quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Quarto Esbranquiçado


No quarto esbranquiçado, cortinas negras, as estações morrem
Os pastos florescem, pavimentos de asfaltos, grudam no chão
E as crianças, quem será que as socorrem?
Cavalos de prata, nascem flores, aonde eles pisam

Cavalgaram sobre minha cabeça
Oh... Agora, outra coisa, esqueça

Tem flores na minha cabeça
E isso é tudo.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Viagem Urbana


Onze e meia da manhã, hora do almoço. Arroz, feijão, carne, rúcula, tomate e suco forte de tamarindo. Como rápido, já estou atrasado. Banho gelado de alguns minutos, dentes escovados em instantes. Visto a roupa e parto com a mochila de guerra nas costas. Vinte minutos de caminhada sob o calor escaldante do sol a pino do cerrado brasileiro, na estação da seca. Seca está minha boca, como ameixa.

O ônibus está cheio, mas no fundo há espaços. Encolho o corpo e caminho atropelando pernas; "Passageiros idiotas que não sabem andar de ônibus". Viagem longa, tão longa quanto a espera no ponto.

Chego ao centro e no céu o sol brilha, soberano. Há de se fazer uns 40 graus neste instante. O ponto é de zinco, e mesmo na sombra acredito estar em uma estufa ao ar livre. O golpe de misericórdia é saber que pagamos por esse sofrimento.

A linha 018 pára e eu entro. Agora sim o verdadeiro espetáculo começa. Consigo contar 32 pessoas em pé. O ônibus está lotado e não pára de entrar gente. Não se distingue mais o calor solar do calor humano. Todos se estorricam; ambiente abafado. O motorista, atrasado e apressado, faz curvas fechadas em altas velocidades. Nos debatemos como leitões em caçambas de caminhões. Lembro novamente que todos pagam por essa viagem; me desperto dos pensamentos ao ver chegando, no ponto que o motorista acabara de parar, um rapaz que estuda na mesma classe que eu. Pobre coitado, perderá a aula.

A viagem segue, minha barba me pinica; minha camiseta está pregada nas costas. Não se respira ar naquele ambiente, apenas calor; e o odor fétido do alho que uma velha carrega.

Enfim, chego ao fim da minha viagem. Com dificuldade desço do ônibus, arrastando comigo a mochilha de guerra. Logo atrás tem outro ônibus, este vazio, que pára para descer o rapaz que estuda comigo. É duro saber que a alguns metros atrás de você não havia sofrimento. É difícil aceitar sofrer sozinho. Mas não penso muito, preciso ir ao banheiro, o tamarindo fizera efeito. Além de tudo, mais essa.

Subo as escadas, em direção à sala de aula; aliviado. Todo mal já passara; perdi metade da aula com essa guerra chamada pegar ônibus, mas ainda há tempo para aprender alguma coisa.

Abro a porta e todos procuram o professor em mim, enquanto procuro o professor na sala.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Desinibida


Voltas pelo parque, a garota anda desinibida
Conversando Paul Sartre, sobre os limites da vida
Estranha os objetos estranhos
São só ovelhas do rebanho
Observa a roda gigante
Apostando aonde irá parar
Lembra de quando foi amante
E sente vontade de descansar

Talvez seja cedo, mas é cedo que mistifica
Não existe medo, só uma vontade desinibida
Um passo a mais não machucará
Apenas a fará lembrar
Dos muros do seu parque
Que fez questão de escalar
E mostrar a sua arte

Voltas pelo parque, a garota anda desinibida

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cotidiano


Um milhão de pessoas cruzam por você todos os dias
E lhe assassina com o mesmo olhar lombriguento
E você é apenas mais um maníaco dessa mania
Apenas mais um homem de terra e de cimento

É como aquela velha brincadeira de assassinar
As crianças jogam com um piscar
Mas você pisca um milhão de vezes todos os dias
Pisca até mesmo para a mulher da sua vida

domingo, 22 de agosto de 2010

Elas e Eu


Então elas chegam. A de lá com uma expressão de lágrimas recém-caídas; de um rosto que propõe uma feição diferente da que a impressão causa. Mas fatos são sempre minuciosos. De nada vale a generalidade das impressões.

Elas sentam, em um único acento. Fatos são fatos; e eu me lembro, orgulhoso, da minha ideia anterior. Uma no colo da outra. Todos olham desconfiados. Em instantes a desconfiança se torna espanto. “O que é isso?” “Não é possível”; é o que consigo ouvir dos cochichos. Já os veteranos daquele ambiente não se espantam mais; já se acostumaram. Apenas o novo causa espanto. Depois que deixa de ser novidade, se torna rotina. E depois tédio. Acredito que é assim, pelo que já vivi. Tédio corrói.

E é o que sinto agora: um belo tédio desafinado.

Faz calor e eu olho observando. Lembro-me de quando tomei o ônibus para vim até aqui. Até os transeuntes dos coletivos são os mesmos; nos mesmos horários.

Volto da minha divagação; a primeira passa a mão nas costas, por dentro da blusa, da outra. “O que é isso?” “Sutiã.” “Aquele que lhe dei?” “Não...” “Para, amor!” Amor? Alguns olham, outros não. Mas todos fingiram não ouvir. Inclusive eu.

As duas são belas, e eu encaro a segunda, a feminina. Apenas para irritar a primeira. Procuro o vinco dos ciumentos no rosto dela. Elas mudam de cadeira; se sentam de costas para mim.

“Você não faz parte deste mundo”. É, não faço. Mas temos gostos em comum.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Profissional


Você acha que é pelo dinheiro. Ter dinheiro é muito bom, com ele eu posso comprar tudo. Com ele eu me sinto um senhor feudal rodeado de servos. Ser senhor nesse século é melhor do que séculos atrás e sabe por quê? Por que os servos de hoje bajulam, além de tudo. Bajulação é algo que apenas o dinheiro compra. Com certeza eu não seria feliz sem o dinheiro; sem minha piscina aos domingos à tarde, sem minha sauna às quintas à noite, sem minhas bebidas finas. Eu se quer seria generoso, se não fosse o dinheiro.

Mas você pode me perguntar sobre a fama. Bem, é claro que eu não faço o meu trabalho apenas pelo dinheiro. Eu também adoro a fama. É uma necessidade ter os meus 15 minutos de fama. Nesse mundo no qual vivemos é inútil sonhar com um autorretrato que envelheça por nós. Não! Podemos ser capas de revistas. As revistas elegem, em suas capas, os novos príncipes do mundo contemporâneo. É o sucesso que me entrega os convites para participações especiais nos cinemas. Para ser sincero com você, é o meu sucesso que seduz as atrizes glamorosas que eu transo. Sou um grande colecionador de transas com mulheres famosas. Isso, é claro, me envaidece. Transar, graças ao dinheiro, com ninfetas fantásticas; gastar milhares em joias legítimas com essas vagabundas é bom. É algo apenas para os poderosos. Mas foder a coelhinha do mês ou a musa da novela das nove é algo apenas para os magníficos.

Isso tudo que eu disse até agora pode ser o suficiente para responder o porquê eu trabalhar com o que trabalho. O luxo, a vaidade, e até mesmo a arrogância, só não são tão sórdidos para aqueles que não possuem. Mas irei lhe perguntar: você gosta de apostas? De jogar? O jogo é a brincadeira dos riscos. Apostar todo o dinheiro batalhado, o sustento de uma família em uma partida, em um cavalo, em uma simples carta. O desejo do perigo, do tudo ou nada, fulmina em nossas entranhas. Eu adoro, sou viciado nisso! Diz se não é gostoso olhar os olhos arregalados de espanto das pessoas em volta? A confiança amedronta as pessoas, e eu me sinto exuberante assim.

Contar-lhe-ei um segredo agora, o porquê, verdadeiro, que escolhi essa profissão. Melhor do que jogar com dados ou cartas é jogar com a vida das pessoas. Perder não passa a ser apenas perder dinheiro, torna-se destruir vidas. No tribunal há uma pessoa que é o centro das atenções e eu sou o único que aposto ao seu favor; sou o único que faz apostas na probabilidade desvalorizada. A arte do meu ofício é nadar contra a maré. Defendo assassinos natos e jogo tão bem que no final da partida ele não é mais culpado. Torna-se vítima do sistema; o mesmo sistema que tenho como vítima preferida.
Eu sou um advogado. Eu nunca perco. Sou um jogador vibrante que embriaga a sociedade com uma jogada esplêndida, isto é, com uma retórica esplêndida.

É claro que tudo isso é bobagem. Tornei-me advogado pela justiça. Ofereço-me para defender aquele é acusado porque acredito que as pessoas nascem boas. Os meios que fazem as pessoas tomar ações impensadas. Essa pessoa, frágil que é, não precisa, como não deve, ser privada. É necessário meios para que ela se inclua na sociedade, contribuindo com a melhoria do bem estar comum. Acredito que todos que sentam no banco dos réus são inocentes até que se provem o contrário. O meu trabalho é apenas materializar esse conceito, e demonstrar claramente para a sociedade.

O ser humano é essencialmente bom.

Publique uma única palavra de tudo que acabei de lhe dizer e lhe mostrarei o homem da sociedade.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Blues da Loucura


Ser ético significa processar pelas vísceras
E quando o poeta esmaga o processo
O que sobra é o resto

O resto do previsível
Jamais será risível
O que eu digo para você, querida
É que a loucura é o exceto

sábado, 14 de agosto de 2010

Observação de um Passageiro


Ônibus é sempre interessante e cansativo ao mesmo tempo. O que o torna mais interessante que cansativo é a disposição do passageiro. Bem certo que quanto maior for o espírito do usuário, menor serão as chances de haver disposição para andar de ônibus. Afinal, ônibus é um bueiro ambulante: abafado, apertado e fedorento.

Ando de ônibus todos os dias; a maioria deles, lotados. As vezes consigo sentar em algum banco suado. O fato que quero contar aconteceu em um dia que eu estava sentado. Sentar é um luxo, mesmo quando espremido por uma gorducha que ocupava três quartos de um banco duplo; maneira pela qual estava eu acomodado, naquela estufa de salgados podres, denominada "transporte" público, naquele dia em que até mesmo os prédios derretiam de calor.

Quero fazer mais uma ponderação. No meu entendimento, pessoas de espíritos fracos gostam de andar de ônibus. Se sentem os donos da ratoeira, embora não passam de ratos. No dia do qual narro, eu prestava atenção na arrogância de uma senhora ao reclamar da arrogância dos passageiros. O sol queimava a minha cara e as palavras da velha queimavam os meus ouvidos. Fechei os olhos e me concentrei no banco claustrofóbico que eu estava sentado. Um grito de alma penada me despertou dos ranços escuros de minha mente.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Navegador Confuso


Adorador das suas coxas
Minha cabeça desliza feito parafuso
Sua libido é diferente das outras
Sua cama me faz navegar para outro mundo

Sonhos perdidos, com faces estranhas
Eu digo o meu nome ao seu ouvido
Com afinco monto suas entranhas
Sou iludido, enquanto você, um anjo perdido

domingo, 8 de agosto de 2010

Poção Estranha


- Aceita um drinque?
- Não posso deixar alguém a sós com um drinque, não é mesmo?
- Eu entenderia como uma desfeita
- Pois bem, o que tem para me oferecer?
- Uma poção... Estranha.

E então eu bebi aquilo que mata tudo que está dentro de mim. Ela é uma bruxa, cheia de problemas, com uma melancolia elétrica. Ela desce fervendo de paixão por mim. Por mim.

- O que você vai fazer?
- Sobre?

Ela se apega em mim, como se eu fosse uma cola. Sou um anestésico. Desconfio que ela tenha vontade de se grudar em mim. Sinto os raios de sol invadindo minha garganta.

- Esqueci de perguntar se posso falar sobre esse assunto contigo.
- Claro que pode.
- Pois bem, semana passada ela me contou algumas coisas. O que você pretende?
- Vamos viajar semana que vem. Tomaremos um cruzeiro. Quando voltarmos, decidiremos.

Ela é um mar conturbado e eu sou um barco pequeno, sem controle. Ela encenou uma peça na última vez, a fim de ignorar qualquer problema que pudéssemos ter. Que tipo de tolo sou eu? Bom, eu perdi as estribeiras.

- Quantos meses?
- Dois e meio, acredito.
- Então é certo.
- Naturalmente.

E quem diria que uma vida inocente destruiria outra. E destruindo a inocência, se destruiria o corpo da perversão. Alguém diria que o amor se resumiria a destruição?

- O que você acha que devo fazer?
- Dê a ela uma poção. Uma poção... Estranha.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Imagens ao Pé da Cadeira


As vezes você quer algo de qualquer jeito
E então cria fantasmas aos seus meios
Buscando sempre alcançar algum efeito
Para acabar com as dúvidas que lhe atormenta

Você se acomoda na primeira cadeira
Procura nos bolsos o seu isqueiro
Olha os outros e ela da mesma maneira
Buscando em seus olhos algum letreiro
Que a faça sentir a única e primeira

Você procura um buraco num pequeno espaço
Evita sons surdos que rangem num único minuto
Mas não cansa de olhar os seus braços
E imaginar cenas de um breve futuro

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ironia da Despedida


Fico admirado como quão irônico o Destino se revela ser em momentos sensíveis.

Hoje, ele, em seus eventuais sermões, dizendo-me coisas repetidas que me fazem vagar em outros pensamentos, soltou-me a seguinte frase: “essa garota, ela logo enjoará de você”.

Algumas horas antes, em outro recinto, não ouvindo sermões, mas sim lamentações, ela, isto é, aquela garota a qual ele se referia, me disse: “acho que até demorou muito, mas você sabe como eu sou e, bem, é, eu enjoei de você sim; mas não quero que você sinta raiva de mim. Apenas aceite”.

O que aprendi; e aceito. Não há mesmo outra alternativa; é o escárnio do Destino. Um ser sádico que gosta de dançar, como um bêbado alegre. Sua música preferida é o choro dos homens.

sábado, 31 de julho de 2010

Teatro

A lua que caminha sobre a rua
É a mesma que nas noites flutua
Aquela que esconde os pecados
Nos momentos em que nada é errado
Então Cecília estacionou o carro
Pegou da bolsa e acendeu um cigarro

Um homem manco e caolho
Caminhando do outro lado da esquina
Achou que sua desgraça era infinita
Se achou no direito de machucar uma outra
E perguntou a si mesmo: por que não uma menina?

Uma que seja rica
E que seja linda

Magno, o esquisito, tirou um canivete da cintura
Olhou o carro e atravessou a rua
Bateu com as mãos leves na janela
E não olhou a expressão da cara dela
Apenas pensou:

Uma que seja rica
E que seja linda

Eu não quero terminar este conto
Não do ângulo do meu amigo esquisito
Porque se aquele manco não está agora um pouco tonto
Ele vai ficar quando souber o que ela pensa sobre isto

Há algo que você quer ouvir?
Bem...

A lua que caminha sobre a rua
É a mesma que nas noites flutua
Aquela que esconde os pecados
Nos momentos em que nada é errado

Cecília abriu os vidros
E convidou o meu amigo
Para um passeio.
E quando ele a tocou os seios
Aquele caolho não era mais eu.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Manhã Singela


Assopre tudo que há em você para dentro de mim
Há vários mundos vagos lá fora lhe esperando
Talvez precisamos apenas segurar nossas mãos assim
Fechar os olhos e seguir por aí caminhando
Hoje estou bem porque sei que estamos longe do fim
Existem dias que me repito, que me pego sempre olhando
Para livros de histórias velhas, vestidas de cetim

Se há um feito sem tal efeito, surge um defeito
E aí me dizem que sua perfeição me desagrada
Mas não penso muito sobre tudo enquanto não deito
Gosto mesmo de olhar para o nada e esperar uma fada
Que clama nos meus gestos, tímida, sem jeito
Por uma visita, uma palavra bem dita, uma palavra bem falada
Se não faço nada, é por ignorância, sou imperfeito

terça-feira, 27 de julho de 2010

Pássaros


Um pássaro voa e saboreia a liberdade nas alturas, nos ares remotos; desvinculado da noção de tempo e espaço.

O pássaro flutua. Ingênuo, porém soberano. E quando sente fome, bate as asas. E foge de tudo, até não enxergar mais nada. Nada além da plenitude dos ventos, que se confunde com a sua.

Portanto eu lhe digo que o pássaro é cego.

E eu, nesta cela, acendo um cigarro, bebo alguma coisa; talvez assim eu roubo alguma plenitude do ar. Está tudo em minha volta, basta eu deixar a morbidez de lado e fazer. Mas sempre há algo que me amputa.

São tudo cinzas e eu pareço preferir me retalhar à me prevenir.

Talvez seja sono.

Talvez...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Máscaras e Luzes


Abaixe as luzes... Ei, senhor das luzes! Preciso que você abaixe as luzes.

Não estou brincando, é preciso abaixar as luzes. Oras, vamos lá, me faça essa camaradagem.

Bem, preciso acender um antes.

Obrigado. Agora vamos, esta é uma história que não gosto muito de contar, pois nunca mais olhei outra vez os seus olhos. Você imagina o quão fui livre e ilimitado depois de tudo? Só precisei um amigo estranho para conversar comigo, entende? É porque existe um sonho desesperado em nós.

Sente-se aqui ao meu lado, quero sentir o seu hálito. Por instantes demorados.

Qual máscara da sua coleção você usará hoje? Responda-me antes de abrir a porta.

E assim entramos pelo corredor. Há figuras nas paredes.

Criança... Vê aquele lagarto ali se arrastando? Pois é, ele quer falar contigo agora. Alguns assuntos particulares.

Ah minha criança, nos dê uma única chance. E venha até aqui, sente-se de costa para mim. O que vamos fazer já foi regra no passado. Nos tempos em que houve um senhor que quis desfazer tudo, pois conhecia tudo, e sabia que éramos assim mesmo. Mas esse bom velhinho perdeu as estribeiras quando uma loira sentou-se de costas para ele.

O homem perdeu as estribeiras, meu chapa.

Mas vamos continuar nossa história de brincadeirinhas. A garota então se levantou e cenas estranhas acompanharam o passeio. Havia um lago e, quando eu o olhei, vi reflexos nus na água. A pele estava fria.

Então eu tive que acender um antes.

Ei! Agora... Você está no meu lar. Ela andou pelo corredor, encarou uma figura estranha da parede. Abriu a porta, olhou a janela, procurou as luzes e não as acharam. Então ele me pediu fogo.

Você quer fogo querida?

Sim, meu bem. Eu quero fogo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Poema das Línguas


Línguas lindas, mudas
Línguas estranhas, pontudas

Línguas de loucos
Nascem na boca dos outros
Línguas mudanas
São o meu tesouro

Línguas de fogo
Línguas abastecidas de violência
Queimam o meu corpo
Línguas sem prudência

Línguas que caminham pelo pescoço
Causam calafrios na nuca
Línguas que buscam meu almoço
Enquanto a donzela caminha para o nunca

Línguas bastardas fazem filhos em homens
Línguas loucas soletram prazeres
Línguas me chamam aqui
Línguas desocupam os afazeres

Línguas fazem leitura labial
Línguas, línguas..
Línguas curam minhas ínguas

sábado, 17 de julho de 2010

Independência


Imagine! Porque ninguém, nenhum alguém, jamais saberá verdadeiramente o que você imagina.

Esse é o seu maior segredo, a sua arma, o seu poder.

Imagine! Realize seus sonhos mentalmente. Sua imaginação é o seu mundo. Então valorize seu mundo.

Sorria para seu mundo, pois você o controla. Ama seus amados, maltrata seus odiados. Ajoelha e se exalta. Trabalha e dorme. Vive no castelo ou na calçada.

