segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Choque


- São quantos andares mesmo?

- Fica no décimo oitavo, senhor?

- Ah, perfeito.

- Não, senhor; vá pelo elevador.

- Claro. O elevador.

Nunca moraria em um apartamento. Não se pode gritar sem pagar multa. Na verdade, um arroto alto é notado ao longe. “Viu como o senhor do 204 é nojento? Sinto daqui da minha casa.” Diria a diretora de recursos humanos da construtora, para a promotora de vendas. “Mas você deve ter contato com piores.” Retrucaria a víbora. “Estamos acostumados, não é mesmo?” Alfinetada elegante.

Apartamento. Tem quem goste. Ainda mais quando se custa trezentos mil reias.

- Olá, tudo bom?

O certo é pegar na mão primeiro e depois beijar? O rosto, evidentemente. Ou ignora a parte da mão? Prefiro sem beijo. Chamam isso de desprezo. Não que seja desprezo; não que não seja desprezo também.

- São quantos andares mesmo?

- Este é o décimo oitavo.

Por que há tantas coisas aparentemente simples, que não são de fato? A professora de artes diria que a dificuldade está nos detalhes. Já a de ética, diria que o que falta ao mundo são palavrinhas mágicas.

- O quadro é Monet?

- Não, Diderot.

- Nossa, como é alto aqui.

- Sim, estamos no décimo oitavo andar.

- E são quantos... Olá, garoto!

- Oi, tio.

- E aí, jogando muita bola?

- Sim, sim. Comprei o Ronaldo. Ele tem 98 de chute; mas acho que vou editar.

- É a função nova do PS que ganhei da vovó no natal.

- Ah, sim. O PS.

- Ganhei um hamster, você quer ver?

No meu tempo era senhor. Aliás, no meu tempo, era golzinho. Falo meu tempo como se eu fosse um velho. No meu tempo, 34 era jovem.

- Olha aqui, ela é tailandesa.

- Mas ela não é francesa?

- Eu falo sobre a minha hamster.

- Dizia eu sobre a tela. Pois bem, então é rata.

- Errata? Mãe; o tio disse que o quadro tem uma errata.

- Tem o que?

- É, minha irmã. Uma dissolução congruente nos âmbitos das extremidades da hipérbole. Em uma análise superficialmente fria, creio que há uma distorção angular. É óbvio que se trata de um manuseio artístico bem executado. Afinal, é Diderot.

- É... É claro. Belíssimo!

- Sim. Belíssimo.

No meu tempo, chamavam-se isso de rato. E quando se via algum, matava com espingarda de chumbinho. No meu tempo... No meu tempo o cacete, eu não sou defasado para pensar o tempo inteiro “no meu tempo”.

- O marido dela morreu.

- Dela quem?

- Da Tofu.

- Tofu?

- É, a minha hamster.

- Ah sim, o marido da... Hamster. Como venta aqui, não é?

- É. É o décimo oitavo andar.

Até mesmo os suspiros têm os seus momentos adequados para suas execuções. No momento errado, causa desconfianças; condenações.

- O que foi?

- Não, nada. Como o hamster morreu?

- Eu o coloquei na sacada, para brincar ao sol. Faz bem para os pelos.

- Então... Ele caiu?

- Ele estava na gaiolinha. Tem escadinha e rodinha para ele correr. O sol estava muito quente, ele se cansou; aí eu joguei um pouco de água nele. O médico, especialista, disse que a causa mortis dele foi choque térmico.

Concluo que sou antiquado e defasado, aos 34; pois como meu velho pai, eu pensei: “é para acabar mesmo”.

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