quinta-feira, 28 de abril de 2011

Pobre Garoto


Ajude o pobre garoto
Por que ele não tem culpa
Se deu algum passo torto
Foi alguém que o induziu
E depois disso
Foi você quem sorriu

Diga para mim
Quem colocou a arma na sua mão
Ameaçando que seria o fim
Se você falasse não
Você não tem culpa

É um pobre garoto
Que não sabe que uma promessa
Na verdade é apenas uma festa
Armada para quem promete
Você não tem culpa

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Blues


Ontem à noite eu toquei blues com Jonh Lee Hooker. Ele era o piloto de um barco louco e escuro, com seu violão acústico nas mãos. Eu era um peixe no mar, em volta do barco, assoprando notas insossas da gaita.

A noite de ontem foi para nos mostrar que somos cárceres. Os ossos aprisionam as vísceras; a pele aprisiona os ossos; a mente aprisiona o corpo; as paredes aprisionam os homens.

A voz rouca; assombrada, embriagada, de um sereno demônio; cantou o réquiem do cotidiano. A liberdade da vontade de apenas ser, bate as asas. É apenas um canto triste; mas uma cantiga que adocica essas correntes que nos aprisionam.

Nós nem somos assim tão sinceros; mas nossa infelicidade é sincera, mesmo que reprimida nos cantos fundos da alma.

Ontem cantamos “No Dia que Deus Colocou Fogo na Terra”, e toda aquela agressividade era a representação das lágrimas que provém do fundo de nós. A questão é que lágrima nenhuma apaga esse fogo que nos queima.

Estamos queimando sem ter coragem de nos apagar. Cantamos isso ontem à noite, anestesiados pela brisa do mar.

sábado, 23 de abril de 2011

Despedida

Devo sentir saudades
Das horas da tarde
Que passavam devagar
Me fazendo companhia

Onde as vozes não me observava
Mas me dava dicas certas
De como se deve pensar
E escrever poesias lerdas

Por que horas são amigas
Quando você decide ser amigo
Invés de fazer filas
De pensamentos incertos

Sentirei saudades
De um tempo que não volta mais
Um tempo que cantou para mim
O que ele próprio faz

Quando alguém decide ser delicado
E passa algumas horas ao seu lado
Todos os dias no mesmo lugar, parado
Ouvindo suas histórias embriagado

Até mais tempo perdido
Lembrarei sempre de você
Quando eu precisar de um amigo

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Batalha do Corpo


Não há janelas, e as paredes são brancas. Ao observar esse ambiente, lembro-me dos meus sonhos fatigantes. A cortina negra tapa um único vidro que permite a luz do sol entrar. Tento, com esforço, ver a luz do sol entrar, mas apenas sinto a parede branca atrás de mim congelando a minha nuca. O meu estômago se agoniza. Berra enquanto os meus ossos se revoltam: apedrejam o meu estômago. O órgão revida: queima os meus ossos.

Um homem, lá na frente, me olha fixamente desde que chegou. Ele sorri com escárnio e me olha de cima para baixo. Ele é mais alto que eu, mais pesado que eu, mais encorpado que eu. Os cabelos são lisos, castanhos. Os olhos pequenos continuam a me olhar.

A batalha entre os meus ossos e o meu estômago continua. Os ossos atacam com paus, o estômago com pedras. Os ossos com flechas, o estômago com tochas. Meu estômago está quente; as pontas dos meus dedos, frias. Uma gota de suor cai da minha testa até o meu pescoço; eu a disperso. Não posso mais, eu me levanto. Minhas pernas bambas iniciam o movimento; a esquerda primeiro, a direita depois. As pontas geladas dos meus dedos procuram apoio; até que encontram. As mãos o toca; enquanto que a minha mente pensa na fuga. Minha mão o passa a apertar.

O cínico de cabelos curtos tirou o ombro, para que eu me desiquilibrasse, e assim ele me empurrou violentamente o peito. Caí sentado. Todos os doidos presentes gargalharam. O cínico apenas manteve o sorriso de escárnio. O que nenhum doido percebeu ou ouviu foi o grito esperneante dos meus ossos ao se debaterem com o chão. Meu estômago parou de lançar todas as tochas, e o meus ossos, as flechas. O meu coração, ainda sentindo a marca do empurrão, começou a bombear explosões. Meu coração pulsava gasolina para o meu estômago e para os meus ossos. O estômago se encheu de fogo, que queimava minhas partes frias.

As pontas geladas dos meus dedos sentiam o calor do fogo, e isso as faziam tremerem. Os ossos das pontas dos dedos buscavam o frio do chão; e quando uma mão se firmou, a outra foi em direção à pélvis. Pegando fogo, as pontas dos dedos buscavam a bainha. Acharam o cabo.

Levantei-me, lentamente. A parede ao fundo era branca. A parede a frente era branca. A parede ao lado era branca. Do outro lado não havia parede, apenas o vidro; e agora eu podia ver o sol, e sentir a luz batendo no meu rosto. Era aquela luz que queimava o meu rosto e o deixava vermelho.

