gostaria que acontecesse. Cecília e eu estávamos passeando de barco. Ela, toda sorridente, brincava comigo, me agarrando. Ela então segurou com força os meus cabelos, quando eu, movido por instinto devido à dor causada, a empurrei, tentando me livrar. Ela caiu do barco. Caiu na água no momento em que o barco fazia uma manobra. O barco passou por cima de Cecília, as hélices despedaçaram-a. Tudo que vi foi sangue muito vermelho emergindo sobre a água.

O que ouvi em seguida foram os gritos de desespero da minha mãe, que assistiu toda a cena de longe. Ela gritou e dois vermelhos surgiram em seus olhos. Logo vieram as lágrimas, salgadas como o mar. Ela virou-se para mim e em meio a soluços, berrou comigo, me questionando o que havia feito com sua filha. Gritou acusando-me de ter matado sua filha. Foi a primeira vez que ouvi a palavra morte; a primeira vez que perdi.

Minha mãe nunca mais foi a mesma pessoa e, por mais que ela me pediu desculpas pelo que havia dito no calor da emoção, ela nunca mais me olhou com ternura. A infelicidade tomou conta de suas feições e sua beleza desapareceu.

Dois anos após a morte de Cecília, minha mãe suicidou no banheiro do seu quarto, com um tiro na cabeça. Deixou uma carta dizendo que iria buscar minha irmã.

Meu pai, após a morte de mamãe, disse que era o momento de superar os traumas. Ele me mandou para os Estados Unidos fazer intercâmbio. Morei lá por um ano, voltei e terminei o segundo grau. Meu pai me mandou outra vez para o estrangeiro, cursar o curso superior. Direito, obviamente. Lá conheci uma brasileira que também havia ido para estudar. Nos casamos.

O resto não vale a pena contar. É só uma história banal. Dessas iguais aos dos nossos vizinhos. Histórias de felicidade. Histórias sem graça.

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