sábado, 4 de junho de 2011

Mamãe

Mamãe era bastante afável comigo enquanto era viva:

- Vá se foder, moleque - dizia sempre mostrando os dentes. O sorriso era tão lindo quanto a ameaça do bote de uma cascavel.

Quando ela não me excitava com suas palavras poéticas, com a inocência de um querubim caído, me ignorava e agia de acordo o seu masoquismo abitolado ordenava: gostava de fazer com que eu bebesse criolina; acredito que por isso meus olhos sejam, hoje, tão amarelados. Mamãe adorava também amarrar a ponta da corda no escapamento da moto e a outra ponta nas minhas canelas. Assim ela montava a motocicleta como uma rainha monta um Pegasus branco, ou como uma meretriz monta o membro de um crioulo ébrio. Então, ela passeava com a motocicleta pelo Jardim do Éden do nosso quintal. Acho que por isso não cresceram pêlos no meu corpo. O couro do meu corpo é tão mole e tão espessos como a densidade das nuvens.

Todas as vezes que olho as nuvens, lembro-me da estrela matutina que habitava um castelo de algodão sobre alguma nuvem grande e que, chicoteado pelo verdadeiro dragão, desmanchou. E a fala - adjetivo do qual duvido - Estrela Matutina, caiu. O atrito do ar afinou o couro da estrela.

O afunilamento traz a sensibilidade.

Certa época ganhei do meu padrinho uma cria de sua cadela de estimação; era a cria um cãozinho branco de olhos escuros. Um charminho encantador em forma de animalzinho. O filhote era tão amável que até mesmo mamãe se amoleceu diante da beleza do cãozinho. Era bem verdade que mamãe era severa; as vezes ultrapassava a linha da severidade e colocava um pezinho na linha da ruindade. Mas Tedy - foi assim que batizamos nosso mais novo membro da família - conseguia fazer mamãe mostrar os tártaros dos dentes com alegria.

Tedy - ainda muito novinho - se alimentava somente de leite quente que mamãe esquentava deliciosamente; o cachorro se estranhava à noite e passava a madrugada inteira latindo. Ninguém dormia a noite, tenho certeza. Ao menos eu não, e sei que mamãe também não. Ela sempre fora bastante impaciente à barulhos. Não tinha paciência nem mesmo com o coral da igreja, que ficava na praça, duas ruas abaixo da nossa. Mesmo com a barulheira, mamãe sempre acordava tranquila, inclusive bem humorada, diria eu. Conversou com Tedy com chamego, como se esse fosse um bebê. A verdade é que o cachorro mantinha-se impassível, observando, tentando decifrar aquele comportamento estranho.

Com o correr do tempo, Tedy foi crescendo e se tornando um cachorro grande, de pelagem puramente branca e exuberante, como um relâmpago que risca o céu.

Nenhum comentário: