quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Epifania


Corcéis que vagam possuem olhos como o açafrão do tombo do nosso desalento em ter que enfrentar mais algumas horas imortais até termos, outra vez, a nossa chance de desfrutar dos, sempre, virgens sonhos. A cada palavra cuspida, um mesmo discurso você proclama. Ora, minhas proclamações são humanas; suas divagações, limitadas.

Quanto fracasso nos cerca nessa proposta sem ritmo de planejar vontades castradas pela própria discórdia. Não se pode cansar da mesma epopeia, enquanto esta não transbordar as coleiras tão mesquinhas que afrontam os traumas. Emoções desaguam em medos, como afirma aquele que se diz ser cientista.

Creio que não chegará um dia, mas apenas um momento; daqueles que mil almas vivem por mil anos à espera, infrutiferamente; em que possamos, talvez sem a companhia devida, descobrir as razões das motivações que nos induz. Pois mesmo sem a esperança, apenas viver já é esperar. Não somos tão péssimos assim; apenas respeitadores e, talvez intimamente, admiradores dos ardis da tragédia.

Um choro sempre será mais completo que um sorriso.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Necessidade


Primaveras sombrias assustam minha alma.
Meus anjos, com flechas fincadas no peito
Vomitam o sangue rosado nas minhas palmas.
Preciso de flores velhas que ouçam os meus segredos

Um raio de luz enfeixado se finca na minha cabeça,
Adentra-se pela minha garganta e corre pelas minhas veias.
E dentro das minhas veias, meu sangue se torna luz.
E dentro do meu corpo, meu sangue se torna pus.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Promessas: Extorsões


Terráqueos! Nada atingirá suas armaduras de bronze; pois eu plantei a luz das vitórias em seus elmos. Ataquem com toda gana. Há um deus os protegendo; enquanto que do outro lado do campo há somente a piedade para confortar os inimigos. Não sejamos piedosos, entretanto. Esfolem os esquartejadores de suas esposas e filhos!

_ Eles mataram cruelmente nossas famílias?

Não, mas se vocês não fizerem o que eu vos digo, eu mesmo trucidarei seus entes! A
batalha é o meu jogo e eu não meço consequências pela vitória.

Depressa! Quero ver os fracos tombarem e os cruéis sobressaírem!

Alcoviteiro de Emoções


Eu roubei o seu ódio para mim; pois tudo que eu queria era que você sentisse algo por mim. O meu sonho era ver você vermelha ao me olhar; que você mostrasse os dentes ao ver uma fotografia minha. Escutar os seus gemidos quando percebesse a minha presença.

Minha maior ambição era saber que você tem desejos guardados apenas para mim.
Sentir ia-me importante saber que manifesto sentimentos em você. Olharia o mundo diferente se soubesse que você me olha diferente. Choraria se soubesse que você chora pela minha existência.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Honesto


Há uma conta para pagar
E o agiota fez a cobrança
Eu que não sabia o que dar
Entreguei minha infância

O homem partiu sem sorrir
Recusou quando disse para entrar
Disse que deveria ir
Tinha outros para cobrar

Confesso que entrei feliz
Não por ele não ter aceitado
Mas por que tudo estava ali:
Minha TV e o meu dinheiro

Não é duro perder o que não se conquista
Nem aquilo que não faz parte do meu ser
Poderia ter feito uma lista
E entregar para ele escolher

Mas era um homem sensato
Ou apenas um homem do mercado
Ou percebeu que não era errado
Ver um ladrão ser ludibriado

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Eu


A mão quente que entrou por dentro da sua blusa e congelou seus sentidos; a observação que lhe fez desviar o olhar e entortar os dizeres; a água que esquentou seu corpo. Sou o ato da surpresa.

O devaneio dos veraneios pelas veredas; o romper das barreiras do pensar; a mão por debaixo da saia. Sou a mecânica da ânsia.

O desvio do caminho; o pensar solitário; a cegueira do esquecimento. Sou o olho da gula.

A fuga sem intenção; o golpe que não foi contido; a mão que rasgou o vestido. Sou os dedos da ira.

O ódio pelo irmão; a vergonha de ter que ser; a comodidade da aceitação. Sou a normalidade da inveja.

O joelho que não beija o chão; a dor que não grita; o amor que não suplica. Sou os punhos do orgulho.

O vento que seca; o tempo que corrói; sonhos que se cansam. Sou tudo em um

domingo, 12 de dezembro de 2010

Fatos e Reflexões


Nada a dizer sobre o que deveria, por méritos, acontecer. Não é fácil aceitar que ao longe acontece o que teria de acontecer aqui perto; enquanto que aqui permanece o que deveria estar bem longe.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Pelo Perdão


Acabei de pagar os meus pecados.
O homem disse que estaria perdoado
Se eu desse umas notas e centavos.
Não sabia que a túnica custava uns trocados
Se soubesse, já teria comprado.

Mas é vivendo e aprendendo.
O homem disse que todos os sábados
Eu terei, garantido, o meu acento.
Basta eu deixar o cheque assinado
Que terei o melhor lugar reservado.

Arrependo-me de ser ateu.
Serei um homem generoso
Por que se é vontade de Deus
Não sai caro por a mão no bolso.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Erros são Plurais


Você nunca olhou para trás
E sentiu em paz
Pelo que fez.
Sempre errou demais
Ou nunca fez mais
Do que ser por um mês.

Mesmo sem saber quando
Terá chegado a hora.
Um aviso vindo de um anjo
Olhando pela janela da sua porta
Dizendo que o momento é agora.

O que terá plantado?
Por que você tem uma colheita
Ou vai ficar calado
E aceitar todas as baboseiras?

Por que eu aceitei
E será que é justo
Saber o que eu sei
E ter que entregar tudo?

Entender o aprendizado
É saber que tudo é certo.
O que é errado
Deixa de ser no concreto.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Rendição


Há algo que faz efeito em mim quando saio para andar atoa. Só percebo quando já estou alterado; e noto quando olho para os lados e não distingo onde estou e o que estou fazendo.

Sinto uma fumigação nas pernas todas as noites, em um mesmo lugar. Um especialista disse-me que devo deixar fluir. Eu tenho a sensação que quando flui, eu alimento os meus desejos. O que acontece são coisas horrendas.

É alguém que dobra os meus joelhos e me aplica algum estímulo. Quando volto a olhar para frente, o futuro se descobre dos lençóis; por que eu sei o que vai acontecer. Isso me faz sorrir.

Nunca deixo algo passar quando estou rendido.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Nada para Você


Nada para você
Tudo para mim
É assim que penso
É assim que faço

Você quer
Eu também quero
E quando eu quero
Eu não divido

Mas se você chorar
Talvez, eu não prometo
Eu posso entregar

Nada para você
Tudo para mim
É assim que penso
É assim que faço

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Opinião para o Jantar


Trouxe uma opinião para você que encontrei a algumas milhas daqui. Diz ela que não é válido se esconder por tanto tempo; por que tempo enferruja os planos. Não tenho idéia do que falo quando abro a boca, mas tenho uma boa oratória quando fico calado. Por ventura, assemelha-se a mim em tal quesito? Creio que não.

Somos feios por nascença e ferrados por destino. Se ao menos fosse doença, haveria esperança de cura. Se houvesse desculpa, não teríamos culpa. Entretanto, mesmo sem motivos, não temos culpa. Apenas não sabemos justificar o que não tem justificação. E quando não há razão, fica por isso mesmo. Não interessa se é bom ou ruim; apenas mantém.

Não interessaria também a qualidade; o que interessa, de fato, é a quantidade. E se não há chances, paciência.

Trouxe uma opinião para você para o jantar. Quer digeri-la?

sábado, 27 de novembro de 2010

Bilhete


Tenho comentários a tecer
Hoje, nessas escadas de lamúrias
Algo íntimo de você
Lembranças de fúria
Indignas da minha personalidade
Trocadilhos fora da normalidade
Alterado pela estima da sua idade

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Recuperação


Conte as estrelas como elas são
Entre na casa de recuperação
Espere pacientemente pelo apagão
É preciso deitar e descançar
E esperar pelo médico
Ele está no seu lar
Pode até demorar
Mas trará consigo o remédio

Enquanto isso estique o lençol da cama
Se prepare para uma partida de dama
Ou você prefere tomar uma sopa?
Então vista essas roupas
Por que aqui você terá todo o tempo
Deite-se devagar, sem pressa
E escute o ranger do vento
Essa é a nossa única festa

Achou que ninguém o colocaria a mão?
Que suas condenações seriam vãs?
Agora que sabe que está na prisão
Saiba que deixarei sua mente sã.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Selvagem


O que acha de umas palavras soltas que encontrei na selva? Havia uma pedra que dizia para não sentir medo ao removê-la; então me dê aqui uma mão para removermos o empecilho do caminho. Está tão quente aqui. Eu tenho uma solução: tire sua blusa.

Fazer força faz sentir vontade de ter força para empurrar um pouco mais. Estou tremendo um pouco; e o suor escorre pelo corpo.

Faltam algumas milhas e já não me seguro em querer dizer que seus lábios invocam pensamentos promíscuos. Acho que disse desejar tomar banho nas águas salinas do seu corpo.

Cobra à esquerda, lagarto à direta e cachorro ao centro. Estão protegendo o meu retorno. Quando falta pouco é que temos mais vontade. Todos os lados nos aplaudem; então vamos dar um espetáculo.

Seja bem vinda às minhas pernas, com suas tremuras e fibras destroçadas. Estamos enlouquecendo? Cabe mais. Um passo para cá e comece a chorar e gritar bem alto.

Todos os sonhos e espíritos correm para cá; não precisamos de nada além da reciprocidade das carícias. Você me atormenta; eu lhe curo. Você me desperta; eu desespero.

Ensina-me professora; o proveito de errar e o ódio da prudência; o desprezo pela paciência; a sufocar o nexo e espantar o medo. Disciplina-me em promiscuidade e a aceitar a beleza que mora na perfeição da enganação. Dê-me na boca o acalento doce do erro; do que tem sabor de preguiça; daquilo que esnoba a vaidade e enrijece a gula.

