sábado, 30 de julho de 2011

Violações e Flutuações


Tente viver com seus próprios recursos. Suas lágrimas são as únicas fontes de água para regar o seu Jardim. E bem, esta vida é uma sinfonia; então deixe os violinos violarem e as flautas flutuarem sobre a Alma.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Paraíso aos seus Braços

Quando o sol se esconde atrás das pedras
Os meus sonhos vagos começam a fluir
Quando os raios estrelares cortam o céu como flechas
Eu sinto que está na minha hora de ir

Quando escondo o meu rosto nos seus seios
Quando eu sinto o seu sabor divino
Sei que sei onde passeio
Pois conheço as uvas do meu vinho

Me tornei príncipe ao ser tocado por uma princesa
Me tornei deus ao ser tocado por uma deusa

Furacões devastam a minha cabeça todos os dias
Sou alérgico à poeira do agonia
Tudo muda quando estou de frente da minha rainha

Eu nunca serei mais um
Eu nunca serei comum
A achei no final do deserto amarelo
Deixei com a poeira amarela todo o resto

Dê-me suas mãos quando eu estiver cansado
Quando eu lhe servir, não cruze os braços
Anjos do céu: abram caminhos
Subirei ao paraíso
Mas não irei sozinho

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Eumicela - II Carta

- Olá Eumicela, boa noite. Está acordado?
- Dormia de olhos arregalados, incrédulo com esses seus pensamentos.
- Nossos.
- Sim, nossos.
- Há muitos lunáticos que fazem pouco caso de nós. Desaprendidos a sonhar. Canibais.
- Como aquele anjo mudo que Merv matou?
- Aquele era arisco, Eumicela.
- E esses são ninguém. São nada.
- Exato.
- Amigo, não quero falar sobre isso, mas... Você me trouxe alguma notícia?
- Algumas; que não ouso expressar por meios desconfiáveis. Você sabe, mesmo que necessárias, letras são perigosas. Enviarei tudo que sei por meios confidenciais.
- Certo, claro. Você está certo. Mas, trocando o assunto, como é bom, depois de tanto tempo, sentir novamente o frio fundindo-se com a escuridão em nosso mundo.
- É, confesso que havia me desabituado com o ranger do frio que vibra nos ossos. Você viu como fiquei aquele sábado?
- Também confesso que senti medo naquele sábado. Seus olhos estudaram a altura como se fosse um animalzinho indefeso necessitando de nós.
- Àquela altura, o vento insinuou ao tocar o meu rosto. Me beijou e me convidou para o voo. Naquele momento me senti monarca. Temos um mundo, em destroços, se transformando, mas temos um mundo.
- Um mundo. Eu adoro quando não vejo almas rondando nossos bosques. Plantamos ideias nos bosques. Odeio impostores que aparecem com fertilizantes baratos, viciados em venenos, matando nossas flores exóticas e unas, em troca de favores e promiscuidade.
- Mas lhe digo: esse mundo nunca foi tão nosso como é hoje.
- É, meu amigo. Foi um plano genial.
- Um grande plano.
- Sugiro que dormimos agora. Estou cansado.
- Certo. Boa noite, Eumicela.
- Boa noite.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Impotência

O pior é não ter uma muleta para culpar.
Uma doença destrutiva, às vezes, alivia.
"Aparentar" é o que o fraco tem para se escorar.
Ter motivos facilita uma vida.
Mediocridade, sem razão, é um castigo
E é Deus que envia um presente tão doloroso.
O mínimo de sensatez capacitada
Para enxergar os quilômetros de ignorância
E a ausência inteira de exuberância
É um golpe terrível que deixa a vida aleijada.

Infeliz é aquele que possui uma impotência potente.
Quando se é assim, a pior das infelicidades
É acreditar no final feliz.
É achar que existe, no fim, um chafariz
E que lá há a ponte da liberdade
E a água milagrosa que brota da nascente.

Lhe deram a beleza aos vinte anos
E você a destruiu com os cigarros.
Poeta foi aquele que criou o meio de destruir

terça-feira, 19 de julho de 2011

Cambaleio

Eu me sinto bem quando copio
O olhos enxotados de orvalho

Fugi. Oh bruxas, oh miséria que tece a fio
Oh ódio, duro como carvalho
A vós meu tesouro fora entregue

Torturadores! Me afoguem em sangue
E em areia, para eu sonhar.
Me estendi sobre o mangue
E Deus me desgraçou.
Fui livre ao roubar.
Não fui idiota nas primaveras
Mas fui em todas as outras estações
Já que balbuciei quimeras
E fiz dos amores os ladrões.

Pus uma arma na minha cara
Tive medo de Deus, basta!
Tive medo de Satã, besta!

O manco que se arrasta
Com os braços cravados de ferro
Para dentro do Inferno
Ouriçado às bebidas e aos tragos
Sob o rascunho do pobre diabo.
Traço o bloco do condenado.

Dor, luxo, mentira, preguiça
Adoro-lhe, Preguiça!
Você me mata uma vez por dia.

Para você, honesto trabalhador
Digno operário, nobre leito
Razões para qual eu gargalho
Vale mais a mão à pena
Do que a mão ao arado.

