quarta-feira, 20 de abril de 2011

Batalha do Corpo


Não há janelas, e as paredes são brancas. Ao observar esse ambiente, lembro-me dos meus sonhos fatigantes. A cortina negra tapa um único vidro que permite a luz do sol entrar. Tento, com esforço, ver a luz do sol entrar, mas apenas sinto a parede branca atrás de mim congelando a minha nuca. O meu estômago se agoniza. Berra enquanto os meus ossos se revoltam: apedrejam o meu estômago. O órgão revida: queima os meus ossos.

Um homem, lá na frente, me olha fixamente desde que chegou. Ele sorri com escárnio e me olha de cima para baixo. Ele é mais alto que eu, mais pesado que eu, mais encorpado que eu. Os cabelos são lisos, castanhos. Os olhos pequenos continuam a me olhar.

A batalha entre os meus ossos e o meu estômago continua. Os ossos atacam com paus, o estômago com pedras. Os ossos com flechas, o estômago com tochas. Meu estômago está quente; as pontas dos meus dedos, frias. Uma gota de suor cai da minha testa até o meu pescoço; eu a disperso. Não posso mais, eu me levanto. Minhas pernas bambas iniciam o movimento; a esquerda primeiro, a direita depois. As pontas geladas dos meus dedos procuram apoio; até que encontram. As mãos o toca; enquanto que a minha mente pensa na fuga. Minha mão o passa a apertar.

O cínico de cabelos curtos tirou o ombro, para que eu me desiquilibrasse, e assim ele me empurrou violentamente o peito. Caí sentado. Todos os doidos presentes gargalharam. O cínico apenas manteve o sorriso de escárnio. O que nenhum doido percebeu ou ouviu foi o grito esperneante dos meus ossos ao se debaterem com o chão. Meu estômago parou de lançar todas as tochas, e o meus ossos, as flechas. O meu coração, ainda sentindo a marca do empurrão, começou a bombear explosões. Meu coração pulsava gasolina para o meu estômago e para os meus ossos. O estômago se encheu de fogo, que queimava minhas partes frias.

As pontas geladas dos meus dedos sentiam o calor do fogo, e isso as faziam tremerem. Os ossos das pontas dos dedos buscavam o frio do chão; e quando uma mão se firmou, a outra foi em direção à pélvis. Pegando fogo, as pontas dos dedos buscavam a bainha. Acharam o cabo.

Levantei-me, lentamente. A parede ao fundo era branca. A parede a frente era branca. A parede ao lado era branca. Do outro lado não havia parede, apenas o vidro; e agora eu podia ver o sol, e sentir a luz batendo no meu rosto. Era aquela luz que queimava o meu rosto e o deixava vermelho.

De pé, frente ao cínico, que estava sentado, olhava-o fixamente. O sorriso ainda estava na sua face, logo estaria na minha. Estava na minha hora de esquentar o seu estômago.

Os doidos em volta faziam silêncio.

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