quarta-feira, 23 de março de 2011

O Desfile


Eu quero contar sobre um dia quente, sem sol.

Um senhor desmembrava as pétalas de uma flor. E cada pétala caída significava uma ideia perdida. E daquele carro, as janelas assopravam as cores do mundo para a face do vento. Em tom róseo era a infância, enterrada em alguma catacumba na avenida, onde os carros trafegavam como os macacos que pulam nos galhos da Ciência.

E era em um desses carros que eu estava. Com a respiração concentrada na voz que falava no meu inconsciente que, pela primeira vez, enxerguei o Senhor. Ele e as pétalas despedaçadas. Eram flores que gemiam de gratidão.

O Senhor não estava mais sozinho naquele momento. Ele estava acompanhado de um Mago. Os dois, ali, eram como Deus e Cristo. Acho que o Senhor encontrou alguma ideia viva em alguma daquelas pétalas de flores mortas. Encontrou um Mago; o Mago dos Sons dos Animais.

Oh! Naquele instante, a avenida não era mais a prostituta dos carros e dos mendigos somente. Ouviam-se outros sons naquela avenida, como que em um desfile. Que gritaria!

Macacos pularam na árvore do centro do paraíso. Escorpiões seguravam cigarros com as suas pinças. Os pássaros faziam amor com os peixes. Os leões comiam os cogumelos nascidos nas cabeças dos esquilos. As tartarugas caçavam os coelhos.

Alice tem três braços e não se lembra de que está caindo. Os macacos! Sim, os macacos caem do céu.

O Senhor bebeu um gole de querosene. E havia doença no fundo do copo.

Minha irmã é surreal. Eu nunca a vi, mas a ouço todas as noites. Ela me conta sobre uma amiguinha que faz as criancinhas vomitarem a bílis no colo de suas vovozinhas. Essa amiguinha tem um olho na testa. Testuda! Tesão! E o Senhor quer beijá-la nos lábios, há há há! O Senhor quer fazer um filho com ela!

Eu danço balé com os escorpiões que deixaram seus cigarros nas fechaduras das portas. Portas tem boca. As portas fumam cigarros.

Nenhum comentário: