sábado, 31 de julho de 2010

Teatro

A lua que caminha sobre a rua
É a mesma que nas noites flutua
Aquela que esconde os pecados
Nos momentos em que nada é errado
Então Cecília estacionou o carro
Pegou da bolsa e acendeu um cigarro

Um homem manco e caolho
Caminhando do outro lado da esquina
Achou que sua desgraça era infinita
Se achou no direito de machucar uma outra
E perguntou a si mesmo: por que não uma menina?

Uma que seja rica
E que seja linda

Magno, o esquisito, tirou um canivete da cintura
Olhou o carro e atravessou a rua
Bateu com as mãos leves na janela
E não olhou a expressão da cara dela
Apenas pensou:

Uma que seja rica
E que seja linda

Eu não quero terminar este conto
Não do ângulo do meu amigo esquisito
Porque se aquele manco não está agora um pouco tonto
Ele vai ficar quando souber o que ela pensa sobre isto

Há algo que você quer ouvir?
Bem...

A lua que caminha sobre a rua
É a mesma que nas noites flutua
Aquela que esconde os pecados
Nos momentos em que nada é errado

Cecília abriu os vidros
E convidou o meu amigo
Para um passeio.
E quando ele a tocou os seios
Aquele caolho não era mais eu.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Manhã Singela


Assopre tudo que há em você para dentro de mim
Há vários mundos vagos lá fora lhe esperando
Talvez precisamos apenas segurar nossas mãos assim
Fechar os olhos e seguir por aí caminhando
Hoje estou bem porque sei que estamos longe do fim
Existem dias que me repito, que me pego sempre olhando
Para livros de histórias velhas, vestidas de cetim

Se há um feito sem tal efeito, surge um defeito
E aí me dizem que sua perfeição me desagrada
Mas não penso muito sobre tudo enquanto não deito
Gosto mesmo de olhar para o nada e esperar uma fada
Que clama nos meus gestos, tímida, sem jeito
Por uma visita, uma palavra bem dita, uma palavra bem falada
Se não faço nada, é por ignorância, sou imperfeito

terça-feira, 27 de julho de 2010

Pássaros


Um pássaro voa e saboreia a liberdade nas alturas, nos ares remotos; desvinculado da noção de tempo e espaço.

O pássaro flutua. Ingênuo, porém soberano. E quando sente fome, bate as asas. E foge de tudo, até não enxergar mais nada. Nada além da plenitude dos ventos, que se confunde com a sua.

Portanto eu lhe digo que o pássaro é cego.

E eu, nesta cela, acendo um cigarro, bebo alguma coisa; talvez assim eu roubo alguma plenitude do ar. Está tudo em minha volta, basta eu deixar a morbidez de lado e fazer. Mas sempre há algo que me amputa.

São tudo cinzas e eu pareço preferir me retalhar à me prevenir.

Talvez seja sono.

Talvez...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Máscaras e Luzes


Abaixe as luzes... Ei, senhor das luzes! Preciso que você abaixe as luzes.

Não estou brincando, é preciso abaixar as luzes. Oras, vamos lá, me faça essa camaradagem.

Bem, preciso acender um antes.

Obrigado. Agora vamos, esta é uma história que não gosto muito de contar, pois nunca mais olhei outra vez os seus olhos. Você imagina o quão fui livre e ilimitado depois de tudo? Só precisei um amigo estranho para conversar comigo, entende? É porque existe um sonho desesperado em nós.

Sente-se aqui ao meu lado, quero sentir o seu hálito. Por instantes demorados.

Qual máscara da sua coleção você usará hoje? Responda-me antes de abrir a porta.

E assim entramos pelo corredor. Há figuras nas paredes.

Criança... Vê aquele lagarto ali se arrastando? Pois é, ele quer falar contigo agora. Alguns assuntos particulares.

Ah minha criança, nos dê uma única chance. E venha até aqui, sente-se de costa para mim. O que vamos fazer já foi regra no passado. Nos tempos em que houve um senhor que quis desfazer tudo, pois conhecia tudo, e sabia que éramos assim mesmo. Mas esse bom velhinho perdeu as estribeiras quando uma loira sentou-se de costas para ele.