Entrega-me os segredos dos artifícios das suas artimanhas que me golpeiam em seqüência. Dê-me um lugar na delicadeza; faça com que um toque sutil pare o temporal que me encharca de fogo.

Somente mais uma vez.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Castelo


Tudo constante, permanece. Às vezes as nuvens se movem e giram; mas o que se espera permanece onde está. Não há pressa. Lembra-se de quando havia fadiga e as preces eram pela calmaria? Mas não há o que seja mais turbulento que a essência da calmaria.

Tem algo para fazer? Então me conte o que é; pois estou com preguiça de descobrir.

As flores se movem como queríamos que movessem. O vento saiu para a caça; e o tempo se mantém propício. Talvez seja correto chorar um pouco por nós. Nenhuma mentira para o dia de hoje?

Bem, hoje eu saí para brincar, como há 50 anos; e me diverti bastante com os acidentes que causei. O que há para se querer mais? Mas tudo não passa de uma grande farsa, já que como você mesmo diz, não há o que se vai, que não volta; exceto a resistência das tragédias. Faz parte do fortalecimento. E do amadurecimento, por que não?

Uma vez vi um castelo e não entrei. Ele se foi.

domingo, 14 de novembro de 2010

Retorno


Então espere o dia encontrar um tempo
Falar palavras para agradar seus ouvidos
Já que a distração é olhar para o vento
Tendo a impressão de estar perdido

Um brinde estréia no espaço
Saindo pelos poros do meu rosto
Agarra-se nos tormentos de um abraço
Se afundando no fundo do poço

Está na hora de ir para trás
Já que traça o horizonte dessa linha vertical
Não importa o que se faz
Começando ou não, acaba no final

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Vítima


É no momento crucial do golpe da redenção que o pavor se apodera do mestre. A curva que se descobre no curso da reta é o sorriso do desespero. Os joelhos se rendem e não o que se possa fazer. Confiança e crença são abatidas como se fossem iniciantes e secundárias; e não a faísca do começo.

Chega. Vou retornar e andar, conforme convém. Isto é, em círculos. Porque todos nasceram para perseguir suas próprias sombras; e domadores não existem no plural. Há apenas um; e ele chegou aqui primeiro que qualquer um de nós. Seu nome é desespero. Desnorteio é a sua arma, enquanto que arrependimento é o conforto que ele oferece; pois ele se dá ao luxo da misericórdia, assim como os deuses.

Portanto, se quer uma sugestão, volte para a sua cela e não saia de lá nunca mais. Exceto se quiser me fazer sorrir.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Reis do Cabaré na Terra dos Golfinhos


Cansado de olhar o rosto alheio e notar uma mentira ambulante querendo me convencer de que estou errado. Cansado de ficar calado, já que quando abro a boca, sou acusado de errado, ignorante, ameaça, fascista. Cansado de decorar idéias das quais não concordo apenas para ser visto com bons olhos; obter méritos e ter chances de progresso.

Cansado de ser encarado como boneco, ser vendido como objeto e carregar o fardo da consciência. Se ao menos fosse cego, não testemunharia a mim mesmo as covardias; mas como não sou idiota, desfruto do meu direito de ficar calado. Cansado de estudar a prostituição; fazendo oferendas de honrarias e observar no semblante alheio o brilho do desejo em tornar-se mais uma prostituta; crendo que carregará a coroa de um rei.

Cansado da repressão à minha natureza humana vingativa, de caráter satisfativo; e com ódio no peito por saber que não sou diferente de ninguém. Por que se ao menos eu fosse, saberia que eu estava errado. Mas não estou; o problema é esse. Cansado de ver a lepra tomar o meu lugar ao sol dos dias, enquanto eu e meus semelhantes precisamos nos ocultar nas trevas, por sermos normais; e por conseqüência, não aceitar a doença e sermos condenados.

Aquele que não for egoísta, que se manifeste agora. Então o que é um homem para censurar outro? Um egoísta também, provavelmente. Qual o direito que este homem tem em me amordaçar?

Cansado de mentir e mentir para evitar o espanto falso no rosto de alguém que mora na terra onde não há nada que o sol não presenciou até então.

Há muito achava que treva era escuridão; mas não. Treva é claridade; por que já não há nada mais claro do que saber que neste circo eu sou o golfinho que brinca com a bola, se escondendo no fundo das águas, depois do espetáculo; e vendo o mérito destinado ao domador.

sábado, 6 de novembro de 2010

Soldados


O que há demais em ficar parado
Enquanto os homens se mantêm calados
E caminham pelo vale desesperados
Vendo que lá de longe vêm os cavalos
Com seus cavaleiros todos armados

O gosto da derrota é sempre pesado
E mesmo que olhe para os lados
A sensação é de estar encurralado

E não adianta querer voltar para trás
Por que vocês são soldados
E dever de soldado é morrer pela paz
Aquele que não carregar o fardo
Morrerá do mesmo jeito, tanto faz

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Olha para cá


O cheiro doce de infância
Os cabelos que esvoaçam pelo vento
Se quer me deu a esperança
Mas eu fiquei parado atento
Com vontade de ser esbarrados pelos seus dedos
E dentro de mim sentindo medo
De ser encarado por aquele olhar meigo

E se ela é tão linda e eu tão feio
O pessimista diria que não há meio
Mas mesmo eu que não sou interesseiro
Tenho meus motivos de qualquer jeito

E não há nada a fazer que eu não tenha feito
Só quero um pedaço do inteiro
E experimentar de olhos fechados um beijo
Que anotei no pedaço de papel que vou lhe entregar
Sugerindo que você olhe para cá

domingo, 31 de outubro de 2010

Águas Mágicas


A água que agride a rocha, sob o olhar do sol, reflete os meus desejos que destino à natureza violenta do acaso, que me espera na espreita da quina com o punhal na mão, na ânsia de pegar minha visão desprotegida. O perigo está no instante; no piscar; na fadiga.

