terça-feira, 10 de maio de 2011

Meditações Sobre Lord Henry e Dorian Gray


Lord Henry é demasiadamente sincero. Mesmo quando leio suas palavras, sozinho, recolhido em minhas ideias vagas, me sinto por várias vezes envergonhado; como se eu estivesse me despindo pela primeira vez, frente a um espelho.

Quando a vergonha evapora, pelo exercício da prática, o prazer se distribui no vazio que fica; e ouvir as palavras de Lord Henry torna-se viciante.

Eu, a pico da posição de Dorian Gray, faria o mesmo: cairia em tentação da mesma forma; e caso me arrependesse, pediria castigo; invés de perdão, como Dorian fez. Entretanto, outrora me envergonhei, pois Lord Henry me provou que sou sórdido, já que, ao contrário de Dorian, eu não me arrependeria de nada.

Envergonhado novamente pela descoberta de minha sordidez, o exercício da prática deu trono ao prazer. É um efeito de evolução, que a olhos medíocres é catastrófico. A princípio, fui medíocre. No meridiano da descoberta, eu estava aterrorizado. A um quarto do fim, eu estava temorizado. No fim, eu estava conformado.

Dorian era um anjo enfeitiçado; e a Terra não é lugar para anjos; a não ser quando os enfeitiçados. Eu não sou um anjo enfeitiçado. Oscar diz que aquele que se sobressai, cria inimigos. E aquele que é popular, é medíocre. Não quero exuberância, e muito menos populismo. Logo, sou pupilo de Oscar, o criador; e não de Lord Henry, a criação; que paradoxalmente, manipula. E também não sigo o vaidoso Dorian Gray, o belo fantoche que me trouxe sensações ébrias em pleno estado sóbrio.

Nenhum comentário: