terça-feira, 28 de setembro de 2010

Curinga


Um dia eu poderei comprar
Um par de asas para poder voar
Nessas nuvens que vão confundir
As únicas coisas que sei sentir
Quando não estou neste céu azul
Sentado na cadeira, compondo um blues

Lembrando da cabeleira
De uma garota fugaz
Sendo eu o curinga
E ela o ás

Mas se eu fosse um pássaro
Para mim tanto faz
E se ela fosse um ato
Também tanto faz

Um dia me disseram
Que se eu fizesse um feito
E não surgisse o efeito
Eu teria um defeito
Mas de qualquer jeito
Para mim tanto faz

Por que um dia eu poderei comprar
Um par de asas para poder voar
Nessas nuvens que vão confundir
As únicas coisas que sei sentir
Quando não estou neste céu azul
Sentado na cadeira, compondo um blues

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Legítima Defesa


Saindo do serviço depois de um dia estressante
Pego o primeiro ônibus em direção ao centro
O ônibus voa como uma barata ambulante
Rumando cada vez mais pelo esgoto adentro

Uma parada, pego outro ônibus
Não presto atenção, só se que sigo a viagem
Passo pelo córrego, não presto atenção
Só sei que sinto o odor humano daqui da margem

Chego ao terminal, começo a caminhada
Só penso em chegar em casa, poder banhar
Poder descansar, assistir o noticiário local
Mas não imaginava que antes seria parado por uma viatura policial

Plantaram um revolver na minha pasta
E me acusaram de assalto
Eu disse: “Mas eu só estava trabalhando”
O soldado riu e respondeu:
“Nós também estamos”

Fui interrogado e autuado
Ameaça a integridade física
Ou seja:
Fui morto em legítima defesa

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Drama


É indescritivelmente quente. Um suco gelado cairia bem. Ainda mais sentado numa sombra. Só de pensar, a boca umedeceu. E assim aconteceu. Pediu um suco e de pronto entregou a nota. Logo veio um suco de acerola, que descido pela garganta, fez a cabeça doer, de tão gelado. Mesmo assim, ficou satisfeito; estava regando o deserto do seu bucho.

Bebeu meio litro de suco numa única golada. Quando terminou lambeu os lábios, mas foi interrompido por uma abelha que pousou na ponta do nariz. Afanou com as mãos; o inseto circulou e voltou a pousar na ponta do nariz. Deu um tapa no nariz; os olhos umedeceram e a abelha voltou a pousar no mesmo lugar. Fungou. Não adiantou. Fungou de novo, agora com mais força; o inseto voou para cima e a secreção escorreu para baixo. Uma jovem bela assistia o drama. Até então sorria, mas ao ver a última cena, fez cara de asco.

Duas gotas de suor correram da testa do fadigado. Novamente a abelha estava pousada na ponta do nariz. Permaneceu imóvel, no intuito do inseto perder a graça e abandonar a brincadeira. A abelha começou a andar pelo nariz. Sacudiu a cabeça e em frações de segundos aquele animal demoníaco pousou novamente no nariz. Sentiu calor. A camisa pregou-lhe nas costas. Os sapatos sufocaram os pés.

Estava com a boca entreaberta quando a abelha pousou nos lábios. Num gesto ligeiro abocanhou-a. Ela se debateu nas bochechas por alguns instantes. Parou. Sentiu-se aliviado. Foi interrompido pela ferroada na língua. Instintivamente abriu a boca e a abelha partiu. Afogou o gemido de dor e notou que havia inchado. Mas pensou consigo mesmo que abelhas vão embora depois de agredir. Foi interrompido por zunidos no ouvido. Instintivamente tapou o ouvido. Com receio de outra picada, deixou a abelha sair; que caprichosamente pousou na ponta do nariz.

Engoliu um amargo de aflição. Lembrou-se dos caipiras que usavam insetos voadores como desculpa para justificar o vício do fumo. Sendo assim, acendeu um cigarro. O bicho voou e pousou no cigarro. Tragou com força, na esperança de queimá-la. Quando ia, voltou para o nariz. Continuou fumando e a abelha saiu. Terminou o cigarro e ela voltou.

Balançava a cabeça e ela saia; parava e ela voltava. Sentiu vontade de chorar. Em pensamentos, reclamou da vida pobre que levava, do fracasso intelectual, por não ter família, por duvidar de Deus. Sentiu vontade de morrer, quando enfim uma lágrima escorreu do olho.

Fechou o semblante, e com a astúcia de uma cascavel escorregou o braço para o bolso da calça. E com a fúria de uma águia, levou o isqueiro até o nariz. Ouviu o tilintar agoniante da abelha se queimando. Sentiu o ardor agudo no nariz. Mas ao menos matara o inseto. Olhou o relógio; era hora de voltar ao serviço. Atravessou a rua e foi.

Um companheiro surgiu e quando o olhou, sorriu, dizendo:

_ Bastava me dizer, meu chapa. Não era preciso fazer bico no semáforo. Mas já que quis, nariz de palhaço é vermelho, não roxo.

Abaixou a cabeça para achar uma pedra e tirar o sorriso daquele desgraçado. Ao invés disso, pegou as ferramentas no chão e começou a trabalhar. O outro ainda ria, chamando um colega para ver aquele nariz.

Ao menos matara a abelha, pensou.

domingo, 19 de setembro de 2010

Depois da Sete


Você quer saber o que faço quando acordo
Depois de dormir o dia inteiro
Eu lhe digo: eu não sei
O que faço primeiro

Expressões são movimentos faciais
Gestos são expressões canibais

Quando acordo, olho o espelho
Vejo pares corando de medo
E recordo tudo que disse que lembraria jamais

Mas me esqueço do mais importante
Das lembranças gravadas na instante
Das particularidades de uma mente ignorante

Tomo banho, visto a roupa.
E arranho a voz rouca
De sono permanente

Já não me lembro do dia quente
Que partiu depois da sete.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Enfeites

O vento é gélido. As cortinas esvoaçam como os cabelos da madame que se prepara para o baile. A selvageria é a mesma: a da madame em ser aceita e desejada esta noite, e a do vento em fazer seu serviço de coadjuvante sinistro e aterrorizador, também esta noite. As chamas das velas se cedem ao charme animalesco do vento; a consumação acompanha os orgasmos múltiplos de anseios da madame para esta noite.

Mas esta noite só queremos um pouco de música para os elementos poder dançar. Helmo afinou as duas cordas mais finas do violão, lançou dois ou três acordes que mesclaram ao vento. Tomou um gole vistoso da bebida anil

[...]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Correntes


As vezes há um círculo que me prende
Tranca tudo que tenho em mim mesmo
Apenas sinto que é algo que tende
A me jogar a esmo

Sinto que sou aleijado de entranhas
Incapaz de compreender aquilo que não entendo
Mas vejo sensibilidade em coisas estranhas
Só não sei mais o que estou querendo

Minha cabeça me limita
Meu pensamento é minha cadeia

Celas, grades
Selam a paz
E a liberdade?

sábado, 11 de setembro de 2010

Porcos


Meu pai me disse certa vez: “Os porcos comem tudo que você imagina”. Soou aquele silêncio reflexivo por instantes. “Até bosta?” Questionei. “Sim, até bosta”. “Nossa, porco então... é um animal tão porco. Ouvi a resposta do meu pai: “por isso porco é conhecido por porco”.

Meu pai, hoje um velho, fora um lenhador desde a juventude. Lenhava árvores de dimensões inexistentes nos tempos singulares de hoje. Trabalhava sozinho na construção de uma canoa que ele mesmo desenhara, escaldando troncos numa matinha fechada perto da fazendo que vivia.

Em meio aos dias plurais, houve um especialmente particular. O dia ardia no extremo colosso do calor tropical, e o cansaço sugava o velho de cima para baixo. A fadiga o instigava a jogar o machado no chão e sentar. Punhos dormentes, pernas bambas e consciência bêbada. Olhou sua sombra e notou que ainda estava no primeiro quarto do dia bravo. Parou para tomar o chá de coca e olhou o sol severo. Neste instante, ouviu um sussurro: “caia desgraçado”, acompanhado de um baque nos pulmões.