As ondas que mergulham para casa, quando encontra o escudo astucioso da cautela, refletem o anseio que meus medos sentem quando anestesio o desespero que me angustia. A precaução tomba no esquecimento; na confiança; na alegria.

A piscina seduz pelo manto vibrante que oculta o receio de se perder no escuro que amedronta o passageiro. A ilusão está nos olhos; no sorriso; estampado no rosto.

O segredo da mágica é o óbvio.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Passado Afogado


Lembra-se do prazer em destruir
Das vozes estridentes e alegres
Dos sonhos que constituí
Lembra-se da vida leve?

Quando a mentira era um exercício
Nada era deles, tudo era seu.
Lembro-me de tudo isso
E você por acaso se esqueceu?

Lembra-se do fogo que consumimos
Em homenagem aos ídolos?
Você guarda as lembranças
Que não nos deixa perdidos?

E se hoje ainda existe um passado
Ou ele está esquecido
Ou está a passeio
E o que se tem guardado
É um olhar esquisito
Para as injúrias deste meio

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Expedição


Não há tempo a se perder e muitos lugares para conhecer. Sou pequeno nessa dimensão, mas atravessei desertos inteiros atrás de um tesouro que vi uma única vez na vida. E subi nas torres e montanhas mais altas para ter uma visão panorâmica.

Enxerguei a essência do infinito, mas fracassei na minha expedição. E foi de um penhasco medonho que pensei em voar atrás daquilo que sonho desde que me ceguei diante deslumbrante flagelo.

Morei em tocas, árvores e ocas; e descobri fontes brutas de diamante; mas aquele brilho sem cor eu não vi. Resisti aos tremores do fundo dos oceanos e à escassez de alimentos das terras de gelo.

sábado, 23 de outubro de 2010

Trovoadas


O trovão caiu
Em mais alguma cabeça
E o aviso do circo
É para que você se proteja

Hoje vai ser perigoso
Os monstros fugirão
As autoridades perguntaram
Aonde os monstros irão

Tem um na minha casa
Ele está com a minha mulher
Me mandou entrar em uma cova rasa
E orar com toda a minha fé

Ninguém está armado
Ninguém foi amado
Ninguém se defende
O monstro me rende

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Rito


Pegue pela mão seu primogênito e único filho. Leve-o até o pico da montanha mais alta que seus olhos distinguem. Seu filho lhe faz bem; ele também me fará, por que não somos diferentes. E se somos, você é pior; por que eu me entrego aos meus filhos, e você faz com que eles se entreguem a você; portanto, não insinue que sou cruel, uma vez que somos, todos, aves de rapina.

Não se esqueça, é um sacrifício para a glória!

Vamos meu filho, me mostre sua mão. Mostre-me qualquer coisa. Está longe para dizer demais. Quão suave são suas mãos. Devagar; pois o prazer está na tortura.

Então eu fechei os olhos e tirei a batina; e coloquei cada caroço do meu instrumento na boca do jovem. Vamos fazer uma prece.

Um homem lá de longe disse que não se deve pedir com oração antes de construir um santuário; um lugar para que possamos nos esconder. Só assim poderemos fazer qualquer coisa ou preparar qualquer oferenda para aquela garota que nos distribui ordens em troca de desejos sinceramente humanos.

Antes de qualquer coisa, contar-lhe-ei sobre as catacumbas que escondem os rios onde devemos banhar juntos; que é para nos limparmos dessa moral que você carrega no seu coração.

Qual número você carrega? Se não for o mesmo que carrego, você não será bem vindo ao nosso rito.

Espere; estou falando demais sem me dar conta de que agora você já está bem interessado em saber o que lhe tenho a mostrar. Mas você consegue enxergar este leão que lhe fala, agora, sem línguas estranhas? O que ele diz é que você não tem nada a saber; somente a fazer.

Ajoelhe-se e pergunte o que é preciso ser feito; então eu lhe direi.

Esperança é o mal que eu temo. Se livre dela e faça agora como os outros estão fazendo.

