sábado, 31 de dezembro de 2011

Embriaguez


Gosto de beber e tenho elegância quando bebo. Não me embriago, apenas deixo o meu espírito delicadamente leve.

Jamais fiz qualquer tipo de escândalo. Quem me conhece sabe.

O único traço que fica em mim é uma breve distinção na voz. Distinção essa que é charmosa ao ponto de deixar homens incomodados. E mulheres também.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Esquizofrenias

Entenda a natureza do meu jogo: torrar os seus defeitos.

Como me faz falta, como sinto saudade. Olhos, pele, cabelos. Como sinto necessidade!

Penso: o que posso escrever? Me falta um olho nesta terra de deserto. E hoje é um dia... Um dia, que eu sinto mesmo falta da sua presença. Eu penso que, eu posso, eu não sei. Eu quero interpretar algum sonho.

Somos apenas pessoas. Pessoas morrem quando descobrem a face do real. Ou do absurdo. Do mundo, da vida. Tudo é mortal, tudo é irreal. Eu me perco em loucuras. Nada em mim faz sentido.

Vamos, tudo bem. Perdão. Perdão por rir. É por que você é linda.

Já matei tanto, que acho que posso fazer outra vez. No íntimo, é bom. É como tomar um banho gelado em um dia de calor. Me esgoto ao ver a alma se esvair; por aí, para o nada. É bom fazer isso ao seu lado! Eu quero todos os dias, no meu silêncio cego, no tempo devido.

Enfurnado em loucuras, preso em abismos. Tão simples como me deitar na cama. Paraplégico. Anestesiado. Esquizofrênico.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Justiça

A justiça é um ponto de vista
Assim como a amizade.
Na verdade, tudo é ponto de vista.
Aos amigos, a amizade
Ao resto do mundo, as leis.

Quando eu não precisava
Eu tive vários amigos
Mas agora que eu preciso
Bem, estou onde estou
E se eu tivesse amigos
Eu não estaria aqui

O laço da amizade não é outro se não a gratidão.
E gratidão se tem
Ou não se tem.
É ponto de vista.

Há quem vende a mãe por notas de papel
Ou por posição
Eu o pergunto:
O filho que faz isso é ingrato?
A resposta é não.

Mas há quem diga que é um absurdo
Vender a mãe ou um irmão
É absurdo vender qualquer ser humano
Não é mesmo?

Sim, é um absurdo!
Tem tantas coisas que são absurdas...
Eu só quero dizer que a justiça
Também é absurda

Quanto você pagaria para que a justiça fosse feita?
A resposta para a pergunta é depende.
Pois tudo é uma questão de ponto de vista
Por que, se você não sabe,
A justiça também tem o seu preço.
Você venderia a sua mãe para que a justiça fosse feita?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Casamento Químico

Casa-se comigo, querida
Darei-lhe um anel aromático
Teus cabelos perfumados como benzina
Meu amor por você é volátil
Uma pérola de naftalina
Ligarei você ao modo do carbono
Em cadeias fechadas que irei lhe prender
Ficarás instaurada duas, três vezes
Tens um corpo estrutural
Minha musa da química orgânica

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Perturbação

Ele corria desesperadamente, sem olhar para trás. Corria e sentia a falta de ar. Seus pulmões doíam, e era o medo que sustentava a força e a resistência para continuar correndo mais e mais. Ele tombou. E mais rápido que sua queda foi o seu impulso para se levantar e continuar correndo, sem olhar para trás, desviando das árvores; correndo mais rápido que suas próprias pernas permitiam. Ele não queria que o alcançasse. Não queria por nada. Não queria morrer.

Somente ele sabia do pavor que aquela perseguição provocava em seu espírito. Ninguém poderia compreender o seu desespero. Nem mesmo se passasse pela mesma situação. Há situações que só existem uma vez no mundo, com uma única pessoa. É uma situação singular, verdadeira, inquestionável, surpreendente. Nem ao menos se sabe o que é. Acontece.

Sua mente, ainda sã, estava cada vez mais a favor da pertubação e do medo. Adentrado a floresta, não via sinais de civilização; sem saber se era dia ou noite. Sujo, cansado, sozinho, coração pela boca, afogado pela sede. Ajoelhou, passou a mão pela terra. Se rendeu. Sim! Se entregou! Que venha o carrasco, que o assassine. Que rasgue as veias do seu pescoço. Que ao menos o vermelho do sangue seja capaz de florir esses campos virgens.

A verdade é que não conseguia mais. A fuga é sempre um meio de pisar em falso em velocidade. Rápido, sagaz, sem dor. Chega. Há sensações que só existem uma única vez no mundo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Tiro

O deserto fica para trás
Com toda a ignorância de uma população
A guerra estoura no ar
Ei madame! Mais cinco minutos no salão
A dona sai ao mundo escovada
Uma bala de fuzil na cabeça da caçada

Dê-me um beijo, princesa
Um beijo de despedida
Um beijo de boa noite, sozinha, despida
Aproveite: os monstros ceiam.

Lembro da agonia do cambaleio
Guerra: sou uma estátua
Mãe: "Por seres filhos, não és feio".
Imagens: ainda medo de tarântula
Linda solidão naquele dia

Explodi minha cabeça com pólvora
E ela flutua agora
E meus dedos puxam o gatilho
A cada segundo de hora
Leões saltam os demônios.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Malandragem

Eu que sou limitado, cheio de defeitos, procuro por tudo me superar. Tento sempre acompanhar esse seu ritmo desenfreado que sempre me surpreende. Que sempre me mostra que atrás desse rosto fino há um aglomerado de belas ideias; que me orgulha e me prende. É mais do que já foi. É crescente, ligeiro, imponente. E o melhor: é madraço.

Sou da espécie que compartilha, que presenteia com a fundação de um novo mundo. Tenho disposição em passear pelas enseadas das nuvens. Digo o que não se deve pela diversão. Minto dizendo a verdade. Me dedico pelo nada, mas me dedico. 

