sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo I (Parte II)

Ainda sentado no túmulo, Baobhan pensou que poderia ter sido uma árvore, ou talvez uma chuva. Mas não, ele tinha nascido como pessoa, destinada a nascer e morrer, sem saber o que fazer nesse intervalo de tempo.

Pensou em um homem, com um capuz tapando parte do seu rosto, e um livro preso através de uma corrente nos seus braços. Pensou no que poderia ter escrito ali. Um homem misterioso, que nada dizia a Baobhan, além de sobre portas e corredores, Baobhan andou pelos corredores, e tentava abrir as porta que estavam trancadas. Viu muros e ouviu vozes gritando: “Atravesse seus próprios muros. Escale suas pedras”.  Ele seguiu caminhando e viu uma garota trajada de preto; ela sorria, estava ao lado de uma porta meio aberta. Baobhan colocou a mão na porta e a garota pegou no seu braço e disse: “Espero que você não esteja aqui para descobrir o bem e o mal, abrir os olhos e perceber que você está nu. Espero que você não seja expulso do seu mundo agora. Eu não sou como a víbora e não quero trair você agora. Quero ser sua amiga e fazer um acordo com você mais tarde. Não entre por essa porta, pois não quero que você volte para o lugar do qual veio”.  Baobhan olhava a pequena garota de cabelos e trajes negros, e antes de responder, ou mesmo pensar algo, a garota finalizou a conversa dizendo: “O levarei até o meu irmão mais novo”.

Baobhan, adormecido no túmulo, sonhou com castelos e com uma grande escadaria de nuvens e viu um homem ao longe que lhe acenou. Baobhan abriu os olhos, estava deitado. Le,brou de quando estava sentado e de quando se tronou refém da imaginação, pensando em um homem com um livro acorrentado às mãos.

Sentado no túmulo, pensou ele que havia tomado muita mescalina e que perdera a consciência durante o transe. Levantou-se e sentiu vontade de se sentar novamente. Cambaleando, ele seguiu andando, até se sentir melhor, em condições de continuar, até chegar em casa. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Receita do Nosso Amor

Uma flor eu tiro do meu jardim para lhe entregar, junto com uma fruta do meu pomar, colorida por uma cor do arco-íris.

A faço um chá quente com alguns simples ingredientes: uma colher de alegria, uma outra de esperança, mais duas de amor. Passo no coador para filtrar todo o sentimento mal e as dúvidas que cansam não só o seu coração, mas o meu e de todas as pessoas também. A ofereço uma cadeira de balanço, e uma tarde de chuva fina para você tomar do meu chá e comer a fruta do meu pomar. Por fim, entrego-lhe minha caneta para você escrever letra por letra do seu nome no meu coração. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Amor Infantil

Tenho algo importante para lhe dizer há tempo
Espero conseguir manifestar algo daqui de dentro
Você, seus olhos são transparentes como o vento
Me olham de uma forma que fico parado, atento
Observando-os, pensando se já posso dizer que eu a tenho.

sábado, 24 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo II (Parte II)


Essa história antiga você já conhece, mas não se engane em pensa que foi um erro humano. Isso foi uma necessidade, e posso lhe dizer mais: essa necessidade foi um detalhe que o verdadeiro autor pensou, mas hesitou e não quis escrever, e a ideia sempre morou na sua cabeça.

Ouça-me Baobhan, o horizonte é assim, completo e infinito, e responde a uma necessidade de eternas cadeias de marionetes. O seu olhar fixo no cabelo é o princípio afirmativo do ser. É a configuração do cosmo, a introspecção, a grande arma do homem. O homem, mesmo tolo diante a responsabilidade que tem, é poderoso; pois os deuses servem os homens.