Glória! Glória!

domingo, 17 de outubro de 2010

Olhos Fechados


Pisa no chão sem desconfiar da queda
Monta o animal sem saber onde ele o leva
Fecha os olhos e imagina um futuro
Não vê a cara que bate contra o muro

A estrada que corre é feita de pedregulhos
Lamenta-se e balbucia murmúrios
Mas pisa no chão sem desconfiar da queda
E monta o animal sem saber onde ele o leva

Enxerga ao longe o olho da fera
E não vê que aqui um monstro lhe espera
Insiste em manter os olhos fechados
Traça a corrida gritando o nome de Deus
Mas se tem algum temor, é do Diabo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Manifesto pela Democracia


Eu e um milhão de irmãos queríamos conhecer o seu rosto e tocar a sua mão. Derrubamos árvores com os próprios punhos e começamos a erguer um edifício em direção ao seu castelo. Ardemos no calor e nos cegamos com o gelo que respingou nos olhos. Encaramos com desafio à nossa ambição. Persistimos e imaginamos que seríamos mais honrados com as provações vencidas.

Com a queda de tantos irmãos, achávamos que nos transformaríamos em cavalheiros sagrados, e numa concepção posterior, formaríamos um conselho no qual um de nós seria designado um ministro; seu braço direito.

Diante a visão do grande paraíso e à imagem dos confins do mundo, sentaríamos em círculo e discutiríamos o seu sucessor; numa legítima democracia entre homens semelhantes em imagem.

Já que ainda me ouve, olho o espaço para lamuriar da injustiça que foi cometida. Com tirania alterou nossas falas, e sem poder nos comunicar, não foi possível mais unirmos forças e sabedoria. Tornamos-nos isolados, como náufragos, torturados, sem poder dizer nada às nossas esposas, filhos e irmãos.

Indago o porquê de tamanha crueldade com os seus semelhantes; qual a razão de nos submeter a escravos e não ser generoso por não querer dividir as infinitudes do paraíso

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Galo


A mobilidade é restrita pelo calcanhar a partir do momento em que uma mão desconhecida o puxa pela cabeça. A única reclamação é o choro que eles dizem ser primordial para a vida. Se você está aqui, como qualquer idiota, você chorou.

E se houve alguma ligação fraterna, ela foi cortada. Anos mais tarde, o hospício fez questão de podar a simbolização. O que se encontra são gritos por ajuda enlatados nas retinas das outras vítimas dessa tortura chamada mentira. Vadiagem e fidalguia se baseiam no mesmo conceito de mentira, apartados por direção. Vadio mente para os outros; fidalgo, para si mesmo.

Quando saí do hospício encontrei um galo cantando; e bombas ecoaram nas nuvens. Coloquei em prática tudo que aprendi: levei a mão à cabeça, encolhi o corpo e despistei obstáculos.

Um profeta na esquina cantava que há algo não se pode enganar; e há algo que nos espera quando não há de se esperar. Então, essas datas premeditadas são falsas. Descobrir mentiras prontas é fácil; difícil é saber onde não encontra-las.

Os olhos petrificados de um galo eu vi, certa manhã, quando saí do hospício, e ele cantou. Bombas ecoaram nas nuvens.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Amor aos Animais


Três passos confusos
Foi a ordem que dei para o mundo
Tomar os litros de água preta
E deixar tudo para trás na sarjeta

E quando voltar aleijados
Todos devem rezar o hino da bandeira
E não devem se esquecer
Que terão vida nova na próxima segunda-feira

Agora que domesticamos o terror
Vamos invadir o mundo
E explorar os animais em nome do amor

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Clemência


Ajoelhou-se, fechou os olhos, juntou as mãos. Esqueceu-se dos tormentos e entrou na janela dos olhos de quem não vê. Guardou as perguntas que sustentaram o massacre e se entregou.

Fez a renúncia e sentiu a chuva chovendo. Contorceu-se e não pediu nada. Olhou as mãos e viu decadência. Cortou o pulso e sentiu dor. Abraçou as sandálias do mestre e sentiu a mão pousando na sua cabeça. A língua dançou, a alma chorou e o veneno virou pedra. Pagou pela agonia que causou. Sentiu sede e os joelhos derretendo; extirpou os desejos.

Levantou a cabeça e viu os olhos dourados. Pediu clemência.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Duelo do Som e do Silêncio


Um silêncio que corre para esse lugar
Vacila no canto do lado de lá
Rasgado ao meio por um assovio
Uma linha contínua como linha de fio
Tropeça e cai no meio do entulho
Perde a honra com o barulho

Agoniza-se no meio das ruas
Corta volta e entra na curva
A procura de uma paisagem nua
E bate a cara em quinas turvas
Entra em uma sala escura
E ouve uma voz pedindo que durma

Adentra a uma vereda a esmo
Reconhece o som de si mesmo
Descobre um planalto imenso
Assiste ao duelo entre o som e o silêncio

sábado, 2 de outubro de 2010

A Um Amigo de Guerra


Um grande amigo de guerra comemora um feito de longevidade hoje. Várias batalhas travadas neste campo astucioso. Perdemos algumas, é verdade. Perdemos várias, a maioria, na grande realidade. Mas a maior de todas continuamos vencendo: mesmo que perdendo a moral diariamente, tomando tapas na cara. Estamos sobrevivendo; e isso é o mais importante de qualquer guerra; por que este é o objetivo de qualquer guerra.

Há golpes mais doloridos que outros. O que mais dói é aquele que vem de um irmão de guerra. Eu esbofeteei a cara do meu companheiro de guerra, sem remorsos. E aprendi a lição mais primorosa que se pode aprender em uma guerra: não há golpe para o qual não exista um revide.