Seja em prosa, seja em verso, eu simbolizo. Faço cultos pagãos; minha oferenda é a minha ironia sem disfarce, pois eu gosto mesmo de curvas, acidentes e do que foge ao correto. Convido por larápia e convenço. Sem nada na mão, sem nada em mente, consigo me enveredar. E vou pela sua trilha, sentindo o seu cheiro. Gosto daquilo que você tem fácil. Sou sim sorrateiro e quero cair para ver você me estender a mão.


domingo, 11 de dezembro de 2011

Senhora da Flor de Lótus

À minha espera havia uma senhora
Com uma flor de lótus em suas mãos
Em uma época em que a primavera
Não passava de um embrião

Em silêncio se dirigiu até mim
Em vestes de seda e cetim
Perfumada com o mais puro jasmim
E com colar de prata e marfim

Ao sorrir cessou a chuva
Delicadamente tocou a flor
E a minha visão embaçada e turva
Deixou de ser escura e ganhou cor

O corvo interrompeu o voo
O peixe saiu da água
O lagarto não rastejou
E eu deixei de lado a minha mágoa

Ela me fez pensar
Ela me fez dormir
Ela me fez sonhar
Ela me fez sorrir

E no meu sonho ela estava sentada em um trono
Acariciando as penas de um rouxinol
Que cantava brilhando ao sol:
O mundo é livre e não tem dono

Havia anjos dançando no pátio do palácio
E eu tinha uma flor de lótus na mão
Atrás de mim havia curingas e mágicos
E todos nós esperávamos a abertura do portão

Ela nos fez pensar
Ela nos fez dormir
Ela nos fez sonhar
Ela nos fez sorrir

E quando a senhora abriu uma fenda no céu azul
E esbanjou para todos da platéia o seu sorriso
Evocando orações mágicas para o paraíso
Do céu brotaram querubins de cabelos vermelhos e corpos nus 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dez Anos

Não queria morrer assim, sentado em uma cadeira
Sem ver pela última vez todos aqueles que passaram pela minha vida
Todas as pessoas que quando matei, joguei suas fotos na lareira
Recordando que foram essas pessoas que me deram água e comida

Queria ver todas essas pessoas uma única e última vez
Segurar a mão e agradecer um por um, por terem me moldado assim
Queria ouvir de um por um o nome de vocês
Ao menos a morte poderia ser generosa e dar esse presente para mim

Meus únicos amigos, que nunca tive, assistam a minha morte comigo
Não quero que façam missa de sétimo dia
Não quero que pesquisem sobre os meus escritos
Não é preciso mentir sobre mim para a minha filha

Digam a ela que a deixei, fui fraco, optei pela suicídio
E o dia que a levei ao bosque, eu chorei por que era uma despedida
Digam a ela que, como foram para mim, vocês serão amigos dela.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Dama das Quimeras

A dama das quimeras loucas gira as retinas; prisioneira de um calabouço desconfigurado. A vítima olha a catapulta, olha o tiro lançado que dança sobre o gás leve de hélio que forma o ar. O diabo, atrás da vítima, o puxa pelos cabelos. A vítima sente seu cabelo erguendo, no meio do nada, junto com o ar leve e gélido que sobe por suas entranhas sujas, até sua espinha emborcada. A vítima, estática, olha hipnotizado a dama das quimeras no céu escuro, com olhos loucos. E o diabo, atrás da presa, a energiza com assombrações infernais e sonhos de pânico.

A vítima acorda, bêbada. O som que a rua faz é de escárnio. A vítima pensa em beijar o rosto da mãe, que repousa em outro quarto. Ele se senta na cama, passa as mãos pelos cabelos que não existem mais; sente o cheiro singular de cabelo queimado. Ao passar a mão pela testa, sente o buraco do tiro que perfurou o osso do crânio.Capacete que não barra o medo.

Então ele se levanta e se sente encolhendo. Há ácido no chão; tudo derrete. Suas pernas terminam nos joelhos e não há mais nada para baixo, nem mesmo o chão. Um grito estoura seus tímpanos. A massa cinzenta escorre do cérebro até os olhos, pelo buraco de sua testa. Os olhos se fecham. Ele quer acordar desse sonho macabro, mas seus olhos não se abrem mais. Ele quer ouvir a voz de alguma pessoa querida dizendo: "calma, foi apenas um sonho"; mas seus tímpanos não funcionam mais. Ele quer correr, mas os pés estão corroídos. Ele quer se arrastar, mas uma fenda se abriu no chão.

Sobrou apenas o paladar para saborear o beijo tântrico da dama das quimeras, e o tato para sentir o diabo se infiltrando em sua carcaça morta.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Carta Morta

Talvez esta será a última carta que lhe escreverei e que você lerá. Ainda que assim seja, escreverei com todo o meu carinho, da maneira como sempre me dediquei a você.

Me mantenho deitado na cama, olhando o desenho que você me deu de presente. Tento observar cada detalhe do desenho; e para cada detalhe, consigo identificar um segundo vivido em sua companhia. Tempos bons. Lembro de dias em que estava na escola, com a sua imagem em mente, rabiscando frases desbotadas na cadeira, apensos de estrofes, frases febris; em suma, enchendo aquela cadeira com o seu significado para mim.

Me lembro das vezes em que lágrimas embaçaram-me os olhos. Lágrimas sem sal, com gosto doce. A saudade é tão doce a ponto de adoecer. Lágrimas que caíram na cadeira, em cima de tudo aquilo que eu havia escrito e, na tentativa inocente de secar a cadeira, grafite e lágrimas se fundiam, borrando todas as minhas palavras. E ali perecia o meu presente para você. Um presente secreto, jamais entregue. Confesso que não havia importância, pois aqui no meu mundo fantasioso eu era capaz de sentir o seu sorriso acanhado ao ver a minha obra.

Essa carta continua e, sinceramente, não sinto a mínima disposição em transcrevê-la. É uma carta antiga, melosa, que me faz sentir ridículo. Essa sensação piora quando sinto que estou sendo observado. Que não seja interpretado como provocação. Nós somos humanos: caçadores e camufladores natos.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ideologia

Para buscar.
Para viver o tempo que ainda existe.
Primeiro motivado pela emoção da ideologia.
Depois a compreensão
A desistência
O entregar-se ao modelo.

Em seguida, após a transformação
A conquista.
O nome, o renome
O direito, a recompensa.

Agora sim, completo
Há tudo.
E ainda há ambição.
Há querer.

E vinte anos atrás?
A ideologia...
O contra.

domingo, 27 de novembro de 2011

No Dia que Deus Colocou Fogo na Terra

Ouçam! Eu quero que toquem The Doors durante o enterro
Eu quero ouvir poesia
Enquanto Deus põe fogo na Terra

Ladrões sentados na praça contam o dinheiro
Feridos no banco esperam o socorro
Traficantes matam milícias no terraço do morro
Gritos de pânico são ouvidos o dia inteiro

Senadores amenizam com suas conversas de palanque
Esquizofrênicos clamam de dor pedindo remédios
Soldados com metralhadoras andam nas ruas em tanques
Cavaram um buraco para os demônios fugirem do inferno

Católicos vão ao Vaticano pedir ajuda ao Papa
Protestantes dizem que é Cristo nos castigando com a espada
Vulcões cospem fogo de montanhas e serras
É Deus, que está colocando fogo na Terra.

sábado, 26 de novembro de 2011

Quatro Anos

O homem, quando criança, questionava o porquê de sua mãe ser tão insensível. Quando ficou jovem, buscou meios falsos de fugas; planos fantásticos; sonhos de metal. Concluiu que o melhor seria apenas viver da forma que convir; pois não é isso que todos fazem? Dançar conforme a música? Bem, mas esse homem que lhe digo não é uma bailarina de programas televisivos dominicais vespertinos.

Ele arrumou suas malas. Deixou todas as suas roupas e objetos no armário e foi embora, de malas vazias. As vezes o tempo muda, e o que ficou para trás deve morrer no passado. Ainda que o mundo seja apenas uma manivela.

Ele partiu. Partiu o coração de algumas pessoas. Mas o que importa, não é mesmo? Socializar é apenas sincronizar egoísmos. O embate surge por que a engrenagem humana não tem um ritmo linear.

Então ele se foi. Mudou-se para Natal; sem ao menos conhecer alguém lá. Arrumou um lugar para morar e comprou uma moto, embora andasse mesmo de bicicleta. Morou quatro anos em Natal sem conhecer nem mesmo uma única pessoa. Seu maior envolvimento era com a atendente do caixa da padaria. Ela sempre o cumprimentava com um bom dia ou boa noite, conforme o horário. Ele repetia as palavras dela, com um tom longínquo. As vezes ela sorria, mas ele não notava.

Durante os quatro anos que morou em Natal, foi à praia todos os dias que não choveu. Muito das vezes não entrava no mar. Apenas olhava as ondas vindo e quebrando. Movimento contínuo. Jamais pensava em seu passado, nunca havia ligado para alguém da sua terra natal. Também nunca havia recebido nenhuma ligação. Também não teve um telefone. Não precisava; se precisasse, havia um orelhão do outro lado da rua da casa onde morava.

Assim se foram quatro anos, que ele nem se quer sabia que eram quatro anos. O tempo havia passado muito depressa para tanto tempo.

Certo dia de manhã ao abrir a caixa de e-mail, leu um que continha a seguinte frase: "Sua mãe morreu hoje de madrugada, precisamos que você venha". Ele checou quem havia passado a mensagem; era mesmo alguém que o conhecia. Ele parou por um instante, tomou um banho, pegou um dinheiro e foi comprar uma passagem. Não fez malas. Foi com a roupa do corpo.

Chegou ao cemitério, olhou sua mãe no caixão. Ela estava diferente. Todos estavam. Só assim se deu conta de que havia se passado quatro anos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Quarto de Risin (Parte II)

Maio de 1889: Pode ter sido um crime. Claro que foi um crime, e com a mesma clareza digo que foi prazeroso. Isso deveria aumentar a minha culpa. Se por um lado aumenta, por outro não, já que o prazer aniquila a culpa. Se já estou sentenciado, não me importa agora ter o fraco sentimento de culpa.

Estávamos Lucy e eu no quarto; estávamos abraçados com os olhos ainda vermelhos e pesados por tudo que nos havia acontecido. Não era justo que crianças fossem castigadas como nós da mesma maneira, pelo motivo que houve.

- Queria tanto me vingar, mas acho que sou incapaz.

- Mesmo com o seu irmão ajudando? Respondi sem perceber.

Ela arregalou os olhos. Estava surpresa com o que eu propusera sem querer.

- Bem... Como poderíamos nos vingar?

- Eu não sei - disse eu - Poderíamos apenas assustá-la, ao ponto de fazer o arrependimento brotar em seu coração.

Lucy me abraçava intensamente. Apesar de nitidamente triste, ela estava amorosa comigo. Eu sentia seus braços macios e algumas vezes o seu beijo doce no meu rosto. A forma como minha irmã me confortava era justamente o que a tornava tão importante para mim: a capacidade de me confortar nos bons e maus momentos. É preciso salientar que até mesmo nos bons momentos é necessário conforto.

Percebi uma luz no seu olhar e um sorriso diabólico na sua boca. Com certeza ela teve uma ideia. Ela não quis me contar, apenas me instruiu. Disse que a mamãe estava na sala, sentada na cadeira. Eu deveria apenas chegar frontalmente, caminhando e sorrindo lentamente; e depois pousar a mão sobre a de mamãe. O resto era com Lucy.

sábado, 19 de novembro de 2011

Banda de Rock

Um dia, um dia. Sim!
Um dia teremos a nossa banda de rock
Isso é sonho de infância
Sonhamos quando éramos crianças
Seremos uma banda de rock
O governo,em segredo, nos matarão
Assim que transformarmos uma geração
O mundo não vai morrer antes de nós
Deixaremos nosso legado.
Seremos uma banda de rock
Zurrapa, uma banda de rock

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Preso no Tempo

Basta saber separar para fazer
O que há de se querer fazer
Tempo que não passa
Segunda-feira que não termina
Trocaria qualquer riqueza
Pela sua companhia

Esse mundo é tão chato
E tão chato sou eu aqui
Esperando chegar
O momento de dormir
Só para depois acordar

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Quarto de Risin (Parte I)

Essa talvez seria a desvantagem de ser um investigador experiente. Nas outras profissões, os iniciantes sempre ficam com os problemas mais graves. Agora, eu, um investigador com 20 anos de carreira, estava diante daquele caso. Aquele infeliz senhor Risin me resolve causar problemas depois de morto. Maldito! Ao menos o pérfido não causaria mais problemas a ninguém.

Entrei no quarto; a perícia estava trabalhando. Risin estava estirado no chão. No corpo havia uma quantidade de morfina quatro vezes maior que um dependente aguentaria. O problema não era esse. O problema é que o homem havia levado um tiro no pescoço. A biopsia constatou que o disparo e a dosagem de morfina foram fatos acontecidos quase ao mesmo tempo, sendo impossível saber o que de fato ocorrera primeiro. Entretanto, a suspeita maior era a de que a morfina havia sido injetada antes do disparo. Era apenas suspeita, longe de ser comprovado.

Junto ao corpo havia uma seringa com vestígios de morfina e a arma do crime. Digitais de Risin por todos os lados. A pergunta é simples: suicídio ou assassinato? Em caso de assassinato, por que deixaria a arma no local do crime? A princípio não creio que o senhor Risin disparou contra si. Ele era viciado em morfina e se drogou naquela noite, mas será que realmente com aquela quantidade? Não teria sido alguém a drogá-lo uma segunda vez e depois o matou? O meu dever era descobrir quem havia feito aquilo.

Ninguém sabia ao certo a idade daquele homem. Talvez algo entre 25 e 30 anos. Não bastando a cena terrível no quarto, havia também horror nas folhas que encontrei em uma gaveta da mesa. Coloquei os papéis em ordem e me pus a ler o documento.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Signos

Para quem é de áries; pessoa de áries; pessoa desse signo. Não, ela não é de áries. Eu sou de áries, mas não acredito em horóscopo; nem tenho simpatia. Ela também não tem simpatia por signos. Ela não é de áries, embora tenha um signo representativo. Mas foi no signo de áries que encontrei um nome.

Segredo. Tudo isso é segredo. Tudo isso é oculto. Ninguém jamais saberá o que essas palavras querem dizer; apenas nós: você e eu, seres tão introspectivos. Jamais revelaremos os nossos segredos que existem assim como há segredos no céu e no mar. Principalmente no mar. O mar! Ah, o mar... O mar diz tudo, tudo.

O mar é o reino dos pontos. Pontos, aqui, entra como junção. Junção entre o seu reino e uma constelação. Lembra-se de quando lhe disse sobre tudo isso?

O mar me disse um nome. O nome do meu signo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Doce Tumba

Doce tumba na qual me apoio
Para ver o fim da tarde
Escutar se posso enxergar
Em um olhar a felicidade
Se posso enxergar
Nesse olhar a intensidade
Se posso enxergar
A intensidade de um sentimento
Sentimento concreto
Concreto como cimento
O meu é livre como o vento
Escrevo para ela
Necessito dela
Como espera
Pelo fogo
A vela

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Memórias do Quarto

"Um dia descansarei da maneira que mereço". Era isso que se podia ler na parede daquele cômodo de chão batido. O chão era velho e sujo como tudo daquele lugar. Além do chão, havia uma cama que já não mais proporcionava sono. Havia uma mesa com uma pilha de papéis escritos, outros em brancos; na verdade todos amarelados.

No cômodo viveu um homem. Um senhor que foi condenado à prisão perpétua; sendo que, talvez, o seu problema poderia ser apenas a sua insanidade.

Não se sabe ao certo o que aconteceu durante sua infância, mas o que se sabe é encontrado no seu diário. Na realidade, fragmentos de diário - que nem mesmo data tinha. Entretanto, sabe-se que é um diário. Se não for, pode ao menos ser considerado alguma espécie de registro.

Ninguém sabe o ano de nascimento desse senhor - apenas que em 1914 ele faleceu. Segundo os cientistas, ele teria entre 25 e 30 anos de idade.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Quadro

A porta está aberta. No quadro, na parede, está escrito alguma equações e soluções. Do outro lado há os problemas a resolver. Temos horários, mas não será cumprido; não ainda hoje. O mestre faz anotações e pede silêncio; o barulho atrapalha a concentração. Como? O barulho não é apalpável... A concentração também não. Será que o que não é apalpável influencia apenas aquilo que também não é apalpável? Não sei, continuemos a descrição.

Acima do verde, que antigamente era chamado de negro, há uma estaca pregada; com um homem pregado. Tudo isso no meio do branco.

domingo, 30 de outubro de 2011

Saudade


Hoje faz tanto frio
Mas e daí?
Hoje é o dia
Que eu tenho
Para sair
E vou vê-la hoje
Sinto tanta a sua falta
Mas eu a vi
Ontem a noite!

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Mãe Sozinha

Minha mãe saiu noite passada
E me deixou em casa sozinho
Ela foi buscar o meu pai
Que estava morto no meio da estrada

Eu disse: “Mãe, não fique assim”
Eu sei que você não tem ninguém no mundo
Mas você pode confiar em mim

Ela disse: “Sim, eu sei meu querido”
Eu vi que ela estava desanimada
Não era só seu coração ferido
Tinha também a alma cortada

Eu sei mãe, você não tem pais e irmãos
Não é fácil viver no mundo assim
Nem por isso estamos no fim
Para reerguemos, basta que me dê suas mãos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Porta

A evolução destrói; ou caminha para a destruição. A dúvida é um mistério; ou um caminho para a descoberta.

Quando optamos por abrir portas novas, dependendo de qual porta, se deve ter a ciência, a vontade e o saber, de que é necessário abdicar de outras portas para entrar naquela. Esse é o detalhe, a dificuldade. A estrada das outras portas é longa e duradoura, enquanto essa possui uma estrada bem curta, porém rica em diversidades.

sábado, 22 de outubro de 2011

Cadillac Verde


Cadillac verde
Abra as portas
Olhe o céu
Olhe o sol
Olhe as nuvens tortas

Andava cambaleante
Com a faca atravessada na cintura
Um passo sóbrio
Outro insano

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Jaú (Parte II)

No nosso penúltimo dia de viagem, aconteceu algo que eu jamais gostaria que acontecesse. Cecília e eu estávamos passeando de barco. Ela, toda sorridente, brincava comigo, me agarrando. Ela então segurou com força os meus cabelos, quando eu, movido por instinto devido à dor causada, a empurrei, tentando me livrar. Ela caiu do barco. Caiu na água no momento em que o barco fazia uma manobra. O barco passou por cima de Cecília, as hélices despedaçaram-a. Tudo que vi foi sangue muito vermelho emergindo sobre a água.

O que ouvi em seguida foram os gritos de desespero da minha mãe, que assistiu toda a cena de longe. Ela gritou e dois vermelhos surgiram em seus olhos. Logo vieram as lágrimas, salgadas como o mar. Ela virou-se para mim e em meio a soluços, berrou comigo, me questionando o que havia feito com sua filha. Gritou acusando-me de ter matado sua filha. Foi a primeira vez que ouvi a palavra morte; a primeira vez que perdi.

Minha mãe nunca mais foi a mesma pessoa e, por mais que ela me pediu desculpas pelo que havia dito no calor da emoção, ela nunca mais me olhou com ternura. A infelicidade tomou conta de suas feições e sua beleza desapareceu.

Dois anos após a morte de Cecília, minha mãe suicidou no banheiro do seu quarto, com um tiro na cabeça. Deixou uma carta dizendo que iria buscar minha irmã.

Meu pai, após a morte de mamãe, disse que era o momento de superar os traumas. Ele me mandou para os Estados Unidos fazer intercâmbio. Morei lá por um ano, voltei e terminei o segundo grau. Meu pai me mandou outra vez para o estrangeiro, cursar o curso superior. Direito, obviamente. Lá conheci uma brasileira que também havia ido para estudar. Nos casamos.

O resto não vale a pena contar. É só uma história banal. Dessas iguais aos dos nossos vizinhos. Histórias de felicidade. Histórias sem graça.

domingo, 16 de outubro de 2011

Vida, Dom de Deus


Vida, dom de Deus
Vida? O que é vida?
Vida é um bem impagável e indispensável
A vida é resultado da sabedoria
E da bondade de Deus
Todo ser vivo se manifesta à sua maneira
Essa bondade para sempre infinita
Não fomos nós que criamos a vida
Mas somos nós que destruímos a vida

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Jaú (Parte I)


Meu avô nasceu em 1902, na região de Jaú, interior de São Paulo. Era filho de um produtor de café, um homem inteligente que enviou o filho à cidade de São Paulo para estudar Direito. O rapaz focado e dedicado se tornou um grande jurista de renome, após propiciar contribuições importantes para a criação do Código Penal Brasileiro, em 1940.

Teve quatro filhos. O terceiro, Horácio, foi o meu pai. Seguiu a carreira do meu avô, sendo um excelente jurista. Um homem considerado espelho para o mundo jurídico, assim como o meu avô. Herdou toda a dedicação e foco, toda a vontade de ser um homem respeitado, para  assim manter o nome da família.

Meus pais se casaram, me tiveram e seis anos mais tarde tiveram a minha irmã. Ela era uma criança linda, com todas as feições delicadas que a minha mãe também tinha. Minha mãe, mesmo após duas gravidez, manteve a forma e era uma mulher linda, madura, com o sorriso de felicidade que apenas uma mãe de duas crianças teria. Quando me lembrava da minha mãe e da minha irmã Cecília, eu lembrava Balzac. Minha irmã realmente tinha os olhos de ouro; encantadores como a sua voz, um delicioso canto de rouxinol. Era assim que eu a conseguia definir.

Quando eu tinha 13 anos, nós passamos as férias em Cancun. Era o lugar mais lindo que eu havia conhecido. Estávamos todos felizes e surpresos com aquele mar salgado e com o sol maravilhoso do Caribe. Durante os dias que estávamos lá, eu gostava de passear pela areia com Cecília, sentindo a água bater nos pés. Gostava também de entrar no mar junto com ela, e segurá-la enquanto ela batia as pernas tentando nadar. Era de fato uma sereia.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Tormento


Cruel e infeliz e atormentável e inseparável questão abominável e irritante que interroga e questiona e exclama e pergunta a ideia mista, mútua e cabível que desafia, opera e enfraquece a opinião, a visão, o formato da vida que mais me parece cinema e teatro ou um orfanato, por estarmos aqui sem saber quem somos, para onde vamos, de onde viemos, quem está aqui, quem está lá, o porquê de não estarmos lá, se o lá realmente existe e se a dúvida vale a pena; ou melhor: o que deve fazer valer a pena?

Se uma pena é tão leve... Ter pena é menosprezar? Se uma pena é tão leve...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ingenuidade

Ela não sabe de nada
Ainda acredita em fada
Pediu-me para
Andar mais devagar
Andei que cansei
Fiz o que pude
Tentei salvar
Aquela juventude
Que era perdida
Igual sua vida

Olhando para o céu
Vejo meus sonhos
Rasgados como papel.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Revolta do Ego


Ausente do tráfego. Morremos no dia a dia. Vale mais o silêncio às conversas com animais de duas patas. Vale mais a caneta à enxada. Sou sujo, você também. A diferença é que enquanto você inveja, eu lastimo. Modéstia é hipocrisia, meu amigo.

É melhor reinar entre os idiotas a servir os poderosos? Eu não sei. Eu não quero. Dependência é morte lenta e tortuosa.

Jogo palavras ao vento enquanto o terror anda ao meu lado. Não há outra opção quando se é apenas um mortal. E você? Tem muito medo daquilo que conforta. Pobre miserável. Deveria agradecer por um dia ser aniquilado. É uma generosidade prestada aos semelhantes. 

domingo, 2 de outubro de 2011

Bolha de Sabão

Quando nasci, foi dentro de um furacão
Crianças choram bolhas de vento
Por isso ninguém diz não
Quando quem pede é um pequeno

Queria ser uma bolha de sabão
E voar pelo ar sem cor
E um dia pousar sobre sua mão
Sentir seu tato e seu calor

Demais nunca é muito para o futuro
Os sonhos são poucos dentro da bolha
A vida é uma árvore e enquanto eu durmo
Sonho que caio seco como uma folha

Vamos correr rápido
Por todo o deserto árido
Pois lá na frente há um furacão
E eu quero ver a boreal nascer

Sonhos nunca se vão
Se duvida, um dia você verá
Eu nadar como uma bolha de sabão
Até me explodir no sol
Até me explodir no sol
Você verá!

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo I (Parte II)

Ainda sentado no túmulo, Baobhan pensou que poderia ter sido uma árvore, ou talvez uma chuva. Mas não, ele tinha nascido como pessoa, destinada a nascer e morrer, sem saber o que fazer nesse intervalo de tempo.

Pensou em um homem, com um capuz tapando parte do seu rosto, e um livro preso através de uma corrente nos seus braços. Pensou no que poderia ter escrito ali. Um homem misterioso, que nada dizia a Baobhan, além de sobre portas e corredores, Baobhan andou pelos corredores, e tentava abrir as porta que estavam trancadas. Viu muros e ouviu vozes gritando: “Atravesse seus próprios muros. Escale suas pedras”.  Ele seguiu caminhando e viu uma garota trajada de preto; ela sorria, estava ao lado de uma porta meio aberta. Baobhan colocou a mão na porta e a garota pegou no seu braço e disse: “Espero que você não esteja aqui para descobrir o bem e o mal, abrir os olhos e perceber que você está nu. Espero que você não seja expulso do seu mundo agora. Eu não sou como a víbora e não quero trair você agora. Quero ser sua amiga e fazer um acordo com você mais tarde. Não entre por essa porta, pois não quero que você volte para o lugar do qual veio”.  Baobhan olhava a pequena garota de cabelos e trajes negros, e antes de responder, ou mesmo pensar algo, a garota finalizou a conversa dizendo: “O levarei até o meu irmão mais novo”.

Baobhan, adormecido no túmulo, sonhou com castelos e com uma grande escadaria de nuvens e viu um homem ao longe que lhe acenou. Baobhan abriu os olhos, estava deitado. Le,brou de quando estava sentado e de quando se tronou refém da imaginação, pensando em um homem com um livro acorrentado às mãos.

Sentado no túmulo, pensou ele que havia tomado muita mescalina e que perdera a consciência durante o transe. Levantou-se e sentiu vontade de se sentar novamente. Cambaleando, ele seguiu andando, até se sentir melhor, em condições de continuar, até chegar em casa. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Receita do Nosso Amor

Uma flor eu tiro do meu jardim para lhe entregar, junto com uma fruta do meu pomar, colorida por uma cor do arco-íris.

A faço um chá quente com alguns simples ingredientes: uma colher de alegria, uma outra de esperança, mais duas de amor. Passo no coador para filtrar todo o sentimento mal e as dúvidas que cansam não só o seu coração, mas o meu e de todas as pessoas também. A ofereço uma cadeira de balanço, e uma tarde de chuva fina para você tomar do meu chá e comer a fruta do meu pomar. Por fim, entrego-lhe minha caneta para você escrever letra por letra do seu nome no meu coração. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Amor Infantil

Tenho algo importante para lhe dizer há tempo
Espero conseguir manifestar algo daqui de dentro
Você, seus olhos são transparentes como o vento
Me olham de uma forma que fico parado, atento
Observando-os, pensando se já posso dizer que eu a tenho.

sábado, 24 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo II (Parte II)


Essa história antiga você já conhece, mas não se engane em pensa que foi um erro humano. Isso foi uma necessidade, e posso lhe dizer mais: essa necessidade foi um detalhe que o verdadeiro autor pensou, mas hesitou e não quis escrever, e a ideia sempre morou na sua cabeça.

Ouça-me Baobhan, o horizonte é assim, completo e infinito, e responde a uma necessidade de eternas cadeias de marionetes. O seu olhar fixo no cabelo é o princípio afirmativo do ser. É a configuração do cosmo, a introspecção, a grande arma do homem. O homem, mesmo tolo diante a responsabilidade que tem, é poderoso; pois os deuses servem os homens.

Não se esqueça Baobhan; o verdadeiro autor escreveu uma história. Ele criou o cenário e os personagens. Essa história é o que nós chamamos de vida, mundo, universo. Deus é um narrador, personagem da história. É tão participante do livro como nós. O autor verdadeiro, porém, não é um ser supremo, pois a caneta que está em suas mãos não é controlada por ele. Existem personagens que influencia em tudo. O autor tem o mérito de iniciar a obra, mas não se pode falar em criação ou criador, pois esse não terminou a história. Baobhan, ouça o que há dentro de você. Há eloquência dentro de você”.

A coruja, dado por encerrada a sua fala, decolou no espaço, seguida pelas outras duas. As três se foram, e Baobhan se manteve ali parado por vários minutos, pensando em tudo que ouvira naquela sua alucinação. Se perguntava até onde o episódio havia sido uma alucinação. Tudo que a coruja havia lhe dito, exceto por ter sido uma coruja, fazia sentido. Absolutamente tudo! E por que também o fato de ser uma coruja a dizer? Afinal, é o animal que simboliza a sabedoria.

Baobhan entendeu tudo que foi lhe dito aquele dia, fosse pelos homens ou pela coruja. E tudo fazia sentindo para seus pensamentos. Ele era um homem e seu poder era o seu mundo.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Correnteza

Agora que você se foi
Nós somos deixados a continuar
Pelas noites que parecem duas vezes mais longas
E aqui, dentro do meu coração
Eu não me sinto muito forte
Mas nos encontraremos novamente

No vento eu ouço sua música
Como cada hora que passa

domingo, 18 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo II (Parte I)


Antes de sair do cemitério, Baobhan parou diante de um túmulo que ele não conhecia. Um túmulo azul escuro, em mármore, com flores brancas penduradas. Havia também uma cruz e uma pequena casa como portas de vidros. Não seria isso a chamar atenção de Baobhan naquele lugar.

Ele prestava atenção nas duas corujas que estava pousada sobre a cruz. Uma no centro e outra no braço direito; havia uma terceira, na quina da casinha. As três mantinham o olhar para a esquerda. Baobhan, antes de ir para casa, sentou-se no túmulo da frente para observar as corujas.

As aves permaneciam olhando para a esquerda; olhavam com penetração. Todas em pé, paradas, estáticas, apoiadas em uma única pata. Baobhan colocou-se de pé e imitou a pose dos pássaros. Apoiado em um pé, braços juntos, similar às asas, com o olhar também direcionado para o lado esquerdo. O vento batia nos cabelos negros dele, que esvoaçavam contra seus olhos. Ele, de olhar fixo, mantinha a penetração do olhar ora no horizonte, ora no cabelo, fazendo desfigurar assim ora a imagem do cabelo, ora a do horizonte. “Brincando de pontos de vista, brincando de ser estrábico”, pensou. “Será que as corujas também fazem isso?” se perguntou.

Baobhan ouviu das corujas aqui que se julga ser a revelação. O olhar fixo ao horizonte constitui o princípio da negatividade, do não ser. Foi dito a ele que a razão, para que assim seja, é que o horizonte, ainda que sem dono e enigmático, é influenciado pelo dia e pela noite. Criaturas essas que, na verdade, são mãe e filho. São donos dos horrores do bem e do mal. “O horizonte, desde os primórdios, foi detentor do bem e do mal”, começou a discursar a coruja, “O bem era um paraíso de delícias criado para o homem que estava ali formado. O bem era construído de árvores formosas à vista, e de doces frutas para se comer. No centro do bem do horizonte descia um rio de quatro pernas onde os homens poderiam ver todo o horizonte. Esse, entretanto, é completo, ou ao menos coerente, e mesmo que o ser mais perfeito quisesse impedir, não conseguiria, pois o horizonte é completo e revela ao homem tudo como exatamente é: infinito. E assim, perto da divisão do rio, havia a grande árvore que chamamos de ‘conhecimento’, e o mal foi libertado ali”. 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Esconderijos

As pessoas se escondem nas sombras do dia a dia
Nesses olhos lacrimejantes escondem uma mentira
Na rua mil faces o seduz
Atrás das faces uma caveira lubrificada pela pus

Na criação há uma vara disfarçada de moral
Na infância um domador adestra a criança
A sordidez desprezível despreza a feiura
Decência significa seguir um manual
Como se não fosse a feiura
Como se fosse a beleza

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Minha Vez


Eu não posso mudar esse rosto esmurrado pelas tardes lacrimejantes
Então é agora: finque este punhal no meu peito
Retire-o quando não houver mais receios

Há outros homens no chão
Mas agora foi a minha vez
Onde estão suas mãos?
Arraste pela teia que você fez!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Baobhan - Capítulo I (Parte I)


Baobhan gostava de gatos quando criança, pois os gatos sentiam quando estranhos se aproximavam, e seus pelos, com isso, já demonstravam astúcia. Baobhan olhava os olhos dos gatos e lembrava que apenas um rei pode fitar um gato de frente. “Todos os gatos podem ver futuros e ecos do passado, podem assistir à passagem de criaturas da infinidade do agora, de todos os mundos fracionalmente diferentes dos deles. Os gatos”, continuou ele pensando, “os gatos seguem coisas espectrais com os olhos, e os homens não conseguem enxergar nada”.

Baobhan olhava os olhos do gato e sabia que naqueles olhos poderia encontrar a resposta aos mistérios, que de alguma forma, perturbava os homens. Ele sabia que, por assim sendo, jamais teve coragem de ferir ou tirar a vida de algum gato. Baobhan desviou o olhar do gato, e olhou rapidamente para o céu. Olhou a luz do sol e viu que era boa; pisou no chão com força e viu que a terra era mesmo firme; olhou as gramas brotando da terra. Baobhan ainda permaneceu meio a pensamentos vagos.

Ele gostava daquele lugar; o cemitério era um lugar calmo, que ventava muito, onde ele conseguia refletir sobre todas as ideias que navegavam dentro do seu mundo cheio de portas fechadas; que ele sabia estar fechadas, mas que sabia também, ou ao menos pretendia, poder abrir. Baobhan sabia que isso o levaria ao caminho do infinito.

Percebeu o som do vento se fundindo com o som das árvores balançando e com os sons dos pássaros cantando. “A natureza conversa; ela faz música”, pensou. Pensava também nos ruídos que a língua fazia quando contorcia, o que as pessoas diziam ser comunicação pela língua. “A língua não fala, urge. As bestas não urgem, elas conversam”, disse em voz silenciosa.