Não se esqueça Baobhan; o verdadeiro autor escreveu uma história. Ele criou o cenário e os personagens. Essa história é o que nós chamamos de vida, mundo, universo. Deus é um narrador, personagem da história. É tão participante do livro como nós. O autor verdadeiro, porém, não é um ser supremo, pois a caneta que está em suas mãos não é controlada por ele. Existem personagens que influencia em tudo. O autor tem o mérito de iniciar a obra, mas não se pode falar em criação ou criador, pois esse não terminou a história. Baobhan, ouça o que há dentro de você. Há eloquência dentro de você”.

A coruja, dado por encerrada a sua fala, decolou no espaço, seguida pelas outras duas. As três se foram, e Baobhan se manteve ali parado por vários minutos, pensando em tudo que ouvira naquela sua alucinação. Se perguntava até onde o episódio havia sido uma alucinação. Tudo que a coruja havia lhe dito, exceto por ter sido uma coruja, fazia sentido. Absolutamente tudo! E por que também o fato de ser uma coruja a dizer? Afinal, é o animal que simboliza a sabedoria.

Baobhan entendeu tudo que foi lhe dito aquele dia, fosse pelos homens ou pela coruja. E tudo fazia sentindo para seus pensamentos. Ele era um homem e seu poder era o seu mundo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Correnteza

Agora que você se foi
Nós somos deixados a continuar
Pelas noites que parecem duas vezes mais longas
E aqui, dentro do meu coração
Eu não me sinto muito forte
Mas nos encontraremos novamente

No vento eu ouço sua música
Como cada hora que passa

domingo, 18 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo II (Parte I)


Antes de sair do cemitério, Baobhan parou diante de um túmulo que ele não conhecia. Um túmulo azul escuro, em mármore, com flores brancas penduradas. Havia também uma cruz e uma pequena casa como portas de vidros. Não seria isso a chamar atenção de Baobhan naquele lugar.

Ele prestava atenção nas duas corujas que estava pousada sobre a cruz. Uma no centro e outra no braço direito; havia uma terceira, na quina da casinha. As três mantinham o olhar para a esquerda. Baobhan, antes de ir para casa, sentou-se no túmulo da frente para observar as corujas.

As aves permaneciam olhando para a esquerda; olhavam com penetração. Todas em pé, paradas, estáticas, apoiadas em uma única pata. Baobhan colocou-se de pé e imitou a pose dos pássaros. Apoiado em um pé, braços juntos, similar às asas, com o olhar também direcionado para o lado esquerdo. O vento batia nos cabelos negros dele, que esvoaçavam contra seus olhos. Ele, de olhar fixo, mantinha a penetração do olhar ora no horizonte, ora no cabelo, fazendo desfigurar assim ora a imagem do cabelo, ora a do horizonte. “Brincando de pontos de vista, brincando de ser estrábico”, pensou. “Será que as corujas também fazem isso?” se perguntou.

Baobhan ouviu das corujas aqui que se julga ser a revelação. O olhar fixo ao horizonte constitui o princípio da negatividade, do não ser. Foi dito a ele que a razão, para que assim seja, é que o horizonte, ainda que sem dono e enigmático, é influenciado pelo dia e pela noite. Criaturas essas que, na verdade, são mãe e filho. São donos dos horrores do bem e do mal. “O horizonte, desde os primórdios, foi detentor do bem e do mal”, começou a discursar a coruja, “O bem era um paraíso de delícias criado para o homem que estava ali formado. O bem era construído de árvores formosas à vista, e de doces frutas para se comer. No centro do bem do horizonte descia um rio de quatro pernas onde os homens poderiam ver todo o horizonte. Esse, entretanto, é completo, ou ao menos coerente, e mesmo que o ser mais perfeito quisesse impedir, não conseguiria, pois o horizonte é completo e revela ao homem tudo como exatamente é: infinito. E assim, perto da divisão do rio, havia a grande árvore que chamamos de ‘conhecimento’, e o mal foi libertado ali”. 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Esconderijos

As pessoas se escondem nas sombras do dia a dia
Nesses olhos lacrimejantes escondem uma mentira
Na rua mil faces o seduz
Atrás das faces uma caveira lubrificada pela pus