E depois do contra golpe, eu me levantei; abracei o meu amigo e pedi desculpas. Estamos juntos outras vez; e como sempre descobrindo campos de batalha cada vez mais tenebrosos. E um dia cairemos, juntos é claro; mas antes, daremos um tapa surdo no monstro que nos vencerá.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Curinga


Um dia eu poderei comprar
Um par de asas para poder voar
Nessas nuvens que vão confundir
As únicas coisas que sei sentir
Quando não estou neste céu azul
Sentado na cadeira, compondo um blues

Lembrando da cabeleira
De uma garota fugaz
Sendo eu o curinga
E ela o ás

Mas se eu fosse um pássaro
Para mim tanto faz
E se ela fosse um ato
Também tanto faz

Um dia me disseram
Que se eu fizesse um feito
E não surgisse o efeito
Eu teria um defeito
Mas de qualquer jeito
Para mim tanto faz

Por que um dia eu poderei comprar
Um par de asas para poder voar
Nessas nuvens que vão confundir
As únicas coisas que sei sentir
Quando não estou neste céu azul
Sentado na cadeira, compondo um blues

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Legítima Defesa


Saindo do serviço depois de um dia estressante
Pego o primeiro ônibus em direção ao centro
O ônibus voa como uma barata ambulante
Rumando cada vez mais pelo esgoto adentro

Uma parada, pego outro ônibus
Não presto atenção, só se que sigo a viagem
Passo pelo córrego, não presto atenção
Só sei que sinto o odor humano daqui da margem

Chego ao terminal, começo a caminhada
Só penso em chegar em casa, poder banhar
Poder descansar, assistir o noticiário local
Mas não imaginava que antes seria parado por uma viatura policial

Plantaram um revolver na minha pasta
E me acusaram de assalto
Eu disse: “Mas eu só estava trabalhando”
O soldado riu e respondeu:
“Nós também estamos”

Fui interrogado e autuado
Ameaça a integridade física
Ou seja:
Fui morto em legítima defesa

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Drama


É indescritivelmente quente. Um suco gelado cairia bem. Ainda mais sentado numa sombra. Só de pensar, a boca umedeceu. E assim aconteceu. Pediu um suco e de pronto entregou a nota. Logo veio um suco de acerola, que descido pela garganta, fez a cabeça doer, de tão gelado. Mesmo assim, ficou satisfeito; estava regando o deserto do seu bucho.

Bebeu meio litro de suco numa única golada. Quando terminou lambeu os lábios, mas foi interrompido por uma abelha que pousou na ponta do nariz. Afanou com as mãos; o inseto circulou e voltou a pousar na ponta do nariz. Deu um tapa no nariz; os olhos umedeceram e a abelha voltou a pousar no mesmo lugar. Fungou. Não adiantou. Fungou de novo, agora com mais força; o inseto voou para cima e a secreção escorreu para baixo. Uma jovem bela assistia o drama. Até então sorria, mas ao ver a última cena, fez cara de asco.

Duas gotas de suor correram da testa do fadigado. Novamente a abelha estava pousada na ponta do nariz. Permaneceu imóvel, no intuito do inseto perder a graça e abandonar a brincadeira. A abelha começou a andar pelo nariz. Sacudiu a cabeça e em frações de segundos aquele animal demoníaco pousou novamente no nariz. Sentiu calor. A camisa pregou-lhe nas costas. Os sapatos sufocaram os pés.

Estava com a boca entreaberta quando a abelha pousou nos lábios. Num gesto ligeiro abocanhou-a. Ela se debateu nas bochechas por alguns instantes. Parou. Sentiu-se aliviado. Foi interrompido pela ferroada na língua. Instintivamente abriu a boca e a abelha partiu. Afogou o gemido de dor e notou que havia inchado. Mas pensou consigo mesmo que abelhas vão embora depois de agredir. Foi interrompido por zunidos no ouvido. Instintivamente tapou o ouvido. Com receio de outra picada, deixou a abelha sair; que caprichosamente pousou na ponta do nariz.

Engoliu um amargo de aflição. Lembrou-se dos caipiras que usavam insetos voadores como desculpa para justificar o vício do fumo. Sendo assim, acendeu um cigarro. O bicho voou e pousou no cigarro. Tragou com força, na esperança de queimá-la. Quando ia, voltou para o nariz. Continuou fumando e a abelha saiu. Terminou o cigarro e ela voltou.

Balançava a cabeça e ela saia; parava e ela voltava. Sentiu vontade de chorar. Em pensamentos, reclamou da vida pobre que levava, do fracasso intelectual, por não ter família, por duvidar de Deus. Sentiu vontade de morrer, quando enfim uma lágrima escorreu do olho.

Fechou o semblante, e com a astúcia de uma cascavel escorregou o braço para o bolso da calça. E com a fúria de uma águia, levou o isqueiro até o nariz. Ouviu o tilintar agoniante da abelha se queimando. Sentiu o ardor agudo no nariz. Mas ao menos matara o inseto. Olhou o relógio; era hora de voltar ao serviço. Atravessou a rua e foi.