O homem perdeu as estribeiras, meu chapa.

Mas vamos continuar nossa história de brincadeirinhas. A garota então se levantou e cenas estranhas acompanharam o passeio. Havia um lago e, quando eu o olhei, vi reflexos nus na água. A pele estava fria.

Então eu tive que acender um antes.

Ei! Agora... Você está no meu lar. Ela andou pelo corredor, encarou uma figura estranha da parede. Abriu a porta, olhou a janela, procurou as luzes e não as acharam. Então ele me pediu fogo.

Você quer fogo querida?

Sim, meu bem. Eu quero fogo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Poema das Línguas


Línguas lindas, mudas
Línguas estranhas, pontudas

Línguas de loucos
Nascem na boca dos outros
Línguas mudanas
São o meu tesouro

Línguas de fogo
Línguas abastecidas de violência
Queimam o meu corpo
Línguas sem prudência

Línguas que caminham pelo pescoço
Causam calafrios na nuca
Línguas que buscam meu almoço
Enquanto a donzela caminha para o nunca

Línguas bastardas fazem filhos em homens
Línguas loucas soletram prazeres
Línguas me chamam aqui
Línguas desocupam os afazeres

Línguas fazem leitura labial
Línguas, línguas..
Línguas curam minhas ínguas

sábado, 17 de julho de 2010

Independência


Imagine! Porque ninguém, nenhum alguém, jamais saberá verdadeiramente o que você imagina.

Esse é o seu maior segredo, a sua arma, o seu poder.

Imagine! Realize seus sonhos mentalmente. Sua imaginação é o seu mundo. Então valorize seu mundo.

Sorria para seu mundo, pois você o controla. Ama seus amados, maltrata seus odiados. Ajoelha e se exalta. Trabalha e dorme. Vive no castelo ou na calçada.

Neste mundo eu tenho minha amada, tenho meu cavalo e minha espada. Neste mundo eu tenho minha princesa. Tenho condição de colocar os melhores frutos sobre a mesa. Posso criar toda felicidade do mundo para afastar a tristeza; sou perpétuo no meu mundo. Crio nele o céu estrelado e o paraíso profundo. Crio o vivo e o defunto. No meu mundo não há vida e morte, azar e sorte.

Terá o gosto do seu calor, o prazer do meu amor. No meu mundo haverá você e eu. Do mesmo formato, sempre apaixonado, sentindo o mesmo amor, da mesma cor.

Imagine! Porque ninguém - nenhum alguém -  jamais saberá verdadeiramente o que você imagina.

Esse é o seu maior segredo, a sua arma, o seu poder.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Intempestivo


As avenidas estão longe daqui
E aqui
Há cadeiras vazias
Você pára, senta e olha
Há olhos que mentem

Há alguém nos subestimando
No escuro da cidade
Mas passando por essa fase
Atacaremos, pois
Estamos nos armando

Os policiais serão presos
E os bandidos assassinados
Por essas crianças que usam o meu fuzil
Me diz, me diz
Qual é o preço do Brasil

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Acomode-se


Já tentou fazer os finais se encaixarem?
A levarei para o único final que conheço
Sei que quando se tenta, várias portas se abrem
Você quer ter um bom fim, não é mesmo?

Sei quem pode nos levar aos lugares
Onde todas as veias se encontram
Quais cores você quer para os mares?
Me diz enquanto minhas mãos os preparam

Nunca rezamos, mas ajoelhe essa noite.
Eu só preciso ouvir alguns sons
Consigo ouvir bem os pássaros
Alguns deles têm certos dons
Agora, estique o seu braço
E não tenha medo do meu açoite

Só quero que você feche os olhos e respire ao mesmo tempo
Enquanto os finais se encaixam dentro de você
"Querida, você se lembra das tardes de domingo de novembro?
Fazia frio e tudo que eu queria era terminar tudo com você"

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Domingo

E hoje o tédio se sentiu em casa dentro de mim. Ele teve companhia, é verdade, de outros amiguinhos seus que as vezes o acompanha, mas que não me faz produzir nada agradável. E há tanto tempo, numa tarde de domingo, eu não tinha aquela sensação de que minhas pernas estavam enterradas no chão; de que as estrelas nascendo no céu no início da noite iriam cair sobre minha cabeça, fazendo tudo pegar fogo e morrer sem deixar memórias.