Eu já nasci bastardo
Sou de alguma classe inferior
Essas de nome A, B ou C
Somos animais como o lobo
Que mata para comer.
Mas vivo do meu corpo
E gosto de matar por diversão.

Um dia vou à Europa
Irei até a França
Depois irei à Terra Santa.
Nas minhas perdições remotas
Vou conhecer Bizâncio
As muralhas de Salomão
Cultuar Maria
Crucificar mil magias
Todas de profanação.

Um dia sentei ao redor do fogo
E havia um rapaz, amigo meu
Me acompanhando.
Ele, desde menino, era cego de um olho
E do outro era alucinado.
Em volta da clareira rubra
Ele dançava com doze velhas
Todas elas nuas e surdas
Ele enxergava meninas crianças.


sábado, 16 de julho de 2011

Provérbio

Quando, por motivos desconhecidos, um Poeta se apresenta à esse mundo maldito; sua mãe grita para o céu, de braços erguidos: 

"Se Deus criou o mundo, onde estava Ele antes da criação? Como pode Deus fazer o mundo sem matéria prima? Se Ele é sempre perfeito e completo, como pode nascer Nele a vontade de criar?"


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Receita

Cara fechada para tudo. Sem ambição. Mar de ignorância. O que não sabe negociar suas vontades. Aquele que não tem baba de calango. Pois a realidade é essa: para poder morrer sozinho, em silêncio, é preciso ter baba de calango. Para deixar de fazer algo indesejado e inútil, é preciso negociar.

Ouça aquele desgraçado do seu pai. Não viaje. Esqueça o teatro, esqueça o espetáculo. Não faça cara feia, sorri. Faça esportes, estude leis. Sim! Estude e cumpra os regulamentos que lhe faz esmurrar paredes. Corte o cabelo, use o sapato, siga o exemplo do homens modernos que cozinha e lava roupas. Beije a mãe que desconfia de você. Defenda o irmão que torce pelo seu erro. Obedeça seu pai; faça tudo que ele lhe dizer. Siga todos os seus conselhos.

E por fim, ame sua vida.

domingo, 10 de julho de 2011

Passeios Infantis


Os motores dos carros são sons de teclado
O trânsito no centro é uma sinfonia
A ferragem dos prédios é da cor do mesclado
E a selva afastada é serena como mescalina

O lenhador se levanta com o machado nas mãos
E se lança contra mim, em um golpe mortal.
O golpe certeiro me atinge na cintura, em vão.
Pois eu ressuscito e me lanço do prédio como avião.

Augusto, o estranho, se deita no tapete.
Grita eufórico, pedindo por ajuda.
Enquanto desce suor pelo topete.
São essas brincadeiras alucinógenas da nossa rua

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sertão

Galgava o topo da favela. Volvia em volta o olhar, para abranger de um lance o conjunto da terra. E nada mais divisava recordando-lhe os cenários contemplados. Tinha na frente a antítese do que vira. Ali estavam os mesmos acidentes e o mesmo chão, embaixo, fundamente revolto, sob o indumento áspero dos pedregais e caatingas estonadas... Mas a reunião de tantos traços incorretos e duros, arregoados, divagantes de algares, sulcos de despenhadeiros, socavas de bocainas, criava-lhe perspectiva inteiramente nova. E quase compreendia que os matutos crendeiros, de imaginativa ingênua, acreditassem que ali era o céu.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Tendência de Autodestruição

A garota enfeitiçada na própria ambrósia
Sou sua tendência de autodestruição
A garota na esquina que me preza
Um segundo de prosa
Por favor, sou uma demolição!

Tendo ao lado que correr o vento
Sou a espingarda
Venha cá, moça!
Não se mate, chame o guarda
Dê a mim um pouco de chá
Não seja durona, nem má

Sou sua tendência de autodestruição
Você brincou de esquiar
Nas minhas plantas amarelas
Tenho aids, sua hepática!
Tome minha bílis, o meu ar
O quadro, a aquarela
Pinte a minha infecção
Com suas mãos, minha aberração!
Sou sua tendência de autodestruição

sábado, 2 de julho de 2011

Eumicela e sua Banda


Eumicela ouviu de alguém que, para a sua banda de rock and roll fazer sucesso, era preciso fazer músicas de amor. Porém não deveria ser melosa demais. A banda se tornaria, assim, modinha demais. Eumicela escreveu “Tendência de Autodestruição”, uma letra péssima. Ele gostava apenas do primeiro verso.

Ele já tinha sua primeira letra. Faltavam os músicos; ele não conhecia ninguém. Também não tocava nada. Nos pensamentos, tocava guitarra.

Lembrou-se de seus amigos, lembrou-se de todos eles. Todos mortos por ele.

Um dia Eumicela estava na Praça da Alegria. Ele segurava uma flor de Margarida. Não entendia porcaria nenhuma sobre flores. Quando segurava alguma, a flor se desmanchava.

Havia, em um banco próximo, um garoto tocando violão. Tentava, ao menos. Ele cantava sobre fazer coisas desconhecidas, cabelos de fogo e corpo coberto.