Um companheiro surgiu e quando o olhou, sorriu, dizendo:

_ Bastava me dizer, meu chapa. Não era preciso fazer bico no semáforo. Mas já que quis, nariz de palhaço é vermelho, não roxo.

Abaixou a cabeça para achar uma pedra e tirar o sorriso daquele desgraçado. Ao invés disso, pegou as ferramentas no chão e começou a trabalhar. O outro ainda ria, chamando um colega para ver aquele nariz.

Ao menos matara a abelha, pensou.

domingo, 19 de setembro de 2010

Depois da Sete


Você quer saber o que faço quando acordo
Depois de dormir o dia inteiro
Eu lhe digo: eu não sei
O que faço primeiro

Expressões são movimentos faciais
Gestos são expressões canibais

Quando acordo, olho o espelho
Vejo pares corando de medo
E recordo tudo que disse que lembraria jamais

Mas me esqueço do mais importante
Das lembranças gravadas na instante
Das particularidades de uma mente ignorante

Tomo banho, visto a roupa.
E arranho a voz rouca
De sono permanente

Já não me lembro do dia quente
Que partiu depois da sete.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Enfeites

O vento é gélido. As cortinas esvoaçam como os cabelos da madame que se prepara para o baile. A selvageria é a mesma: a da madame em ser aceita e desejada esta noite, e a do vento em fazer seu serviço de coadjuvante sinistro e aterrorizador, também esta noite. As chamas das velas se cedem ao charme animalesco do vento; a consumação acompanha os orgasmos múltiplos de anseios da madame para esta noite.

Mas esta noite só queremos um pouco de música para os elementos poder dançar. Helmo afinou as duas cordas mais finas do violão, lançou dois ou três acordes que mesclaram ao vento. Tomou um gole vistoso da bebida anil

[...]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Correntes


As vezes há um círculo que me prende
Tranca tudo que tenho em mim mesmo
Apenas sinto que é algo que tende
A me jogar a esmo

Sinto que sou aleijado de entranhas
Incapaz de compreender aquilo que não entendo
Mas vejo sensibilidade em coisas estranhas
Só não sei mais o que estou querendo

Minha cabeça me limita
Meu pensamento é minha cadeia

Celas, grades
Selam a paz
E a liberdade?

sábado, 11 de setembro de 2010

Porcos


Meu pai me disse certa vez: “Os porcos comem tudo que você imagina”. Soou aquele silêncio reflexivo por instantes. “Até bosta?” Questionei. “Sim, até bosta”. “Nossa, porco então... é um animal tão porco. Ouvi a resposta do meu pai: “por isso porco é conhecido por porco”.

Meu pai, hoje um velho, fora um lenhador desde a juventude. Lenhava árvores de dimensões inexistentes nos tempos singulares de hoje. Trabalhava sozinho na construção de uma canoa que ele mesmo desenhara, escaldando troncos numa matinha fechada perto da fazendo que vivia.

Em meio aos dias plurais, houve um especialmente particular. O dia ardia no extremo colosso do calor tropical, e o cansaço sugava o velho de cima para baixo. A fadiga o instigava a jogar o machado no chão e sentar. Punhos dormentes, pernas bambas e consciência bêbada. Olhou sua sombra e notou que ainda estava no primeiro quarto do dia bravo. Parou para tomar o chá de coca e olhou o sol severo. Neste instante, ouviu um sussurro: “caia desgraçado”, acompanhado de um baque nos pulmões.

Respirou fundo, inclinou o corpo para frente, tosse rouca e seca; segurou o machado com firmeza e estalou duas, três, cinco vezes. Ouviu um sorriso tímido. Ignorou e continuou a labuta. Uma rolinha pousou na sua sombra e bicou o chão. O velho parou, olhou para trás e viu o pássaro sair voando.

Percebeu as mãos trêmulas, ignorou, e derrubou a árvore. Continuou o serviço. Viu a mesma rolinha estática em outra árvore e sua boca salivou. Saliva quente. Ignorou e trabalhou brutalmente por horas consecutivas, ouvindo de vez ou outra um sorriso infantil, progredindo para sarcástico.

O machado caiu da mão. Tentou pegar e não conseguiu; o corpo inteiro tremia. Olhou o sol severo e resolveu parar para refeição. Saiu da matinha se arrastando e sentou no banco ao lado da pocilga. Não conseguia comer. Com dificuldades acendeu o fumo e tragou. Começou a transpirar um suor denso e sentiu o mundo girar. Ouviu sons estrebuchados, estranhos. Ouviu os porcos grunhidos no meio da alucinação. Olhou para trás e viu os suínos comerem sua sombra. Os olhos semicerrados se esbugalharam. Um grito agudo esgueirou-se. Soou um silêncio reflexivo por instantes. O velho suspirou e se sentiu saudável.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Purificação

O alumínio do sol brilha essa cidade convertida em papelão de rua. O mesmo papelão que os homens descartam sem hesitar. Os mesmo homens que descartam os afetos que a terra entregou.

Hoje eu vi o vento varrendo da cidade tudo isso que os homens têm, mas que as vistas não distinguem. Vi no dedo de um velho um anel de diamante sugando tudo que o vento carregou.