Na criação há uma vara disfarçada de moral
Na infância um domador adestra a criança
A sordidez desprezível despreza a feiura
Decência significa seguir um manual
Como se não fosse a feiura
Como se fosse a beleza

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Minha Vez


Eu não posso mudar esse rosto esmurrado pelas tardes lacrimejantes
Então é agora: finque este punhal no meu peito
Retire-o quando não houver mais receios

Há outros homens no chão
Mas agora foi a minha vez
Onde estão suas mãos?
Arraste pela teia que você fez!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo I (Parte I)


Baobhan gostava de gatos quando criança, pois os gatos sentiam quando estranhos se aproximavam, e seus pelos, com isso, já demonstravam astúcia. Baobhan olhava os olhos dos gatos e lembrava que apenas um rei pode fitar um gato de frente. “Todos os gatos podem ver futuros e ecos do passado, podem assistir à passagem de criaturas da infinidade do agora, de todos os mundos fracionalmente diferentes dos deles. Os gatos”, continuou ele pensando, “os gatos seguem coisas espectrais com os olhos, e os homens não conseguem enxergar nada”.

Baobhan olhava os olhos do gato e sabia que naqueles olhos poderia encontrar a resposta aos mistérios, que de alguma forma, perturbava os homens. Ele sabia que, por assim sendo, jamais teve coragem de ferir ou tirar a vida de algum gato. Baobhan desviou o olhar do gato, e olhou rapidamente para o céu. Olhou a luz do sol e viu que era boa; pisou no chão com força e viu que a terra era mesmo firme; olhou as gramas brotando da terra. Baobhan ainda permaneceu meio a pensamentos vagos.

Ele gostava daquele lugar; o cemitério era um lugar calmo, que ventava muito, onde ele conseguia refletir sobre todas as ideias que navegavam dentro do seu mundo cheio de portas fechadas; que ele sabia estar fechadas, mas que sabia também, ou ao menos pretendia, poder abrir. Baobhan sabia que isso o levaria ao caminho do infinito.

Percebeu o som do vento se fundindo com o som das árvores balançando e com os sons dos pássaros cantando. “A natureza conversa; ela faz música”, pensou. Pensava também nos ruídos que a língua fazia quando contorcia, o que as pessoas diziam ser comunicação pela língua. “A língua não fala, urge. As bestas não urgem, elas conversam”, disse em voz silenciosa.

Olhou os desenhos formados no céu pelas nuvens. “São móveis como a sociedade. Os desenhos nas nuvens se desfiguram o tempo todo, como as pessoas e a sociedade. Mas as nuvens não perdem a beleza”, e riu nos pensamentos diante o argumento. “E as pessoas não perdem a feiura; nem tudo é completamente móvel!” Retrucou o argumento, agora expondo os dentes diante o sorriso. Olhou outra vez o céu e viu uma sereia com rabo de baleia. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Dores Intensas


Não sentiria dores tão intensas
Em dias diferentes de domingo
De preguiçosas tardes imensas
Que sempre sinto minha cabeça caindo

Enquanto que ela os beija, orgulhosa
Eu, morto, ou quase lá
Não sei...
Só sei rabiscar
Lamentos, fraquezas. Falsa tristeza
Incapaz de ser
Esperando acontecer
Sem coragem de querer.

sábado, 3 de setembro de 2011

Assassino


No meio dessa madrugada solitária
Eu ouço tiros invadindo a escuridão
Os estilhaços cobrem toda a área
A vítima voa para o chão
                                               
Eu apenas vejo o assassino
Limpando o revólver no casaco

O assassino veste as luvas
Amarra o coturno, põe o chapéu.
Eu apenas olho a lua
E conto as estrelas do céu

O assassino senta no banco
Ei você, vire a cabeça e veja:
O assassino é branco
Nós dois estamos na igreja

O assassino está nas avenidas
A pé, ele nota o olhar.
Estou logo atrás da menina
Observo sua cintura rebolar

O assassino entra no carro
Liga o rádio, segura o volante.
Olho atento para os lados
Só preciso de um instante.