Neste mundo eu tenho minha amada, tenho meu cavalo e minha espada. Neste mundo eu tenho minha princesa. Tenho condição de colocar os melhores frutos sobre a mesa. Posso criar toda felicidade do mundo para afastar a tristeza; sou perpétuo no meu mundo. Crio nele o céu estrelado e o paraíso profundo. Crio o vivo e o defunto. No meu mundo não há vida e morte, azar e sorte.

Terá o gosto do seu calor, o prazer do meu amor. No meu mundo haverá você e eu. Do mesmo formato, sempre apaixonado, sentindo o mesmo amor, da mesma cor.

Imagine! Porque ninguém - nenhum alguém -  jamais saberá verdadeiramente o que você imagina.

Esse é o seu maior segredo, a sua arma, o seu poder.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Intempestivo


As avenidas estão longe daqui
E aqui
Há cadeiras vazias
Você pára, senta e olha
Há olhos que mentem

Há alguém nos subestimando
No escuro da cidade
Mas passando por essa fase
Atacaremos, pois
Estamos nos armando

Os policiais serão presos
E os bandidos assassinados
Por essas crianças que usam o meu fuzil
Me diz, me diz
Qual é o preço do Brasil

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Acomode-se


Já tentou fazer os finais se encaixarem?
A levarei para o único final que conheço
Sei que quando se tenta, várias portas se abrem
Você quer ter um bom fim, não é mesmo?

Sei quem pode nos levar aos lugares
Onde todas as veias se encontram
Quais cores você quer para os mares?
Me diz enquanto minhas mãos os preparam

Nunca rezamos, mas ajoelhe essa noite.
Eu só preciso ouvir alguns sons
Consigo ouvir bem os pássaros
Alguns deles têm certos dons
Agora, estique o seu braço
E não tenha medo do meu açoite

Só quero que você feche os olhos e respire ao mesmo tempo
Enquanto os finais se encaixam dentro de você
"Querida, você se lembra das tardes de domingo de novembro?
Fazia frio e tudo que eu queria era terminar tudo com você"

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Domingo

E hoje o tédio se sentiu em casa dentro de mim. Ele teve companhia, é verdade, de outros amiguinhos seus que as vezes o acompanha, mas que não me faz produzir nada agradável. E há tanto tempo, numa tarde de domingo, eu não tinha aquela sensação de que minhas pernas estavam enterradas no chão; de que as estrelas nascendo no céu no início da noite iriam cair sobre minha cabeça, fazendo tudo pegar fogo e morrer sem deixar memórias.

Tédio e domingo formam um mistura alucinógena. Quando se unem, eu me sinto um raquítico pesando 150 quilos. É tudo tão fraco e tão sensível e ao mesmo tempo tão pesado e tão difícil de alterar. E quando eu olho pela minha janela, sempre olho para a mesma direção. E lembro dos frutos daquela árvore tão simpática.

Bem, hoje foi assim. Eu experimentei essa velha sensação que me abandonou por um bom tempo. Hoje é domingo e em determinado momento do final tarde eu me peguei dizendo: “porra, hoje é um autêntico domingo”.

domingo, 4 de julho de 2010

Homens Bombas


Pegue todas as suas armas e traga todos os seus amigos. As vezes ela se chateia comigo, mas é porque eu prefiro os sorrisos coletivos a um único riso. É por isso que lhe digo para pegar todas as armas e chamar todos os seus amigos. Hoje é um dia de fazer o mundo todo sorrir.

Vamos fazer apenas algumas coisinhas.

Sentem-se aqui, vamos apagar as luzes. Lembra-se daquele jovem que nos disse que com as luzes apagadas nós nos sentimos melhor? Bem, é só um pouco de baixaria.

Se estamos todos juntos aqui, é porque alguém nos contagiou. É difícil chegar em casa após um dia duro e ver que um nobre partiu. Não é tão bom descobrir que somos pouco abençoados e que existe um fantoche pintado de cinza nos fazendo rir todas as tardes.

Por isso seremos homens bombas hoje. Temos algumas cabeças para explodir. Sabe querida, eu vou começar pela minha; e sabe por quê? Seu sorriso me instiga a isso.

Não, não diga nada. Venha, sente-se aqui e se exploda comigo. Temos tempo. Somos apenas um casalzinho esquisito.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cores de uma Canção

Chegará a nossa vez de construir nossa casa com as nossas mãos
Em meio ao um mar azul anil profundo belo e distante
Em meio a uma floresta de árvores protegidas por anciãos
De contrastes verdes protetores formando flores ofuscas e cintilantes

Não me causa comoção morar numa cidade assim tão grande
Aqui a felicidade das pessoas derrete com o fim do dia
Nossos prazeres não se identificam dentro desse presente
Acompanhe-me por essa natureza que é tanto sua como minha

Imagine que o azul da noite expire por nossa vontade
Que o amarelo do dia é fruto da sua felicidade
As cores giram em torno de nós pela beleza do contraste
Aprecie esse seu novo mundo formado por todas as cores
Sinta o sabor de ter uma lua manchada e coberta de flores

Tenho um problema, consegue me identificar?
Consegue poder me ajudar com o ritmo do seu toque?
Adquira uma palavra para que eu possa cantar
Compor para a minha mulher uma bela canção de rock
Com as influências que marca e apodera o seu próprio pensar

Cansei de criar mundos surdos e mudos para a minha mulher
Crio para ela músicas que explicam a explicação do chegar
Excluindo a negação de que o que nos motiva é a fé

Planetas de vozes vociferando seu nome no vácuo do espaço
Pétalas de cordas que a prende, propondo além de palavras
O descanso que se refere aquilo que eu sei que posso e faço
Assim que a pretendo sentir, como frases desarmadas
E se eu fosse escolher um lugar para morrer, escolheria seus braços

Nós vamos contribuir com o amanhecer e com o entardecer
Por sermos os mais belos telespectadores desse ímpeto
Sentados naquele banco antigo e cômodo que tanto adoramos
Que transcorreremos o que chamamos de linha do infinito

terça-feira, 29 de junho de 2010

Rei Caronte

Nascido em Sheol, não se sabe em que ano e nem onde
Sabe-se que deram a si o nome de Caronte
Era de costume atravessar a barca pelo rio Aqueronte

Quando era questionado por ser tudo dessa maneira
Ele respondeu: “Somente por isso, acredite
Aqui nesse meu rio não se pesca sereia
E não trabalha nenhum empregado de Afrodite"

Caronte era tão velho e há tantos anos com aquela missão
Sempre que chegava um novo passageiro recebia sua moeda
E remava com suas antigas forças fumando alcatrão
Seu rio era um grande poço de água rodeado de pedras

Caronte, rei do segundo maior rio do mundo
Caronte, você é um grande filho do barro
Percorre navegando destruindo sonhos oriundos
Faz da morte alheia remadas de um barco