Tédio e domingo formam um mistura alucinógena. Quando se unem, eu me sinto um raquítico pesando 150 quilos. É tudo tão fraco e tão sensível e ao mesmo tempo tão pesado e tão difícil de alterar. E quando eu olho pela minha janela, sempre olho para a mesma direção. E lembro dos frutos daquela árvore tão simpática.

Bem, hoje foi assim. Eu experimentei essa velha sensação que me abandonou por um bom tempo. Hoje é domingo e em determinado momento do final tarde eu me peguei dizendo: “porra, hoje é um autêntico domingo”.

domingo, 4 de julho de 2010

Homens Bombas


Pegue todas as suas armas e traga todos os seus amigos. As vezes ela se chateia comigo, mas é porque eu prefiro os sorrisos coletivos a um único riso. É por isso que lhe digo para pegar todas as armas e chamar todos os seus amigos. Hoje é um dia de fazer o mundo todo sorrir.

Vamos fazer apenas algumas coisinhas.

Sentem-se aqui, vamos apagar as luzes. Lembra-se daquele jovem que nos disse que com as luzes apagadas nós nos sentimos melhor? Bem, é só um pouco de baixaria.

Se estamos todos juntos aqui, é porque alguém nos contagiou. É difícil chegar em casa após um dia duro e ver que um nobre partiu. Não é tão bom descobrir que somos pouco abençoados e que existe um fantoche pintado de cinza nos fazendo rir todas as tardes.

Por isso seremos homens bombas hoje. Temos algumas cabeças para explodir. Sabe querida, eu vou começar pela minha; e sabe por quê? Seu sorriso me instiga a isso.

Não, não diga nada. Venha, sente-se aqui e se exploda comigo. Temos tempo. Somos apenas um casalzinho esquisito.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cores de uma Canção

Chegará a nossa vez de construir nossa casa com as nossas mãos
Em meio ao um mar azul anil profundo belo e distante
Em meio a uma floresta de árvores protegidas por anciãos
De contrastes verdes protetores formando flores ofuscas e cintilantes

Não me causa comoção morar numa cidade assim tão grande
Aqui a felicidade das pessoas derrete com o fim do dia
Nossos prazeres não se identificam dentro desse presente
Acompanhe-me por essa natureza que é tanto sua como minha

Imagine que o azul da noite expire por nossa vontade
Que o amarelo do dia é fruto da sua felicidade
As cores giram em torno de nós pela beleza do contraste
Aprecie esse seu novo mundo formado por todas as cores
Sinta o sabor de ter uma lua manchada e coberta de flores

Tenho um problema, consegue me identificar?
Consegue poder me ajudar com o ritmo do seu toque?
Adquira uma palavra para que eu possa cantar
Compor para a minha mulher uma bela canção de rock
Com as influências que marca e apodera o seu próprio pensar

Cansei de criar mundos surdos e mudos para a minha mulher
Crio para ela músicas que explicam a explicação do chegar
Excluindo a negação de que o que nos motiva é a fé

Planetas de vozes vociferando seu nome no vácuo do espaço
Pétalas de cordas que a prende, propondo além de palavras
O descanso que se refere aquilo que eu sei que posso e faço
Assim que a pretendo sentir, como frases desarmadas
E se eu fosse escolher um lugar para morrer, escolheria seus braços

Nós vamos contribuir com o amanhecer e com o entardecer
Por sermos os mais belos telespectadores desse ímpeto
Sentados naquele banco antigo e cômodo que tanto adoramos
Que transcorreremos o que chamamos de linha do infinito