quarta-feira, 30 de junho de 2010

Cores de uma Canção

Chegará a nossa vez de construir nossa casa com as nossas mãos
Em meio ao um mar azul anil profundo belo e distante
Em meio a uma floresta de árvores protegidas por anciãos
De contrastes verdes protetores formando flores ofuscas e cintilantes

Não me causa comoção morar numa cidade assim tão grande
Aqui a felicidade das pessoas derrete com o fim do dia
Nossos prazeres não se identificam dentro desse presente
Acompanhe-me por essa natureza que é tanto sua como minha

Imagine que o azul da noite expire por nossa vontade
Que o amarelo do dia é fruto da sua felicidade
As cores giram em torno de nós pela beleza do contraste
Aprecie esse seu novo mundo formado por todas as cores
Sinta o sabor de ter uma Lua manchada e coberta de flores

Tenho um problema, consegue me identificar?
Consegue poder me ajudar com o ritmo do seu toque?
Adquira uma palavra para que eu possa cantar
Compor para a minha mulher uma bela canção de rock
Com as influências que marca e apodera o seu próprio pensar

Cansei de criar mundos surdos e mudos para a minha mulher
Crio para ela músicas que explicam a explicação do chegar
Excluindo a negação de que o que nos motiva é a fé

Planetas de vozes vociferando seu nome no vácuo do espaço
Pétalas de cordas que a prende, propondo além de palavras
O descanso que se refere aquilo que eu sei que posso e faço
Assim que a pretendo sentir, como frases desarmadas
E se eu fosse escolher um lugar para morrer, escolheria seus braços

Nós vamos contribuir com o amanhecer e com o entardecer
Por sermos os mais belos telespectadores desse ímpeto
Sentados naquele banco antigo e cômodo que tanto adoramos
Que transcorreremos o que chamamos de linha do infinito

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Bar do Jaques (Parte II)


O bar do Jaques fica no final de uma ladeira; uma rua morta de asfalto antigo, cravejado em paralelepípedos. Se o bar não existisse, ali seria o fim do bairro. Morto; local que teria a atração apenas dos mendigos, viciados perdidos, ladrões pequenos e prostitutas infectadas. A geografia do lugar era propícia a isso. Jaques foi um homem de incrível visão. Comprou aquele terreno lúgubre e desabitado; comprou por uma ninharia, de tão desvalorizado era. De um lugar como aquele que ele precisava ter para abrir o seu negócio próprio; sua freguesia seria as pessoas interessadas em um refúgio social. O local ideal para elas se desabrocharem, sem medo das fofocas hipócritas de uma sociedade sórdida. Assim, padres ninfomaníacos, policiais que gostavam de transar com homens, professoras apaixonadas em seus alunos, e todo o tipo de gente que queria um pouco de diversão sem usar máscaras eram atraídos àquele bar. Jaques dizia que alguém deveria compreender as pessoas e seria justo cobrar um valor simbolicamente monetário por isso. Se o dinheiro não compra felicidade, Jaques era o cara que vendia o espaço para as pessoas serem felizes.

Como qualquer casa noturna, o dia mais movimentado da semana era sexta feira. O último dia de trabalho para a maioria das pessoas; todos exaustos de manter as aparências. Jaques fazia algo especial para os seus clientes na sexta feira; começava com um show de humor e depois música ao vivo. E nossa bandinha faria o show aquela noite, com sua primeira e única formação no palco, até aquele momento: Pablo, líder, vocalista, guitarrista e robô; Sérgio, baixista e o único verdadeiro músico e compositor do grupo; eu, gaitista e nada mais; e Marques, o nosso baterista altista viciado em crack.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Rei Caronte

Nascido em Sheol, não se sabe em que ano e nem onde
Sabe-se que deram a si o nome de Caronte
Era de costume atravessar a barca pelo rio Aqueronte

Quando era questionado por ser tudo dessa maneira
Ele respondeu: “Somente por isso, acredite
Aqui nesse meu rio não se pesca sereia
E não trabalha nenhum empregado de Afrodite"

Caronte era tão velho, e há tantos anos com aquela missão
Sempre que chegava um novo passageiro recebia sua moeda
E remava com suas antigas forças fumando alcatrão
Seu rio era um grande poço de água rodeado de pedras

Caronte, rei do segundo maior rio do mundo
Caronte, você é um grande filho do barro
Percorre navegando destruindo sonhos oriundos
Faz da morte alheia remadas de um barco