Há boatos que mataram seu pai, mas a verdade está longe disso
Caronte jamais teve rivais, seu Pai é dono de tudo isso
Caronte continue sua navegação pelo Aqueronte
Seu Pai o espera, trazendo mais um de seus filhos

Quando tentaram trair Caronte, ele guardou sua barca
E prometeu a todos cessar o seu trabalho
Deixando todos os enfermos ansiando novas almas
Assim Caronte se tornou um Rei honrado

A guerra estoura ao amanhecer, mas Caronte continua
Ele é perpétuo nessa navegação eufórica
Ele nos disse certa vez que a morte é uma grande amiga sua
É por tanta admiração que ele faz dela a sua Senhora

Caronte disse: "deixe esse lugar para o além
Deixe-o entrar na minha barca para chegar ao seu lugar
Esse lugar vai se tornar algum dia importante para alguém
Será aqui o destino final da minha barca, esse é o nosso lar"

Não há homens aqui perseguindo o velho Caronte
Ele é apenas um serviçal dentro de um grande rio
Quero que o Senhor nos mostre a sua fronte
Porque você é o Pai de Caronte, você é o Senhor
Ele navega há tantos anos trazendo seus escravos
E no nosso mundo falam da senhoria com tanto horror
Eu quero agora enxergar o rosto de quem diz ser o Diabo

Caronte é um velho que trabalha para o velho Hades
Não se sabe desde quando, mas Caronte é filho do pai
Esse segredo está guardado no seu coração trancado à chaves

Não chore, não chore, agora que você está perto de descobrir
Chega a sua hora de navegar pelo rio Aqueronte
Triste infelicidade a sua de ter que logo agora partir
Entre na barca e pague a moeda do Rei Caronte
Ele te levará até o final do rio sem que você adormeça
Você está navegando sobre sonhos, onde não nada Sereias
É apenas o rio que te leva para o Inferno
Cuidado, não mantenha o seu corpo assim tão interno
Caronte é filho e salvador da verdade
Caronte apenas faz o seu dever de levá-lo para Hades.

domingo, 27 de junho de 2010

Identidade

Bem, eu sei de tudo. Não há mais nada agora que eu não posso captar. Se lembra daquela tarde ofegante? Certo...

Peço desculpas, mas não havia jeito de ficar quieto. Entenda que eu estava zonzo aquele dia. Acertava todos os alvos; mas os sons, não. É porque os sons me desequilibram.

Agora, quando é manhã, eu sinto sempre tudo da mesma forma. Por que eu fiquei? Jamais apenas um pouco alterado. Não há nada aqui que eu não conheça. Só essa sensação de que agora tudo ficará como deveria.

Não há nada perdido ainda; só sou um labrador farejando os rastros. Sinto falta; mas o que posso dizer? Palavras? Palavras são coisa que se dizem...

É engraçado, não há encruzilhadas me cercando. Me lembro ainda das promessas pactuadas naquele dia. Um dia me esconderei nas suas asas.

Acho que você tem nome de pássaro.

E tudo que tenho é um deus me atacando. Vamos lá, senhor. Uma palavra, um ato. Ou uma gota de sangue. Sempre, sempre; não sei por qual razão, me saboreio observando. O passo, o tom de voz, a leveza do tato, me entende? É claro, não precisa muito para instigar. Já a satisfação se dá pelo ato. Por que sou tão desvirtuado?

Acho que falo demais agora. Esqueço que o mistério é a minha rede.

Adoro palavras, sabe? Já percebeu que palavras tocam? Seja o que for, com as palavras certas, se consegue a vontade. E vontade é tudo que importa, o resto é imperfeito.

Aprenda a conversar, meu camarada. Autobiográfico demais, não acha? Você se sente um pouco desconfiada lendo isso agora? Foi por acaso que você está me lendo agora? Não serei cínico: escrevi para você sim. E é por lhe achar diferente, sabe?

Sou fascinado por diferenças...

A diferença descoberta leva a uma igualdade tão absurda, não acha? Se não entendeu, pense um pouco a respeito. Não quero ser arrogante.

Vamos combinar agora: um dia eu lhe perguntarei a origem do seu nome. Então você entenderá, certo?

Eu sou só uma pessoa que gosta de brincar demais. Não gosto de resolver enigmas, mas me maravilho em criar alguns. E esse não é complicado. A solução é mais óbvia.

Eu não escreveria para você atoa.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Bar do Jaques (Parte II)


O bar do Jaques fica no final de uma ladeira; uma rua morta de asfalto antigo, cravejado em paralelepípedos. Se o bar não existisse, ali seria o fim do bairro. Morto; local que teria a atração apenas dos mendigos, viciados perdidos, ladrões pequenos e prostitutas infectadas. A geografia do lugar era propícia. Jaques foi um homem de incrível visão. Comprou aquele terreno lúgubre e desabitado; comprou por uma ninharia, de tão desvalorizado era. De um lugar como aquele que ele precisava ter para abrir o seu negócio próprio; sua freguesia seria as pessoas interessadas em um refúgio social. O local ideal para elas se desabrocharem, sem medo das fofocas hipócritas de uma sociedade sórdida. Assim, padres ninfomaníacos, policiais que gostavam de transar com homens, professoras apaixonadas em seus alunos e todo o tipo de gente que queria um pouco de diversão sem usar máscaras eram atraídos àquele bar. Jaques dizia que alguém deveria compreender as pessoas e seria justo cobrar um valor simbolicamente monetário por isso. Se o dinheiro não compra felicidade, Jaques era o cara que vendia o espaço para as pessoas serem felizes.

Como qualquer casa noturna, o dia mais movimentado da semana era sexta feira. O último dia de trabalho para a maioria das pessoas; todos exaustos de manter as aparências. Jaques fazia algo especial para os seus clientes na sexta feira; começava com um show de humor e depois música ao vivo. E nossa bandinha faria o show aquela noite, com sua primeira e única formação no palco, até aquele momento: Pablo, líder, vocalista, guitarrista e robô; Sérgio, baixista e o único verdadeiro músico e compositor do grupo; eu, gaitista e nada mais; e Marques, o nosso baterista altista viciado em crack.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ambíguo

As coisas são como são
Porque são assim
Não poderiam ser de outro jeito
E caso fossem
De outro jeito seriam
Sendo desse mesmo jeito
Voltando a ser como são
Ou como seriam
Mas não eram.

sábado, 19 de junho de 2010

Grades da Quinta Rua

O verde do lodo se choca com o cinza do chão
Batido de cimento, com as borras espalhadas
Os mesmos brinquedos de dez anos atrás
A mesma criança linda dona de um coração

A lagarta no pé de goiaba - cercado de prédios -
O resto do pomar que a vizinha jogou mal olhado
Isso fazia parte do meu quintal, meu remédio
Os mesmos brinquedos de dez anos atrás, jogados

A gangorra do parque sem ter alguém para sentar
Estava lá, ela no chão, esperando equilíbrio
Eu a enterrando no chão, uma direção alta
A outra baixa, comigo sozinho.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A Ideia, o Estrago

Quando um homem está no auge de sua fissura sexual, pouco importa a ele dar prazer à sua amante. Tudo o que este homem endiabrado quer é foder sua amante como um cavalo que cruza com uma égua, ou como um cachorro que trepa uma cadela. A mulher, quando também está no auge de sua fissura sexual, quer ser uma égua, ou uma cadela; ela escolhe o seu macho. O macho quer provar para ela que ele é o melhor. O estado natural dos homens e das mulheres. O homem quer foder, a mulher quer ser fodida; e os dois com um pensamento em comum: foda-se o resto do mundo.

Homens e mulheres rangem os dentes e entram em um êxtase simbolizado pelos gritos e gemidos. O suor escorre pelo corpo enquanto que o homem apenas quer penetrar mais fundo; e a mulher ser penetrada até o útero. O som é inexistente; a dor é o maior analgésico: isso também envolve jogos de palavras. As vezes eu gargalho das palavras.

Analgésico.

A melhor transa é feita inconscientemente; é um vulto que o casal se pergunta depois: "o que foi isso?". Não existe jogos e seduções no estado da inconsciência. Existe instinto. O gozo é o grito desesperado da liberdade; e aquele cheiro característico de sexo que se exala no local desde o início da transa, apenas é perceptível depois do sexo. As vezes sequer no final é perceptível.

A paz não tem cor, nem cheiro.

Nagasaki nas minhas entranhas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Título Ausente

Aos meus pequenos amigos
Eu escrevo uma obra intitulada
Apenas como texto sem título

Pessoas que tem algum distúrbio
Não entendem que tudo
pode ser, assim como é, ambíguo

Cada vez mais o confuso e o estranho
Muda de maneira muito descontrolada
assim como eu mudo o meu tamanho

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Bar do Jaques

O sono é um dos caçadores mais virtuosos e o sonho é o seu meio de tortura predileto. Na cama, molhando o lençol com o suor infectado de toxinas. O sono me agoniza o dia inteiro e o auge do seu sadismo é me proibir de lembrar os meus sonhos nefastos. Acho que morri duas vezes hoje: quando deitei e quando sonhei. Nesse momento alguém quebrou a vidraça do quarto com uma pedra. Escuto ao longe o grunhido quase insonoro:

- Ei cara! Vamos, já são quase 10 horas.

Quase 10 horas. Deitei-me ainda não eram 5 horas da manhã. E agora já são quase 10 da noite. O sono e o despertar são irmãos siameses. Um enforca a vítima até que ela tenha um colapso e desmaie por toda eternidade; o outro é o anfitrião que recebe sua vítima sem cerimônias, com facadas cirúrgicas por toda a cabeça.

Ressuscito após um dia.

Imagino Jesus Cristo ressuscitando após três dias.

Sinto pena de Jesus.

- Ei cara, você está aí? Você está nos atrasando.

- Estou me calçando.

Essa é a nossa noite. Vamos tocar em um bar movimentado. Foram duas semanas de ensaios. Apenas preciso achar minha gaita. Calço os sapatos, a sola suja de barro. As vezes, para mim, apenas sair por aí e sujar a sola dos sapatos de barro, molhar a barra das calças, rasgar as mangas da camisa em algum arbusto espinhento, caçar um lobo na floresta, é a solução. Mas eu não sou tão bom, e essa noite é a nossa noite. Temos um show e os moleques estão esperando por mim.

Tranquei a porta. Mãos ao corrimão.

- Olá, cara.

O vizinho do meu quarto. É engraçado como seu olho direito é sempre três vezes maior que o esquerdo. É engraçado como toda a sujeira daquela espelunca se reúne no corrimão. Os moleques, já impacientes, se apressam a me ver.

- O que estava fazendo? Precisamos passar o som.

Eu não preciso passar som nenhum. Eu toco gaita e apenas preciso de um microfone sem microfonia. Alberto, o garçom do bar onde vamos tocar, já providenciou esse microfone; então eu estou pronto para o nosso show.

- Essa é a nossa oportunidade. O bar é bacana, alguns produtores sempre aparecem por lá nas sextas feiras. Podemos sair de lá com alguma conversa marcada.

Quem disse isso foi Marques, o guitarrista da nossa banda de blues. Marques tinha habilidades para tocar guitarra. O triste era perceber sua semelhança com um robô ao tocar blues. Solos previsíveis. Tudo bem, eu não sou um gaitista virtuoso. E tocar com aqueles caras me fazia bem. Ter uma banda significa conhecer algumas pessoas, ter alguns lugares para tomar uma cerveja, alguém para arranjar uma erva, ter algumas meninas de vez em quando. Em resumo: ter uma vida adolescente aparentemente normal. Eu preciso disso.

O bar do Jaques sempre fora movimentado nos fins de semana. Alberto, o garçom, sempre selecionava bandas capazes de fazer uma apresentação minimamente razoável para tocar no bar. É o sonho de qualquer banda iniciante da cidade tocar no bar do Jaques, mesmo a única garantia que se tinha ao tocar no Jaques era ganhar uma caixa de cerveja ao final da apresentação. É claro que tendo grana, é possível dormir com alguma prostituta da casa em um dos quartos que ficava no andar de cima do bar. Antes mesmo de chegar já dava para sentir aquele velho cheiro de sexo. Essa é a nossa primeira apresentação no bar do Jaques. Nossa quinta apresentação.

terça-feira, 8 de junho de 2010

II Epílogo: A Viagem

Um bom gole daquele líquido azulado e gelado para me aliviar das tensões, por momentos cronologicamente minúsculos, enfaticamente eternizados naquela parada. A cronologia perde o bom senso diante daquele homem chamado Acusador. Outro bom gole daquele veneno azul e gelado, para que eu pudesse apreciar a agonia de uma noite inteira e sentir o término da aflição com o nascente do sol.

Naquele momento da viagem eu já não mais queria sentir a luz brilhante do sol exacerbando os meus olhos. Mais tarde eu aprendi que essa mesma luz se traduz como um início que jaz o fim. As luzes soam delírios.

Tudo se passava pela minha mente: a partida, a queda, a generosidade, a partilha, a viagem. Cada quesito desse citado é um capítulo da minha história. Cito a viagem agora, pois a cronologia perde o bom senso diante daquele homem chamado Acusador.

Lembro quando aquele veículo intenso e denso embarcou; já havia homens embarcados. Era apenas a minha vez de subir, sentar-me próximo à janela e olhar a paisagem selvagem que aquela viagem me proporcionaria. Selvagem é o melhor adjetivo para aquela viagem única. Naquele ônibus não era preciso ceder lugar a velhos, grávidas ou aleijados, pois todos tinham o direito de sentar-se à janela, com o direito sublime de ver toda a paisagem daquela viagem selvagem. Todos ali viviam com seus próprios recursos. Todos tinham o recurso de fazer aquela viagem, bastaria querer.

O ônibus acelerou. Todos calados durante a viagem, todos flutuando em ideias. Como seria chegar lá? Há tanto tempo sonhava com isso, sempre intrigado, questionando todas as fantasias. E o que vejo? Flores vermelhas! É totalmente fantasioso... É real. Eu presenciei o imaginável que eu questionava. Havia homens e mulheres e deformados a bordo, eu era apenas mais um. Apenas mais um. Como era real, todos eram apenas mais um. Como era real!

A estrada, contraditoriamente como dita nos livros, não era uma descida, embora houvesse sim descidas. Entretanto havia subidas e curvas, e sempre que eu olhava para a janela eu via flores, em sua maioria vermelhas; mas às vezes via amarelas, azuis, roxas. O chão era verde. A paisagem, no contexto, era colorida, como o chapéu do motorista. Ele sempre estava sorrindo, mesmo mantendo sua expressão séria. Todos permaneceram calados durante toda a sua viagem. Vários pararam antes de mim. O mais nítido é que cada vez que o motorista parava o ônibus e dizia o nome de quem deveria descer, os olhos dos outros passageiros brilhavam. Todos estavam embriagados com aquela viagem.

Tomei outro gole daquela bebida azul e gelada.

Sempre houve tolos que jamais foram perturbados por não darem-se conta de suas próprias tolices. Eu nunca saberei dizer até quando o mesmo tolo estará afundando nesse poço miserável. O vento dançava lá fora. Naquele mundo os elementos pareciam ser jovens.

Pela primeira e última vez o motorista falou algo além dos nomes dos passageiros que havia chegado ao fim da linha da sua viagem: “todos dançam ao lado de fora, essa sempre foi a regra”.

sábado, 5 de junho de 2010

Contida Liberdade

Interminavelmente, uma mudança aguda
Dentro da minha contida liberdade
Felicidade
Provou não ser imprópria ou fajuta
Ela caminha na minha direção
Eu caminho sobre alguma estação

Dobrando novas avenidas sem entender
Quantas serão precisas para aprender?
Dentro da minha contida liberdade
Felicidade
Provou não ser imprópria ou vagabunda

Tenho fogo caminhando em minhas mãos
Não é preciso provar que não passa de armação
Felicidade
Você me prometeu construir verdades

Não passa de uma noite sentado no telhado
É tudo imaginação, é tudo pensamento
Espero o frio da noite me secar do molhado
Para voltar a dormir no meu quarto.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Refúgio

Não quero fazer você sentir alegria
Tenho a lhe oferecer bem mais que felicidade
Se eu a convidasse para um passeio, você iria?

Vamos navegar nessa barca por toda eternidade
Não sinta medo desse frio profundo
Esse lugar é uma outra realidade
Venha, vamos navegar por esse novo mundo

O paraíso dos sonhos é o nosso abrigo
Aqui não há problemas ou tabus, nada existe
Esse lugar é o meu refúgio e é seu amigo
Um lugar livre de religiões
Onde o nosso pensamento consiste.

domingo, 30 de maio de 2010

I Epílogo: O Trato

Primeira linha do Tratado sobre o Trato: o trato aguça.

Segunda linha: o trato desperta.

"Pois bem, meu caro, sei que veio das mais longes terras para falar comigo; afinal, moro nas terras mais distantes. Sente-se, camarada. Quer uma donzela? Não? Não aceito a recusa de um bom vinho. Eis o sangue de Cristo. Bafore um pouco o cachimbo.".

Terceira linha: o trato seduz.

"É claro que cada um vive com seus próprios recursos. Eu sou sensível o bastante para perceber que você se esconde sob o seu manto, mas à noite você desaba suas fraquezas no travesseiro. Sua lágrima é a única fonte de água para regar o seu jardim.".

Ele, enigmático, continua:

"O cachimbo está bom? Bem, eu gostaria muito contar a minha história. Na minha versão, é claro. Mas seria falta de delicadeza contigo; você veio até mim para eu lhe ajudar. Se sente melhor agora?".

Quarta linha sobre o trato: o trato é poético:

"A primeira, digamos, percepção que o senhor deve ter é a de que a sua vida é uma sinfonia. Existe um maestro, que ainda não é você. Você ser o maestro faz parte do nosso acordo; o que eu quero que o senhor entenda agora é que você deve deixar as flautas flutuarem sobre a sua alma, e os violinos a violarem. Essa é a parte mais importante."

Quinta linha: o trato é um caçador:

"Uma vez um miserável disse a outro, gargalhando de embriaguez: 'você está furioso? Oh.. Você é apenas mais um rato engaiolado'. Esse miserável entendeu o trato. Eu quero que o senhor pense sobre isso. Deixarei você sozinho.".

Sexta linha sobre o trato: O trato liberta.

"Pois vejo que o senhor ainda está aqui. Uma última frase e você entenderá o trato: 'luzes soam delírios.'"

O viajante diz: "senhor, o verdadeiro trato não é libertino."

O Sábio sorri sereno.

Sétima linha do Tratado sobre o Trato: o trato se firma.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Eumicela - I Carta

Poderia novamente escrever sobre sexo, mas meu estomago dói e, enfim.

Eu só preciso de um fim. De um leutono, de um bom leutono; é tudo que eu preciso. Tudo certo. Você simplesmente fode comigo a todo instante. Fode e fode; ela não resiste. Eu tento ou, bem... Tento tentar.

Sozinho; já se sentiu assim, Eumicela? Você nasceu sozinho, meu nobre cowboy, e o meu corpo é grande demais para nós. Nunca fizemos nada. Nem tudo, nem nada; nem mesmo a pobre Zurrapa.

Bem, sem delongas: problemas! Você de novo, meu nobre cowboy... E agora? Vamos deslizar sobre a maré, vamos nadar sobre a lua?

Foda-se tudo, nós precisamos continuar com isto.

Precisamos, mas o barco está em chamas. E agora?

Ou você se decepciona, ou você decepciona. E a culpa não é a sua. Você não fez nada, você não está errado; apenas descobriu o descoberto que ninguém ainda descobriu, mas que um dia será descoberto. E agora? Maravilhado e confuso? Não... Náuseas e confusões. "Isso não é problema seu". De quem seria?

Maldição...

E agora?

Eumicela, um pouco mais, por favor. Venha cá meu amigo, sente-se. O que faço? Há quanto tempo não faço essa pergunta? Hein, madame Satã... O que faço?

