terça-feira, 30 de agosto de 2011

Conversas Paralelas


Tempos em tempos. Conversas paralelas, adquiridas pelo ócio do desinteresse. É normal, é autêntico, é da juventude. Planos desolados, ofuscados pela cegueira que o meio causa. O frescor da hereditariedade ainda é sóbrio, decorado pelo sorriso róseo infantil. Como é doce o vinho que nos alimenta. O vigor capaz de esmurrar muros até os tijolos cederem à força. Não há monstros que pode nos deter. Não há realidade disposta a combater os nossos desejos. O mundo é nosso.

Tudo em conversar paralelas, em voz miúda, enquanto o professor esmiúça, com cansaço, conhecimentos desnecessários. Sais minerais, ligações bioquímicas, forças, sintaxes, greves, etc, etc. Não importa, tudo é rotativo. Existe e funciona sem a nossa visão. Toda ciência existe para modificar o que já é naturalmente feito. Desconstrução endiabrada.

E lá na frente, sentados em postura ereta, armados de óculos, papel e caneta, estão os que acreditam biblicamente em tudo que um diplomado fala. Para nós que estamos aqui no fundo, “senta na frente quem tem dificuldades”. Motivo para risos, nada mais. Nós somos engenheiros da vontade, semeadores da suficiência.

É bem verdade que, de tempos em tempos, descobriremos quão tolos fomos e quão ainda somos. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Hei Dáblio


Hei Dáblio, você matou minha mulher.
E sabe por quê? Por que ela não ficou com você
Hei Dáblio, agora você diz ter fé.
Que você não era de Deus quando matou
E que agora que Jesus o tocou
Você se arrepende e fará a obra de Deus.
Mas Dáblio, eu não sou um dos seus.
E você matou minha mulher

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Pesado


Eu queria tirar minha cabeça do corpo
E observá-la latejando por algum tempo
Até ela voltar a ser um órgão de novo
Até toda fumaça sair e ser carregada pelo vento.

Minha cabeça, tão pesada, que quando ando na rua,
Não consigo parar de olhar para baixo
Minhas mãos estão tão sujas
Para essas ideias que não consigo nenhum despacho

Meus pés estão escondidos por que estão gelados
Minha querida os acham maravilhosos
Mas eu a quero quieta, enquanto eu, calado
Encosto nos seus ombros e choro
Até minha cabeça ficar leve.
Ela está tão pesada e eu tão fraco.

domingo, 21 de agosto de 2011

Universo


E aquele homem dizia e continuava a dizer. Um monte de bobagens, pois eu não entendia nada.

O submundo do meu mundo é a minha existência. Meus pais se fundiram e eu sou a fusão, única, singular e solitária. O meu mundo particular é a minha essência. Minha essência é a minha origem.

E assim poderia eu saber onde estou. Todo homem e toda mulher é uma estrela. Somos estrelas que irradiam luz própria para o universo. Somos planetas que expressam conhecimento para o universo. Sei onde estou: estou numa constelação; estou no universo. Estou cercado de luz, ideias, vozes, seres e planetas. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Monte Roraima

Sétimo minuto da noite
Estamos onde precisamos estar
Minutos de violência
Falta muito para parar

O topo forma o altar
Guarda sua lâmina
Estamos longe do lugar
Longe do Monte Roraima

Minutos de violência
Perdendo a inocência

Aqui e ali, camaleões
A anos de nós
A sós, contemplamos
Merecemos minutos de paz

Minutos de violência
Perdendo a inocência
Guarda sua lâmina
Longe, ao longo
Do Monte, Roraima.

O topo formar o altar

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Solidão


Vivo, ajo, reajo com os outros. Mas sobre qualquer circunstância, existo sozinho. Os ícones, mártires, atravessaram os campos de batalhas acompanhados; mas quando foram mutilados, estavam sozinhos. Sensações são experimentadas sozinho.

Quando abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases; isolados em uma única autotranscedência, a fim de formar uma única alma, um único ponto de brilho. Por natureza própria, cada espírito, preso em seu corpo, está condenado a sofrer e gozar em solidão.

Sensações, sentimentos, crenças e fantasias são todos elementos privados. E, a não ser através da arte, feita de símbolos, não podem ser transmitidas diretamente; apenas de forma indireta.

Acumulo informações sobre experiências, mas nunca sobre minhas próprias experiências. Da família à nação, cada homem é uma sociedade de universo solitário. Muito desses universos são, uns aos outros, suficientemente semelhantes para permitir, entre eles, uma compreensão por raciocínio, ou por uma compartilhada projeção de percepção. Assim, recordando-me das minhas próprias dores e humilhações, sou capaz de me colocar no lugar de outra pessoa. 

sábado, 13 de agosto de 2011

Vela


Pegue o caminho mais longo
Acenda uma vela
Não se esqueça do tombo
Não se esqueça dela

Duas noites atrás, um pensamento.
Você estava apenas com saudades
E não se pode ser detento
Da própria idade

Acenda uma vela uma última vez
E tudo ficará bem nesse instante
Não se pode pensar no próximo mês
Quando se é um bom amante

Você não se lembra mais de ser livre
Viciados nas grades dessa cela
Deixe-me agir, não hesite.
Apenas acenda uma vela.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Trilhas Escuras


Preciso de um pouco de sanidade para encarar as loucuras do mundo. Eu adoraria mudar o mundo, mas sou incapaz; pois larguei toda a loucura na juventude. Crescer me deixa ignorante; não entendo por que larguei todas as minhas ideias para seguir manuais. Hoje eu tenho o meu padrão, sigo o padrão e sou padrão. Só não sou patrão.