Há boatos que mataram seu pai, mas a verdade está longe disso
Caronte jamais teve rivais, seu Pai é dono de tudo isso
Caronte continue sua navegação pelo Aqueronte
Seu Pai o espera, trazendo mais um de seus filhos

Quando tentaram trair Caronte, ele guardou sua barca
E prometeu a todos cessar o seu trabalho
Deixando todos os enfermos ansiando novas almas
Assim Caronte se tornou um Rei honrado

A guerra estoura ao amanhecer, mas Caronte continua
Ele é perpétuo nessa navegação eufórica
Ele nos disse certa vez que a morte é uma grande amiga sua
É por tanta admiração que ele faz dela a sua Senhora

Caronte disse "Deixe esse lugar para o além
Deixe-o entrar na minha barca para chegar ao seu lugar
Esse lugar vai se tornar algum dia importante para alguém
Será aqui o destino final da minha barca, esse é o nosso lar"

Não há homens aqui perseguindo o velho Caronte
Ele é apenas um serviçal dentro de um grande rio
Quero que o Senhor nos mostre a sua fronte
Por que você é o Pai de Caronte, você é o Senhor
Ele navega há tantos anos trazendo seus escravos
E no nosso mundo falam da senhoria com tanto horror
Eu quero agora enxergar o rosto de quem diz ser o Diabo

Caronte é um velho que trabalha para o velho Hades
Não se sabe desde quando, mas Caronte é filho do pai
Esse segredo está guardado no seu coração trancado a chaves

Não chore, não chore, agora que você está perto de descobrir
Chega a sua hora de navegar pelo rio Aqueronte
Triste infelicidade a sua de ter que logo agora partir
Entre na barca e pague a moeda do Rei Caronte
Ele te levará até o final do rio, sem que você adormeça
Você está navegando sobre sonhos, onde não nada Sereias
É apenas o rio que te leva para o Inferno
Cuidado, não matenha o seu corpo assim tão interno
Caronte é filho e salvador da verdade
Caronte apenas faz o seu dever de levá-lo para Hades.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ambíguo

As coisas são como são
Por que são assim
Não poderiam ser de outro jeito
E caso fossem
De outro jeito seriam
Sendo desse mesmo jeito
Voltando a ser como são
Ou como seriam
Mas não eram.

sábado, 19 de junho de 2010

A Ideia, o Estrago

Quando um homem está no auge de sua fissura sexual, pouco importa a ele dar prazer à sua amante. Tudo o que este homem endiabrado quer é foder sua amante como um cavalo que cruza com uma égua, ou como um cachorro que trepa uma cadela. A mulher, quando também está no auge de sua fissura sexual, quer ser uma égua, ou uma cadela; ela escolhe o seu macho. O macho quer provar para ela que ele é o melhor. O estado natural dos homens e das mulheres. O homem quer foder, a mulher quer ser fodida; e os dois com um pensamento em comum: foda-se o resto do mundo.

Homens e mulheres rangem os dentes e entram em um êxtase simbolizado pelos gritos e gemidos. O suor escorre pelo corpo enquanto que o homem apenas quer penetrar mais fundo; e a mulher ser penetrada até o útero. O som é inexistente; a dor é o maior analgésico: isso também envolve jogos de palavras. As vezes eu gargalho das palavras.

Analgésico.

A melhor transa é feita inconscientemente; é um vulto que o casal se pergunta depois: "o que foi isso?".Não existe jogos e seduções no estado da inconsciência. Existe instinto. O gozo é o grito desesperado da liberdade; e aquele cheiro característico de sexo que se exala no local desde o início da transa, apenas é perceptível depois do sexo. Às vezes nem no final é perceptível.

A paz não tem cor, nem cheiro.

Nagasaki nas minhas entranhas.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bar do Jaques

O sono é um dos caçadores mais virtuosos e o sonho é o seu meio de tortura predileto. Na cama, molhando o lençol com o suor infectado de toxinas. O sono me agoniza o dia inteiro e o auge do seu sadismo é me proibir de lembrar os meus sonhos nefastos. Acho que morri duas vezes hoje: quando deitei e quando sonhei. Mas nesse momento alguém quebrou a vidraça do quarto com uma pedra. Escuto ao longe o grunhido quase insonoro:

- Ei cara! Vamos, já são quase 10 horas.

