quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo I (Parte I)


Baobhan gostava de gatos quando criança, pois os gatos sentiam quando estranhos se aproximavam, e seus pelos, com isso, já demonstravam astúcia. Baobhan olhava os olhos dos gatos e lembrava que apenas um rei pode fitar um gato de frente. “Todos os gatos podem ver futuros e ecos do passado, podem assistir à passagem de criaturas da infinidade do agora, de todos os mundos fracionalmente diferentes dos deles. Os gatos”, continuou ele pensando, “os gatos seguem coisas espectrais com os olhos, e os homens não conseguem enxergar nada”.

Baobhan olhava os olhos do gato e sabia que naqueles olhos poderia encontrar a resposta aos mistérios, que de alguma forma, perturbava os homens. Ele sabia que, por assim sendo, jamais teve coragem de ferir ou tirar a vida de algum gato. Baobhan desviou o olhar do gato, e olhou rapidamente para o céu. Olhou a luz do sol e viu que era boa; pisou no chão com força e viu que a terra era mesmo firme; olhou as gramas brotando da terra. Baobhan ainda permaneceu meio a pensamentos vagos.

Ele gostava daquele lugar; o cemitério era um lugar calmo, que ventava muito, onde ele conseguia refletir sobre todas as ideias que navegavam dentro do seu mundo cheio de portas fechadas; que ele sabia estar fechadas, mas que sabia também, ou ao menos pretendia, poder abrir. Baobhan sabia que isso o levaria ao caminho do infinito.

Percebeu o som do vento se fundindo com o som das árvores balançando e com os sons dos pássaros cantando. “A natureza conversa; ela faz música”, pensou. Pensava também nos ruídos que a língua fazia quando contorcia, o que as pessoas diziam ser comunicação pela língua. “A língua não fala, urge. As bestas não urgem, elas conversam”, disse em voz silenciosa.

Olhou os desenhos formados no céu pelas nuvens. “São móveis como a sociedade. Os desenhos nas nuvens se desfiguram o tempo todo, como as pessoas e a sociedade. Mas as nuvens não perdem a beleza”, e riu nos pensamentos diante o argumento. “E as pessoas não perdem a feiura; nem tudo é completamente móvel!” Retrucou o argumento, agora expondo os dentes diante o sorriso. Olhou outra vez o céu e viu uma sereia com rabo de baleia. 

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