sábado, 21 de maio de 2011

Sonhos na Terra do Sol


O pasto do outro lado da estrada já estava amarelado devido à seca e ao sol forte do início do segundo semestre do ano. O vento era escasso e a procura por uma sombra, abundante. As sombras eram naturalmente escassas; o sol naturalmente viril. Do lado de cá da pastagem havia uma sombra miúda, que se desfazia aos poucos, devido à rotação solar. No chão daquela sombra, o único pedaço de concreto quente suportavelmente possível de se sentar. Hora ou outra, um carro acariciava a estrada fogosa, e o ronco do motor, às vezes suplicante, outrora macio, era a única música que aqueles dois rapazes ouviam naquela tarde amarela.

Encostado no muro chapiscado e rabiscado de gesso branco, Heitor descascava e quebrava suas unhas, pensando na sua vontade de um dia não estar mais ali; tinha o sonho de ser médico; cirurgião plástico. Queria mudar o rosto das pessoas, transformá-las tão bruscamente, como um dia ele próprio transformara sua vida. De uma tristeza real para uma beleza artificial. Heitor acreditava que o conforto apagaria a sua tristeza, como uma tempestade seria capaz de apagar o calor daquela estrada que ele olhava intensamente. Quando fosse um cirurgião plástico, ele seria a chuva e floresceria vida nos rostos das pessoas, como aquele mato amarelo que um dia voltaria a ser verde.

Mas conhecia também o poder do tempo; sabia que esse, naturalmente, desfaleceria pouco a pouco sua arte artificial. O tempo, naturalmente, traria o calor e a seca que secaria o seu conforto. E imaginando o mundo como um ciclo vicioso, prevendo um desespero eminente, Heitor se tranquilizou ao pensar na chuva que viria após cada seca violenta.

Do outro lado, com as costas encaixada no tronco da árvore, observando os postes de energia que se encontrava à sua frente, todos ligados por vários fios, estava Miguel. Faces rosadas, sandálias gastas – ele olhou essas com curiosidade. Por que uma sandália se desgasta quando a usamos? Fechou os olhos, encostou a cabeça no tronco e sentiu o calor formigar o pescoço e entrar pelas narinas. Mesmo com calor, seus braços estavam frios; devido ao suor, pensou. O calor tentava consumi-lo e o corpo lutava.

Olhou em seguida para o sol; viu uma enorme bola amarela brilhando no meio do céu puramente azul. Sentiu que se travasse uma batalha entre ele próprio, tendo como arma o seu corpo, contra o sol, que tinha como arma o calor, ele jamais venceria. Seu corpo era mortal. O sol também morreria, mas certamente muito depois dele. Supôs então que os dois tivessem o mesmo tempo de vida; como faria para destruir o sol? Ele sabia que o astro era, logicamente, uma bola de fogo. Ele anularia o sol se tivesse como arma uma bola do tamanho do sol, feita de água, com temperatura numericamente igual a do sol, porém abaixo de zero. Não existe água o suficiente no universo para isso; e, mesmo que houvesse, não se pode chegar à temperatura pretendida.

Poderia usar outra substância que não fosse água, mas jamais a comprimiria o suficiente para que fosse possível apagar o sol. Continuou a pensar – ele não deveria apagar o sol – deveria vencê-lo, controla-lo.  Se tivesse a luz do sol sob o seu domínio, ditaria as regras no mundo; ou melhor, criaria um novo mundo. Era o que ele queria, ter um mundo próprio e real. Teria que descobrir quais eram as matérias primas necessárias para se criar um mundo.

Heitor o interrompeu, com uma voz baixa e grave: “Enquanto ficamos aqui a navegar em ideias vagas, as pessoas morrem lá fora”.

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