Quase 10 horas. Deitei-me ainda não eram 5 horas da manhã. E agora já são quase 10 da noite. O sono e o despertar são irmãos siameses. Um enforca até a vítima ter um colapso e desmaiar por toda eternidade; o outro é o anfitrião que recebe sua vítima sem cerimônias, com facadas cirúrgicas por toda a cabeça. Ressuscito após um dia. Imagino Jesus Cristo ressuscitando após três dias. Sinto pena de Jesus.

- Ei cara, você está aí? Você está nos atrasando.

- Estou me calçando.

Essa é a nossa noite. Vamos tocar em um bar movimentado. Foram duas semanas de ensaios. Apenas preciso achar minha gaita. Calço os sapatos, a sola suja de barro. Às vezes, para mim, apenas sair por aí e sujar a sola dos sapatos de barro, molhar a barra das calças, rasgar as mangas da camisa em algum arbusto espinhento, caçar um lobo na floresta, é a solução. Mas eu não sou tão bom, e essa noite é a nossa noite. Temos um show e os rapazes estão esperando por mim.

Tranquei a porta. Mãos ao corrimão.

- Olá cara.

O vizinho do meu quarto. É engraçado como seu olho direito é sempre três vezes maior que o esquerdo. É engraçado como toda a sujeira daquela espelunca se reúne no corrimão. Os rapazes, já impacientes, se apressam a me ver.

- O que estava fazendo? Precisamos passar o som.

Eu não preciso passar som nenhum. Eu toco gaita e apenas preciso de um microfone sem microfonia. Alberto, o garçom do bar onde vamos tocar, já providenciou esse microfone; então eu estou pronto para o nosso show.

- Essa é a nossa oportunidade. O bar é descolado, alguns produtores sempre aparecem por lá nas sextas feiras. Podemos sair de lá com alguma conversa marcada.

Quem disse isso foi Marques, o guitarrista da nossa banda de blues. Marques tinha habilidades para tocar guitarra. O triste era perceber sua semelhança com um robô ao tocar blues. Solos previsíveis, enquanto que blues é improviso. Tudo bem, eu não sou um gaitista virtuoso. E tocar com aqueles caras me fazia bem. Ter uma banda significa conhecer algumas pessoas, ter alguns lugares para tomar uma cerveja, alguém para arranjar uma erva, ter algumas meninas de vez em quando. Em resumo: ter uma vida adolescente aparentemente normal. Eu preciso disso.

O bar do Jack sempre fora movimentado nos fins de semana. Alberto, o garçom, sempre selecionava bandas capazes de fazer uma apresentação minimamente razoável para tocar no bar. É o sonho de qualquer banda iniciante da cidade tocar no bar do Jaques, mesmo a única garantia que se tinha ao tocar no Jaques era ganhar uma caixa de cerveja ao final da apresentação. É claro que tendo grana, é possível dormir com alguma prostituta da casa em um dos quartos que ficava no andar de cima do bar. Antes mesmo de chegar já dava para sentir aquele velho cheiro de sexo. Essa é a nossa primeira apresentação no bar do Jaques
. Nossa quinta apresentação.

domingo, 13 de junho de 2010

Grades da Quinta Rua

O verde do lodo se choca com o cinza do chão
Batido de cimento, com as borras espalhadas
Os mesmos brinquedos dos de dez anos atrás
A mesma criança linda dona de um coração

A lagarta no pé de goiaba - cercado de prédios -
O resto do pomar que a vizinha jogou mal olhado
Isso fazia parte do meu quintal, meu remédio
Os mesmos brinquedos de dez anos atrás, jogados

A gangorra do parque sem ter alguém para sentar
Estava lá, ela no chão, esperando equilíbrio
Eu a enterrando no chão, uma direção alta
A outra baixa, comigo sozinho.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Título Ausente

Aos meus pequenos amigos
Eu escrevo uma obra intitulada
Apenas como texto sem título

Pessoas que tem algum distúrbio
Não entendem que tudo
pode ser, assim como é, ambíguo

Cada vez mais o confuso e o estranho
Muda de maneira muito descontrolada
assim como eu mudo o meu tamanho

terça-feira, 8 de junho de 2010

II Epílogo: A Viagem

Um bom gole daquele líquido azulado e gelado para me aliviar das tensões, por momentos cronologicamente minúsculos, enfaticamente eternizados naquela parada. A cronologia perde o bom senso diante daquele homem chamado Acusador. Outro bom gole daquele veneno azul e gelado, para que eu pudesse apreciar a agonia de uma noite inteira e sentir o término da aflição com o nascente do Sol.