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Simpatia

Tenho a atenção dessa simpatia como não tinha antes
Posso algo com essa simpatia, ainda descubro
Se no passado éramos apenas figurantes
Hoje somos aquilo que sonhávamos para o futuro

Presenciando essa simpatia, meus sonhos refletem você
Agora que você olha os meus olhos, sou mais do mesmo
Presenciando sua simpatia, eu posso explodir e viver
Sem tantos animais em volta procurando me deixar preso

Vivendo essa simpatia, prometo ser realidade
Posso algo com essa simpatia, ainda descubro
Um grão de areia que se perde sobre a verdade
Transformando-se naquilo que sonhávamos para o futuro

Os papeis montam e demonstram o que pode acontecer
Deixando flutuar aquilo tudo que eu já sentia
E é tudo isso aqui escrito somente para você
Ainda descubro que posso algo com essa simpatia

sábado, 22 de maio de 2010

Chamas de um Anjo

Eu cheguei nesse lugar estranho não tem uma hora direito
Eu olhei em volta e vi que eu estava correndo perigo
Onde está aquela garota que declamava no meu ouvido no banheiro?
Será que ela era mesmo uma moça ou apenas um anjo perdido?

Ela era uma moça aquele domingo à tarde em direção ao meu copo
Estava ela mesma chateada ou eu com algum pensamento remoto?
Eu caminhava em sua direção enquanto percebia seu olhar erótico

Vamos hoje fazer coisas que até então eram desconhecidas
E não será apenas seu cabelo cor de fogo que terá essa característica
A impressão que eu tenho é que seu corpo está coberto de chamas, querida

O nosso leito está agora todo coberto pelo fogo
E não há nada para provar sobre minhas palavras
Porque você sabe que não sou nenhum mentiroso
E eu sei o porquê das suas mágoas

Imagine que isso seja uma viagem e que estejamos com o pé na estrada.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Rádio 4:36

Boa noite, demônios! São 4:36 e vocês ainda tem alguns instantes até o momento em que o sol queimará a todos. Ninguém aqui ainda sentiu a pele formigar em uma chama de fogo.

É apenas mais uma noite de muita droga: todos vocês tem olhos de cocaína; e os seus balanços são de aloprados anfetaminados.

Bando de escrotos, são o que vocês são!

Berra saxofone; berra tal ao chamado que clama seus filhos escuros. Terrible Nix.

Bom... Nessa noite apenas uma pergunta a vocês, meus espectadores adorados: vocês me vêem batendo?

Ah! E é claro também, deixarei uma frase: a linha nunca mente..."She doesn't lie, she doesn't lie…"

Fiquem com Deus.

Gargalhadas. Ecoam...

domingo, 16 de maio de 2010

Passeio

Um bom gole de veneno para agonizar a noite inteira e sentir o término da aflição com o nascente do sol, com a luz brilhante exacerbando meus olhos. Como no início que jaz o fim: a partida, a queda, a generosidade, a partilha, a viagem.

Agora, diante da embarcação, onde não é necessário ceder o lugar para os idosos, pois todos têm direito de sentar-se à janela, com o direito sublime de ver toda a paisagem da viagem. Todos calados durante a viagem, todos flutuando em idéias. Suspiros...

Flores vermelhas! Fantasioso, real. Há homens e mulheres e deformados a bordo, eu sou apenas mais um. Apenas mais um. É real, todos aqui são apenas mais um. É real. Olhares...

A estrada - contraditoriamente como falado - não é uma descida, embora haja sim descidas. Há, contudo, subidas e curvas, e sempre que olho para a janela vejo flores vermelhas. As vezes amarelas, azuis, roxas.

O chão é verde. É colorido, como o chapéu do motorista. Ele sempre está sorrindo, mesmo mantendo sua expressão séria. Todos permanecem calados. Há olhos que brilham. Sempre houveram tolos que jamais foram perturbados por não se darem conta de suas próprias tolices. O vento dança lá fora...

Todos dançam do lado de fora, essa sempre foi a regra...

É apenas mais uma noite, apenas mais uma declaração de delírio. Amanhã, quando o nascente do sol se levantar, estaremos bem.

Eu prometo, eu prometo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Desejo

Se um dia eu pudesse ver os seus segredos
Eu os costuraria com agulha de tecer
Nuvens cinzas que parem relampejos
Até um novo sol nascer
De dentro dos seus beijos

Desejo, desejo
O desejo é livre
De você, inclusive

Suas mãos dedilham como uma aranha
Anestesiada no próprio veneno
Mãos de loucos fazem façanhas
Dissolvem suas tristezas no tolueno

Meus dedos são dormentes, elétricos
Caminham pelo vento sem o meu comando
Perseguem, por instinto, seu corpo tétrico
Encontram os seus desejos de grunhidos fanhos

terça-feira, 11 de maio de 2010

Conduza-me

Ela dança como se a terra estivesse chacoalhando. E na verdade o chão está mesmo tremendo. O céu também treme, pois olho os prédios e os vejo dançando ao luar. Enquanto isso, as metamorfoses das árvores pairam lá fora. E tudo que ela faz aqui dentro é dançar; dançar até os músculos de suas coxas fermentarem o ácido da dor.

Noto que cada vez que sua cintura requebra, uma cerâmica do chão se espedaça; e os meus olhos bambeiam com aquele tilintar sensual. Digo que estou embriagado com a leveza destruidora daquela dançarina.

As batidas da música soam progressivamente mais fortes; talvez no ritmo do meu desejo, ou talvez não tanto. Sei que ela dança se aproximando de mim, porque a cada segundo morto sua boca aveludada adquire mais vida; e me parece sempre mais saborosa. Então eu penso que talvez seja interessante matar alguns segundos.

Agora ela está rente a mim, a uma distância mínima; assim como eu, que estou no limiar da minha sanidade. O relógio na parede diz que já matamos muito tempo. Ela não tem pressa, apenas seduz o terremoto com sua cintura.

Ela mantém a coluna ereta; e apoia seu joelho no dorso da minha coxa. Ela se equilibra com as mãos nos meus ombros. Em um gesto provocante ela sugere que eu sinta o cheiro da sua pele. Ela não deixa que eu a toque; que somente eu seja tocado. Seu joelho escorrega pelo lado de fora da minha coxa, e sinto seu busto aproximar dos meus olhos. Uma mordida nos lábios me escapa. Talvez seja a última partícula de sanidade fugindo de mim.

Envolva seu cabelo ao redor da minha pele.

Ela se encaixa com perfeição em mim. Montada em mim, sentado. Ela segura o meu queixo e diz perto de mim - sinto o hálito quente formigar na minha boca: “agora... Vamos nos destruir, meu bem”.