domingo, 18 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo II (Parte I)


Antes de sair do cemitério, Baobhan parou diante de um túmulo que ele não conhecia. Um túmulo azul escuro, em mármore, com flores brancas penduradas. Havia também uma cruz e uma pequena casa como portas de vidros. Não seria isso a chamar atenção de Baobhan naquele lugar.

Ele prestava atenção nas duas corujas que estava pousada sobre a cruz. Uma no centro e outra no braço direito; havia uma terceira, na quina da casinha. As três mantinham o olhar para a esquerda. Baobhan, antes de ir para casa, sentou-se no túmulo da frente para observar as corujas.

As aves permaneciam olhando para a esquerda; olhavam com penetração. Todas em pé, paradas, estáticas, apoiadas em uma única pata. Baobhan colocou-se de pé e imitou a pose dos pássaros. Apoiado em um pé, braços juntos, similar às asas, com o olhar também direcionado para o lado esquerdo. O vento batia nos cabelos negros dele, que esvoaçavam contra seus olhos. Ele, de olhar fixo, mantinha a penetração do olhar ora no horizonte, ora no cabelo, fazendo desfigurar assim ora a imagem do cabelo, ora a do horizonte. “Brincando de pontos de vista, brincando de ser estrábico”, pensou. “Será que as corujas também fazem isso?” se perguntou.

Baobhan ouviu das corujas aqui que se julga ser a revelação. O olhar fixo ao horizonte constitui o princípio da negatividade, do não ser. Foi dito a ele que a razão, para que assim seja, é que o horizonte, ainda que sem dono e enigmático, é influenciado pelo dia e pela noite. Criaturas essas que, na verdade, são mãe e filho. São donos dos horrores do bem e do mal. “O horizonte, desde os primórdios, foi detentor do bem e do mal”, começou a discursar a coruja, “O bem era um paraíso de delícias criado para o homem que estava ali formado. O bem era construído de árvores formosas à vista, e de doces frutas para se comer. No centro do bem do horizonte descia um rio de quatro pernas onde os homens poderiam ver todo o horizonte. Esse, entretanto, é completo, ou ao menos coerente, e mesmo que o ser mais perfeito quisesse impedir, não conseguiria, pois o horizonte é completo e revela ao homem tudo como exatamente é: infinito. E assim, perto da divisão do rio, havia a grande árvore que chamamos de ‘conhecimento’, e o mal foi libertado ali”. 

Nenhum comentário: