segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Opinião para o Jantar


Trouxe uma opinião para você que encontrei a algumas milhas daqui. Diz ela que não é válido se esconder por tanto tempo; por que tempo enferruja os planos. Não tenho idéia do que falo quando abro a boca, mas tenho uma boa oratória quando fico calado. Por ventura, assemelha-se a mim em tal quesito? Creio que não.

Somos feios por nascença e ferrados por destino. Se ao menos fosse doença, haveria esperança de cura. Se houvesse desculpa, não teríamos culpa. Entretanto, mesmo sem motivos, não temos culpa. Apenas não sabemos justificar o que não tem justificação. E quando não há razão, fica por isso mesmo. Não interessa se é bom ou ruim; apenas mantém.

Não interessaria também a qualidade; o que interessa, de fato, é a quantidade. E se não há chances, paciência.

Trouxe uma opinião para você para o jantar. Quer digeri-la?

sábado, 27 de novembro de 2010

Bilhete


Tenho comentários a tecer
Hoje, nessas escadas de lamúrias
Algo íntimo de você
Lembranças de fúria
Indignas da minha personalidade
Trocadilhos fora da normalidade
Alterado pela estima da sua idade

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Recuperação


Conte as estrelas como elas são
Entre na casa de recuperação
Espere pacientemente pelo apagão
É preciso deitar e descançar
E esperar pelo médico
Ele está no seu lar
Pode até demorar
Mas trará consigo o remédio

Enquanto isso estique o lençol da cama
Se prepare para uma partida de dama
Ou você prefere tomar uma sopa?
Então vista essas roupas
Por que aqui você terá todo o tempo
Deite-se devagar, sem pressa
E escute o ranger do vento
Essa é a nossa única festa

Achou que ninguém o colocaria a mão?
Que suas condenações seriam vãs?
Agora que sabe que está na prisão
Saiba que deixarei sua mente sã.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Selvagem


O que acha de umas palavras soltas que encontrei na selva? Havia uma pedra que dizia para não sentir medo ao removê-la; então me dê aqui uma mão para removermos o empecilho do caminho. Está tão quente aqui. Eu tenho uma solução: tire sua blusa.

Fazer força faz sentir vontade de ter força para empurrar um pouco mais. Estou tremendo um pouco; e o suor escorre pelo corpo.

Faltam algumas milhas e já não me seguro em querer dizer que seus lábios invocam pensamentos promíscuos. Acho que disse desejar tomar banho nas águas salinas do seu corpo.

Cobra à esquerda, lagarto à direta e cachorro ao centro. Estão protegendo o meu retorno. Quando falta pouco é que temos mais vontade. Todos os lados nos aplaudem; então vamos dar um espetáculo.

Seja bem vinda às minhas pernas, com suas tremuras e fibras destroçadas. Estamos enlouquecendo? Cabe mais. Um passo para cá e comece a chorar e gritar bem alto.

Todos os sonhos e espíritos correm para cá; não precisamos de nada além da reciprocidade das carícias. Você me atormenta; eu lhe curo. Você me desperta; eu desespero.

Ensina-me professora; o proveito de errar e o ódio da prudência; o desprezo pela paciência; a sufocar o nexo e espantar o medo. Disciplina-me em promiscuidade e a aceitar a beleza que mora na perfeição da enganação. Dê-me na boca o acalento doce do erro; do que tem sabor de preguiça; daquilo que esnoba a vaidade e enrijece a gula.

Entrega-me os segredos dos artifícios das suas artimanhas que me golpeiam em seqüência. Dê-me um lugar na delicadeza; faça com que um toque sutil pare o temporal que me encharca de fogo.

Somente mais uma vez.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Castelo


Tudo constante, permanece. Às vezes as nuvens se movem e giram; mas o que se espera permanece onde está. Não há pressa. Lembra-se de quando havia fadiga e as preces eram pela calmaria? Mas não há o que seja mais turbulento que a essência da calmaria.

Tem algo para fazer? Então me conte o que é; pois estou com preguiça de descobrir.

As flores se movem como queríamos que movessem. O vento saiu para a caça; e o tempo se mantém propício. Talvez seja correto chorar um pouco por nós. Nenhuma mentira para o dia de hoje?

Bem, hoje eu saí para brincar, como há 50 anos; e me diverti bastante com os acidentes que causei. O que há para se querer mais? Mas tudo não passa de uma grande farsa, já que como você mesmo diz, não há o que se vai, que não volta; exceto a resistência das tragédias. Faz parte do fortalecimento. E do amadurecimento, por que não?

Uma vez vi um castelo e não entrei. Ele se foi.

domingo, 14 de novembro de 2010

Retorno


Então espere o dia encontrar um tempo
Falar palavras para agradar seus ouvidos
Já que a distração é olhar para o vento
Tendo a impressão de estar perdido

Um brinde estréia no espaço
Saindo pelos poros do meu rosto
Agarra-se nos tormentos de um abraço
Se afundando no fundo do poço

Está na hora de ir para trás
Já que traça o horizonte dessa linha vertical
Não importa o que se faz
Começando ou não, acaba no final

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Vítima


É no momento crucial do golpe da redenção que o pavor se apodera do mestre. A curva que se descobre no curso da reta é o sorriso do desespero. Os joelhos se rendem e não o que se possa fazer. Confiança e crença são abatidas como se fossem iniciantes e secundárias; e não a faísca do começo.

Chega. Vou retornar e andar, conforme convém. Isto é, em círculos. Porque todos nasceram para perseguir suas próprias sombras; e domadores não existem no plural. Há apenas um; e ele chegou aqui primeiro que qualquer um de nós. Seu nome é desespero. Desnorteio é a sua arma, enquanto que arrependimento é o conforto que ele oferece; pois ele se dá ao luxo da misericórdia, assim como os deuses.

Portanto, se quer uma sugestão, volte para a sua cela e não saia de lá nunca mais. Exceto se quiser me fazer sorrir.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Reis do Cabaré na Terra dos Golfinhos


Cansado de olhar o rosto alheio e notar uma mentira ambulante querendo me convencer de que estou errado. Cansado de ficar calado, já que quando abro a boca, sou acusado de errado, ignorante, ameaça, fascista. Cansado de decorar idéias das quais não concordo apenas para ser visto com bons olhos; obter méritos e ter chances de progresso.

Cansado de ser encarado como boneco, ser vendido como objeto e carregar o fardo da consciência. Se ao menos fosse cego, não testemunharia a mim mesmo as covardias; mas como não sou idiota, desfruto do meu direito de ficar calado. Cansado de estudar a prostituição; fazendo oferendas de honrarias e observar no semblante alheio o brilho do desejo em tornar-se mais uma prostituta; crendo que carregará a coroa de um rei.

Cansado da repressão à minha natureza humana vingativa, de caráter satisfativo; e com ódio no peito por saber que não sou diferente de ninguém. Por que se ao menos eu fosse, saberia que eu estava errado. Mas não estou; o problema é esse. Cansado de ver a lepra tomar o meu lugar ao sol dos dias, enquanto eu e meus semelhantes precisamos nos ocultar nas trevas, por sermos normais; e por conseqüência, não aceitar a doença e sermos condenados.

Aquele que não for egoísta, que se manifeste agora. Então o que é um homem para censurar outro? Um egoísta também, provavelmente. Qual o direito que este homem tem em me amordaçar?

Cansado de mentir e mentir para evitar o espanto falso no rosto de alguém que mora na terra onde não há nada que o sol não presenciou até então.

Há muito achava que treva era escuridão; mas não. Treva é claridade; por que já não há nada mais claro do que saber que neste circo eu sou o golfinho que brinca com a bola, se escondendo no fundo das águas, depois do espetáculo; e vendo o mérito destinado ao domador.

sábado, 6 de novembro de 2010

Soldados


O que há demais em ficar parado
Enquanto os homens se mantêm calados
E caminham pelo vale desesperados
Vendo que lá de longe vêm os cavalos
Com seus cavaleiros todos armados

O gosto da derrota é sempre pesado
E mesmo que olhe para os lados
A sensação é de estar encurralado

E não adianta querer voltar para trás
Por que vocês são soldados
E dever de soldado é morrer pela paz
Aquele que não carregar o fardo
Morrerá do mesmo jeito, tanto faz

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Olha para cá


O cheiro doce de infância
Os cabelos que esvoaçam pelo vento
Se quer me deu a esperança
Mas eu fiquei parado atento
Com vontade de ser esbarrados pelos seus dedos
E dentro de mim sentindo medo
De ser encarado por aquele olhar meigo

E se ela é tão linda e eu tão feio
O pessimista diria que não há meio
Mas mesmo eu que não sou interesseiro
Tenho meus motivos de qualquer jeito

E não há nada a fazer que eu não tenha feito
Só quero um pedaço do inteiro
E experimentar de olhos fechados um beijo
Que anotei no pedaço de papel que vou lhe entregar
Sugerindo que você olhe para cá