segunda-feira, 25 de abril de 2011

Blues


Ontem à noite eu toquei blues com Jonh Lee Hooker. Ele era o piloto de um barco louco e escuro, com seu violão acústico nas mãos. Eu era um peixe no mar, em volta do barco, assoprando notas insossas da gaita.

A noite de ontem foi para nos mostrar que somos cárceres. Os ossos aprisionam as vísceras; a pele aprisiona os ossos; a mente aprisiona o corpo; as paredes aprisionam os homens.

A voz rouca; assombrada, embriagada, de um sereno demônio; cantou o réquiem do cotidiano. A liberdade da vontade de apenas ser, bate as asas. É apenas um canto triste; mas uma cantiga que adocica essas correntes que nos aprisionam.

Nós nem somos assim tão sinceros; mas nossa infelicidade é sincera, mesmo que reprimida nos cantos fundos da alma.

Ontem cantamos “No Dia que Deus Colocou Fogo na Terra”, e toda aquela agressividade era a representação das lágrimas que provém do fundo de nós. A questão é que lágrima nenhuma apaga esse fogo que nos queima.

Estamos queimando sem ter coragem de nos apagar. Cantamos isso ontem à noite, anestesiados pela brisa do mar.

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