Olhou os desenhos formados no céu pelas nuvens. “São móveis como a sociedade. Os desenhos nas nuvens se desfiguram o tempo todo, como as pessoas e a sociedade. Mas as nuvens não perdem a beleza”, e riu nos pensamentos diante o argumento. “E as pessoas não perdem a feiura; nem tudo é completamente móvel!” Retrucou o argumento, agora expondo os dentes diante o sorriso. Olhou outra vez o céu e viu uma sereia com rabo de baleia. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Dores Intensas


Não sentiria dores tão intensas
Em dias diferentes de domingo
De preguiçosas tardes imensas
Que sempre sinto minha cabeça caindo

Enquanto que ela os beija, orgulhosa
Eu, morto, ou quase lá
Não sei...
Só sei rabiscar
Lamentos, fraquezas. Falsa tristeza
Incapaz de ser
Esperando acontecer
Sem coragem de querer.

sábado, 3 de setembro de 2011

Assassino


No meio dessa madrugada solitária
Eu ouço tiros invadindo a escuridão
Os estilhaços cobrem toda a área
A vítima voa para o chão
                                               
Eu apenas vejo o assassino
Limpando o revólver no casaco

O assassino veste as luvas
Amarra o coturno, põe o chapéu.
Eu apenas olho a lua
E conto as estrelas do céu

O assassino senta no banco
Ei você, vire a cabeça e veja:
O assassino é branco
Nós dois estamos na igreja

O assassino está nas avenidas
A pé, ele nota o olhar.
Estou logo atrás da menina
Observo sua cintura rebolar

O assassino entra no carro
Liga o rádio, segura o volante.
Olho atento para os lados
Só preciso de um instante.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Conversas Paralelas


Tempos em tempos. Conversas paralelas, adquiridas pelo ócio do desinteresse. É normal, é autêntico, é da juventude. Planos desolados, ofuscados pela cegueira que o meio causa. O frescor da hereditariedade ainda é sóbrio, decorado pelo sorriso róseo infantil. Como é doce o vinho que nos alimenta. O vigor capaz de esmurrar muros até os tijolos cederem à força. Não há monstros que pode nos deter. Não há realidade disposta a combater os nossos desejos. O mundo é nosso.

Tudo em conversar paralelas, em voz miúda, enquanto o professor esmiúça, com cansaço, conhecimentos desnecessários. Sais minerais, ligações bioquímicas, forças, sintaxes, greves, etc, etc. Não importa, tudo é rotativo. Existe e funciona sem a nossa visão. Toda ciência existe para modificar o que já é naturalmente feito. Desconstrução endiabrada.

E lá na frente, sentados em postura ereta, armados de óculos, papel e caneta, estão os que acreditam biblicamente em tudo que um diplomado fala. Para nós que estamos aqui no fundo, “senta na frente quem tem dificuldades”. Motivo para risos, nada mais. Nós somos engenheiros da vontade, semeadores da suficiência.

É bem verdade que, de tempos em tempos, descobriremos quão tolos fomos e quão ainda somos. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Hei Dáblio


Hei Dáblio, você matou minha mulher.
E sabe por quê? Por que ela não ficou com você
Hei Dáblio, agora você diz ter fé.
Que você não era de Deus quando matou
E que agora que Jesus o tocou
Você se arrepende e fará a obra de Deus.
Mas Dáblio, eu não sou um dos seus.
E você matou minha mulher

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Pesado


Eu queria tirar minha cabeça do corpo
E observá-la latejando por algum tempo
Até ela voltar a ser um órgão de novo
Até toda fumaça sair e ser carregada pelo vento.

Minha cabeça, tão pesada, que quando ando na rua,
Não consigo parar de olhar para baixo
Minhas mãos estão tão sujas
Para essas ideias que não consigo nenhum despacho

Meus pés estão escondidos por que estão gelados
Minha querida os acham maravilhosos
Mas eu a quero quieta, enquanto eu, calado
Encosto nos seus ombros e choro
Até minha cabeça ficar leve.
Ela está tão pesada e eu tão fraco.

domingo, 21 de agosto de 2011

Universo


E aquele homem dizia e continuava a dizer. Um monte de bobagens, pois eu não entendia nada.

O submundo do meu mundo é a minha existência. Meus pais se fundiram e eu sou a fusão, única, singular e solitária. O meu mundo particular é a minha essência. Minha essência é a minha origem.

E assim poderia eu saber onde estou. Todo homem e toda mulher é uma estrela. Somos estrelas que irradiam luz própria para o universo. Somos planetas que expressam conhecimento para o universo. Sei onde estou: estou numa constelação; estou no universo. Estou cercado de luz, ideias, vozes, seres e planetas. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Monte Roraima

Sétimo minuto da noite
Estamos onde precisamos estar
Minutos de violência
Falta muito para parar

O topo forma o altar
Guarda sua lâmina
Estamos longe do lugar
Longe do Monte Roraima

Minutos de violência
Perdendo a inocência

Aqui e ali, camaleões
A anos de nós
A sós, contemplamos
Merecemos minutos de paz

Minutos de violência
Perdendo a inocência
Guarda sua lâmina
Longe, ao longo
Do Monte, Roraima.

O topo formar o altar

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Solidão


Vivo, ajo, reajo com os outros. Mas sobre qualquer circunstância, existo sozinho. Os ícones, mártires, atravessaram os campos de batalhas acompanhados; mas quando foram mutilados, estavam sozinhos. Sensações são experimentadas sozinho.

Quando abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases; isolados em uma única autotranscedência, a fim de formar uma única alma, um único ponto de brilho. Por natureza própria, cada espírito, preso em seu corpo, está condenado a sofrer e gozar em solidão.

Sensações, sentimentos, crenças e fantasias são todos elementos privados. E, a não ser através da arte, feita de símbolos, não podem ser transmitidas diretamente; apenas de forma indireta.

Acumulo informações sobre experiências, mas nunca sobre minhas próprias experiências. Da família à nação, cada homem é uma sociedade de universo solitário. Muito desses universos são, uns aos outros, suficientemente semelhantes para permitir, entre eles, uma compreensão por raciocínio, ou por uma compartilhada projeção de percepção. Assim, recordando-me das minhas próprias dores e humilhações, sou capaz de me colocar no lugar de outra pessoa.