Respirou fundo, inclinou o corpo para frente, tosse rouca e seca; segurou o machado com firmeza e estalou duas, três, cinco vezes. Ouviu um sorriso tímido. Ignorou e continuou a labuta. Uma rolinha pousou na sua sombra e bicou o chão. O velho parou, olhou para trás e viu o pássaro sair voando.

Percebeu as mãos trêmulas, ignorou, e derrubou a árvore. Continuou o serviço. Viu a mesma rolinha estática em outra árvore e sua boca salivou. Saliva quente. Ignorou e trabalhou brutalmente por horas consecutivas, ouvindo de vez ou outra um sorriso infantil, progredindo para sarcástico.

O machado caiu da mão. Tentou pegar e não conseguiu; o corpo inteiro tremia. Olhou o sol severo e resolveu parar para refeição. Saiu da matinha se arrastando e sentou no banco ao lado da pocilga. Não conseguia comer. Com dificuldades acendeu o fumo e tragou. Começou a transpirar um suor denso e sentiu o mundo girar. Ouviu sons estrebuchados, estranhos. Ouviu os porcos grunhidos no meio da alucinação. Olhou para trás e viu os suínos comerem sua sombra. Os olhos semicerrados se esbugalharam. Um grito agudo esgueirou-se. Soou um silêncio reflexivo por instantes. O velho suspirou e se sentiu saudável.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Purificação

O alumínio do sol brilha essa cidade convertida em papelão de rua. O mesmo papelão que os homens descartam sem hesitar. Os mesmo homens que descartam os afetos que a terra entregou.

Hoje eu vi o vento varrendo da cidade tudo isso que os homens têm, mas que as vistas não distinguem. Vi no dedo de um velho um anel de diamante sugando tudo que o vento carregou.

Ele olhou o céu cinza de decepção e sorriu, por que o olho do sol sangrava uma fonte de água límpida, que é para limpar toda água doente que brota no coração dos homens.

A terra engoliu todo o papelão dessa selva de zinco apodrecido no tétano. E tudo que vi em seguida foram borboletas invadindo apartamentos, bares e cinemas.

domingo, 5 de setembro de 2010

Carolina


Carolina se prepara para sair
Ficou enfurnada em casa o dia inteiro
Está cansada e pensa em se distrair
Não sabe direito o que fará primeiro
Tira a roupa e entra no banheiro
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre o primeiro dia que vi Carolina
Esperei o pai dela sair para passear
E entrei na casa daquela menina
Não a conhecia direito, apenas uns rumores
Que ela saía a noite para tomar cerveja
Com um rapaz que sempre lhe dava flores
Então a vi sentada sobre a mesa
Abotoando os laços dos cabelos
Vi de perfil sua boca cor de cereja
Devo ter sentindo um pouco de receio
Mas creio no íntimo que foi medo
Ou algum impulso nas pontas dos dedos
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre a primeira vez que Carolina me olhou
Eu me colei na parede sem poder notar
Que atrás de mim havia um bangalô
E era uma dessas noites de luar
De verão, que faz certo calor
Talvez seja por isso eu estava vermelho
Foi quando Carolina me olhou
Procurando na verdade um espelho
Ela se espantou, sorriu e perguntou o meu nome
Balbuciei qualquer palavra, sem jeito
E ela entendida, perguntou se eu estava com fome
Disse que sim, e ela me ofereceu uma cadeira
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre a primeira vez que vi Carolina

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Quarto Esbranquiçado


No quarto esbranquiçado, cortinas negras, as estações morrem
Os pastos florescem, pavimentos de asfaltos, grudam no chão
E as crianças, quem será que as socorrem?
Cavalos de prata, nascem flores aonde eles pisam

Cavalgaram sobre minha cabeça
Oh... Agora, outra coisa, esqueça

Tem flores na minha cabeça
E isso é tudo.