segunda-feira, 25 de julho de 2011

Eumicela - II Carta

- Olá Eumicela, boa noite. Está acordado?
- Dormia de olhos arregalados, incrédulo com esses seus pensamentos.
- Nossos.
- Sim, nossos.
- Há muitos lunáticos que fazem pouco caso de nós. Desaprendidos a sonhar. Canibais.
- Como aquele anjo mudo que Merv matou?
- Aquele era arisco, Eumicela.
- E esses são ninguém. São nada.
- Exato.
- Amigo, não quero falar sobre isso, mas... Você me trouxe alguma notícia?
- Algumas; que não ouso expressar por meios desconfiáveis. Você sabe, mesmo que necessárias, letras são perigosas. Enviarei tudo que sei por meios confidenciais.
- Certo, claro. Você está certo. Mas, trocando o assunto, como é bom, depois de tanto tempo, sentir novamente o frio fundindo-se com a escuridão em nosso mundo.
- É, confesso que havia me desabituado com o ranger do frio que vibra nos ossos. Você viu como fiquei aquele sábado?
- Também confesso que senti medo naquele sábado. Seus olhos estudaram a altura como se fosse um animalzinho indefeso necessitando de nós.
- Àquela altura, o vento insinuou ao tocar o meu rosto. Me beijou e me convidou para o voo. Naquele momento me senti monarca. Temos um mundo, em destroços, se transformando, mas temos um mundo.
- Um mundo. Eu adoro quando não vejo almas rondando nossos bosques. Plantamos ideias nos bosques. Odeio impostores que aparecem com fertilizantes baratos, viciados em venenos, matando nossas flores exóticas e unas, em troca de favores e promiscuidade.
- Mas lhe digo: esse mundo nunca foi tão nosso como é hoje.
- É, meu amigo. Foi um plano genial.
- Um grande plano.
- Sugiro que dormimos agora. Estou cansado.
- Certo. Boa noite, Eumicela.
- Boa noite.

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