Tudo bem, isso não me interessa. O que me interessa é o que eu tenho comigo. O que carrego. Evolução não é revolução. Há tantas milhas de estradas perdidas dentro de mim e quando percebo todos esses caminhos que não experimentei, sinto que todos esses anos foram inúteis. Um último desejo seria voltar e furar os meus olhos, seguir as trilhas escuras. A luz está do outro lado do negro do céu. No fim da linha, na última gota do poço. Não nos manuais.

domingo, 7 de agosto de 2011

Vivo Morto


Antes de você entrar em casa, desfaça sua face. Ela lhe entrega. E tudo que você irá ouvir são perguntas que confirmarão seus pesadelos. Respire, sorria.  

Antes de atender ao telefone, diga algumas palavras em voz alta. Mude sua voz alta; ela lhe entrega. E tudo que você irá ouvir são perguntas que, quando você pensar nas respostas sinceras, seus pesadelos serão confirmados. Respire e fale sorrindo. Nunca se esqueça de falar mostrando seus dentes nojentos.

Calma, cedo para lágrimas.

Ouvindo a canção, você se lembra de que ainda tem memória. Você não está totalmente morto. Agora, olhe um pouco para frente. Você não vê nada. Um enigma? Você tem ideia do que seria misterioso para a sua imaginação? Eu acreditava que nada seria desconhecido. Mas agora você acredita em tantas coisas novas. Agora você desacredita tanto de tantas coisas.

Um milhão de pessoas o olha nas ruas todos os dias. E sabe um segredo? Aquelas que não acham que você as assaltará, se quer olham a sua cara. Sua cara não passa de um processo bioquímico para um milhão de pessoas que o olha todos os dias. Me diga o que você pensa a respeito.

Mas você não está tão morto assim, afinal, você ainda consegue lembrar que tem uma memória. Paradoxalmente, deteriorada. Nunca se esqueça de quão feio você é. Conto-lhe outro segredo; sobre isto, digo que você é otimista. Não fique magoado, você nunca será escritor. Não é esse o seu sonho? Pois o esqueça. Você tem mais algum sonho? Os esqueça. Todos.

Apenas ouça essa melodia linda, e pense que você nunca irá compor uma melodia. Esqueça o paraíso. Você é fraco até com ódio. Ponha-se no seu lugar. Você é o único ouvinte de suas tristezas. Não espere ninguém abrir a porta e o confortar, pois não há ninguém no mundo que faria isso por você. Nenhuma das um milhão de pessoas que você vê todos os dias o ajudaria. Sinta-se sozinho, com um milhão de pessoas lá fora.

Chore sozinho, para você, no seu canto bem pequeno. Chore; pare com os soluços e volte a escrever palavras que ninguém nunca lerá. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Assassinato

Ao banheiro, que horas eram? Não importa
A mulher se olha no espelho, de costas
O homem surgiu atrás, entrou pela porta
Apunhalou a mulher, que sangrou pela boca
E caiu no chão, morta

O homem saiu, ninguém o viu, ninguém o conheceu
Faca pintada de vermelho na mão, sorriso no rosto
Só não lhe digo que o assassino era eu
Por que não lhe conheço
Então pode ser perigoso.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Introdução ao Livro Inexistente


A minha história terá dois personagens centrais. Ainda não defini os nomes, mas o primeiro é um cara que se droga e tem alucinações reais. Seres discursam para ele e, ouvindo esses discursos, ele compreende cada vez mais o Universo. Graças a essa compreensão, essa descoberta, que ele se defronta com o pecado:  ter seu próprio Universo, com habitantes. Assim ele se torna um caçador. Busca sempre as mais belas almas para habitar o seu mundo.

É um homem totalmente louco. Envolvente e misterioso. Possui conflitos e problemas. Conciliará o mundo dos homens e o seu mundo particular no intuito de fortalecer o seu.

O segundo personagem central é um homem que, na adolescência, era escritor; fracassado, é verdade.  Largou a carreira para seguir outra: a de advogado. Apaixonou-se por uma bailarina que pintava nas horas vagas. Os dois se casaram e viveram os seus melhores momentos; até ela morrer assassinada. É o seu segundo fracasso. Sua segunda paixão que o golpeia e o abandona; embora seus amores sempre forem ausentes de culpa. O cara está desnorteado, pensa em morte. Vingança ou suicídio; vingança e suicídio.

É claro que as histórias dos dois se relacionam. Eu não quero vilão e mocinho; quero dois homens com os seus motivos. Cada um com seus medos e suas vontades. O escritor e o louco. A busca e a ação.

Acho que tive uma boa ideia; vou conseguir abrir espaço para colocar as ideias dos Mestres que admiro; e manterei a partir disto. Nunca tive uma ideia tão sólida para uma história.