De pé, frente ao cínico, que estava sentado, olhava-o fixamente. O sorriso ainda estava na sua face, logo estaria na minha. Estava na minha hora de esquentar o seu estômago.

Os doidos em volta faziam silêncio.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Veloz


O nome dela faz bem
Aos meus ouvidos cansados
Quando ouvi na estrada
Os ecos de uma voz instável

Vindo de algum lugar
Que fui incapaz de identificar
Mas que com um simples ato
Mudou um pensamento desequilibrado

O suor que corre pelo rosto
Identifica outro tipo de nervoso
Não é tão legal fazer
O que outra voz quis dizer

Acelerar no espaço em que a medida
Retroage por estar perdida
Calamidades provêm do desapego
E desapegos nascem do desprezo

Um carro em velocidade causaria o acidente
E os homens não condenariam o ato
Ao me olhar frente a frente
Com a minha postura, eu estaria perdoado.

Quem participa do teatro
Não reconhece um ator
Mesmo que quem esteja no palco
Também queira causar dor

Se alguém foi capaz de me frear
O nome dela fez bem
Aos meus ouvidos cansados
Quando ouvi na estrada
Os ecos de uma voz instável

Vindo de algum lugar
Que não fui capaz de identificar
Mas que com um simples ato
Mudou um pensamento desequilibrado

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Víbora



Quando, por motivos desconhecidos, um poeta se apresenta para esse mundo maldito, sua mãe grita para os céus, de braços abertos: “Eu queria apenas me divertir durante a noite; mas sob as víboras, gerei em meu ventre uma nova. Sou uma mulher que não pode se queixar de um falso bilhete de amor, ou da infelicidade de se ter um marido, pois eu não tenho um homem. Por isso eu odiarei e amaldiçoarei esse instrumento vil das víboras, para que ao menos meu filho não origine galhos em minha genealogia”.



E assim, possessa de ódio, arquitetando com veneno seus planos, ela mesma acende em si a fogueira do crime materno.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Sorriso Amarelo


Larga essa ideia boba
De querer ir embora
Se você quer mesmo
Pelo menos não vá agora

Deixa-me terminar de sonhar
Com o seu sorriso amarelo
Que você abre quando acordo
E confessa o que quero

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Dias Mortos


Queria estar louco agora e poder sentir a morte mordendo os meus braços e pernas. Sabe, tem muitas almas penadas nesse mundo, e eu sei que sou apenas mais uma. Mas eu queria que essa fumaça me engolisse para que eu pudesse esquecer isso.

Existem dias que nascem mortos. Basta olhar para o Sol e contemplar suas feições de aborto. Se for um dia sem Sol, basta um espelho. Hoje é um dia desses. Tem dias que um pouco de loucura não faz mal; por que tem dias que o que faz mal é viver.

Acho que não há erro em, às vezes, deixar se ceder. Quem nunca se cedeu?

É estranho ouvir os zunidos da mente. É estranho olhar faces estranhas nas ruas. É estranho contemplar as paredes quentes do quarto.

Você sabe o que é desespero? Desespero é respirar a velhice. Envelhecer é morrer; e quem não sabe disso? E quem desfaz isso?

Existem dias que não há mal nenhum em disparar um tiro contra a própria face

O bom homem diz: Interprete o teatro que existe na minha mente moída. “Nem mesmo os conceitos e rigores da sociedade, nem todas as convenções sociais, podem aplacar, de todo, a fúria despertada da besta que dorme no coração humano”.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Prisioneiro


Por longos dez anos
Você não disse nada
Não me incluiu em seus planos
Nem nos seus contos de fada

Não está nada bom
Ou você faz algo por mim
Ou eu peço demissão

Nos dias seguintes
Você foi generosa comigo
Se fez de rainha
Disse que não preciso de amigo

Disse que seria minha companheira
Durante a minha vida inteira
Mas logo na outra segunda feira
Após uma discussão sem sentido
Você disse que eu era apenas mais um perdido
Tentando incluir você no meu egoísmo
Mas que eu seria incapaz
De arrebatar seu preciosismo

domingo, 3 de abril de 2011

Suavidade do seu Beijo


Quando a toco com as pontas do dedos
E a sinto esquentando e tremendo
Esqueço aquilo tudo que percebo
E meus impulsos impedem o que tento

Um ato desastroso de mentiras
Que concebe uma funerária
De palavras bem dizidas
Somos velhos párias

Mestre na arte de enganar
Engano a mim mesmo
Achando que é belo
Jogar pessoas a esmo

Descartar o mundo como objeto
Planejar um golpe certeiro
Quando nada daquilo der certo
Ser um respeitável curandeiro

Planejo as letras da carta
A presença, as lágrimas
O cortejo, o bocejo
A ausência e a reticência

O discurso e o uso
Da minha juventude para um terço
Aproveito e promulgo
Que todo esse abuso
Eu rejeito

Mas antes, minha querida
Quero você outra vez
Duas vezes despedida
Dos seus beijos, da minha vida

E não teremos aonde nos encontrarmos
Somente agora, nos seus braços
Dissolvido nos seus seios
Estou inteiro, sou seu meio
Para dilatar os prazos
Que cessarão no permeio
Da suavidade de seu beijo.