Naquele momento da viagem eu já não mais queria sentir a luz brilhante do Sol exacerbando os meus olhos. Mais tarde eu aprendi que essa mesma luz se traduz como um início que jaz o fim. As Luzes Soam Delírios.

Tudo se passava pela minha mente: a partida, a queda, a generosidade, a partilha, a viagem. Cada quesito desse citado é um capítulo da minha história. Cito a Viagem agora, pois a cronologia perde o bom senso diante daquele homem chamado Acusador.

Lembro quando aquele veículo intenso e denso embarcou; já havia homens embarcados. Era apenas a minha vez de subir, sentar-me próximo à janela e olhar a paisagem selvagem que aquela viagem me proporcionaria. Selvagem é o melhor adjetivo para aquela viagem única. Naquele ônibus não era preciso ceder lugar a velhos, grávidas ou aleijados, pois todos tinham o direito de sentar-se à janela, com o direito sublime de ver toda a paisagem daquela viagem selvagem. Todos ali viviam com seus próprios recursos. Todos tinham o recurso de fazer aquela viagem, bastaria querer.

O ônibus acelerou. Todos calados durante a viagem, todos flutuando em ideias. Como seria chegar lá? Há tanto tempo sonhava com isso, sempre intrigado, questionando todas as fantasias. E o que vejo? Flores vermelhas! É totalmente fantasioso... É
real. Eu presenciei o imaginável que eu questionava. Havia homens e mulheres e deformados a bordo, eu era apenas mais um. Apenas mais um. Como era real, todos eram apenas mais um. Como era real!

A estrada, contraditoriamente como dita nos livros, não era uma descida, embora houvesse sim descidas. Entretanto havia subidas e curvas, e sempre que eu olhava para a janela eu via flores, em sua maioria vermelha; mas às vezes via amarelas, azuis, roxas. O chão era verde. A paisagem, no contexto, era colorida, como o chapéu do motorista. Ele sempre estava sorrindo, mesmo mantendo sua expressão séria. Todos permaneceram calados durante toda a sua viagem. Vários pararam antes de mim. O mais nítido é que cada vez que o motorista parava o ônibus e dizia o nome de quem deveria descer, os olhos dos outros passageiros brilhavam. Todos estavam embriagados com aquela viagem.

Tomei outro gole daquela bebida azul e gelada.

Sempre houve tolos que jamais foram perturbados por não darem-se conta de suas próprias tolices. Eu nunca saberei dizer até quando o mesmo tolo estará afundando nesse poço miserável. O vento dançava lá fora. Naquele mundo os elementos pareciam ser jovens.

Pela primeira e última vez o motorista falou algo além dos nomes dos passageiros que havia chegado ao fim da linha da sua viagem: “Todos dançam ao lado de fora, essa sempre foi a regra”.

domingo, 6 de junho de 2010

Contida Liberdade

Interminavelmente uma mudança aguda
Dentro da minha contida liberdade
Felicidade
Provou não ser imprópria ou fajuta
Ela caminha na minha direção
Eu caminho sobre alguma estação

Dobrando novas avenidas sem entender
Quantas serão precisas para aprender?
Dentro da minha contida liberdade
Felicidade
Provou não ser imprópria ou vagabunda

Tenho fogo caminhando em minhas mãos
Não é preciso provar que não passa de armação
Felicidade
Você me prometeu construir verdades

Não passa de uma noite sentado no telhado
É tudo imaginação, é tudo pensamento
Espero o frio da noite me secar do molhado
Para voltar a dormir no meu quarto.

sábado, 5 de junho de 2010

Refúgio

Não quero fazer você sentir alegria
Tenho a lhe oferecer bem mais que felicidade
Se eu a convidasse para um passeio, você iria?

Vamos navegar nessa barca por toda eternidade
Não sinta medo desse frio profundo
Esse lugar é uma outra realidade
Venha, vamos navegar por esse novo mundo

O paraíso dos sonhos é o nosso abrigo
Aqui não há problemas ou tabus, nada existe
Esse lugar é o meu refúgio e é seu amigo
Um lugar livre de religiões
Onde o nosso pensamento consiste.