Ele olhou o céu cinza de decepção e sorriu, por que o olho do sol sangrava uma fonte de água límpida, que é para limpar toda água doente que brota no coração dos homens.

A terra engoliu todo o papelão dessa selva de zinco apodrecido no tétano. E tudo que vi em seguida foram borboletas invadindo apartamentos, bares e cinemas.

domingo, 5 de setembro de 2010

Carolina


Carolina se prepara para sair
Ficou enfurnada em casa o dia inteiro
Está cansada e pensa em se distrair
Não sabe direito o que fará primeiro
Tira a roupa e entra no banheiro
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre o primeiro dia que vi Carolina
Esperei o pai dela sair para passear
E entrei na casa daquela menina
Não a conhecia direito, apenas uns rumores
Que ela saía a noite para tomar cerveja
Com um rapaz que sempre lhe dava flores
Então a vi sentada sobre a mesa
Abotoando os laços dos cabelos
Vi de perfil sua boca cor de cereja
Devo ter sentindo um pouco de receio
Mas creio no íntimo que foi medo
Ou algum impulso nas pontas dos dedos
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre a primeira vez que Carolina me olhou
Eu me colei na parede sem poder notar
Que atrás de mim havia um bangalô
E era uma dessas noites de luar
De verão, que faz certo calor
Talvez seja por isso eu estava vermelho
Foi quando Carolina me olhou
Procurando na verdade um espelho
Ela se espantou, sorriu e perguntou o meu nome
Balbuciei qualquer palavra, sem jeito
E ela entendida, perguntou se eu estava com fome
Disse que sim, e ela me ofereceu uma cadeira
Não sei se é certo, mas vou contar
Sobre a primeira vez que vi Carolina

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Quarto Esbranquiçado


No quarto esbranquiçado, cortinas negras, as estações morrem
Os pastos florescem, pavimentos de asfaltos, grudam no chão
E as crianças, quem será que as socorrem?
Cavalos de prata, nascem flores aonde eles pisam

Cavalgaram sobre minha cabeça
Oh... Agora, outra coisa, esqueça

Tem flores na minha cabeça
E isso é tudo.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Viagem Urbana


Onze e meia da manhã, hora do almoço. Arroz, feijão, carne, rúcula, tomate e suco forte de tamarindo. Como rápido, já estou atrasado. Banho gelado de alguns minutos, dentes escovados em instantes. Visto a roupa e parto com a mochila de guerra nas costas. Vinte minutos de caminhada sob o calor escaldante do sol a pino do cerrado brasileiro, na estação da seca. Seca está minha boca, como ameixa.

O nibus está cheio, mas no fundo há espaços. Encolho o corpo e caminho atropelando pernas; "Passageiros idiotas que não sabem andar de ônibus". Viagem longa, tão longa quanto a espera no ponto.

Chego ao centro e no céu o sol brilha, soberano. Há de se fazer uns 40 graus neste instante. O ponto é de zinco, e mesmo na sombra acredito estar em uma estufa ao ar livre. O golpe de misericórdia é saber que pagamos por esse sofrimento.

A linha 018 para, e entro. Agora sim o verdadeiro espetáculo começa. Consigo contar 32 pessoas em pé. O ônibus está lotado e não para de entrar gente. Não se distingue mais o calor solar do calor humano. Todos se estorricam; ambiente abafado. O motorista, atrasado e apressado, faz curvas fechadas em altas velocidades; nos debatemos como leitões em caçambas de caminhão. Lembro novamente que todos pagam por essa viagem; me desperto dos pensamentos ao ver chegando, no ponto que o motorista acabara de parar, um rapaz que estuda na mesma classe que eu. Pobre coitado, perderá a aula.

A viagem segue, minha barba me pinica; minha camiseta está pregada nas costas. Não se respira ar naquele ambiente, apenas calor; e o odor fétido do alho que uma velha carrega.

Enfim, chego ao fim da minha viagem. Com dificuldade desço do ônibus, arrastando comigo a mochilha de guerra. Logo atrás tem outro ônibus, este vazio, que pára para descer o rapaz que estuda comigo. É duro saber que a alguns metros atrás de você não havia sofrimento. É difícil aceitar sofrer sozinho Mas não penso muito, preciso ir ao banheiro, o tamarindo fizera efeito. Além de tudo, mais essa.

Subo as escadas, em direção a sala de aula; aliviado. Todo mal já passara; perdi metade da aula com essa guerra chamada pegar ônibus, mas ainda há tempo para aprender alguma coisa.

Abro a porta e todos procuram o professor em mim, enquanto procuro o professor na sala. O professor não veio.

sábado, 28 de agosto de 2010

Desinibida


Voltas pelo parque, a garota anda desinibida
Conversando Paul Sartre, sobre os limites da vida
Estranha os objetos estranhos
São só ovelhas do rebanho
Observa a roda gigante
Apostando aonde irá parar
Lembra de quando foi amante
E sente vontade de descansar

Talvez seja cedo, mas é cedo que mistifica
Não existe medo, só uma vontade desinibida
Um passo a mais não machucará
Apenas fará lembrar
Dos muros do seu parque
Que fez questão de escalar
E mostrar a sua arte

Voltas pelo parque, a garota anda desinibida

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cotidiano


Um milhão de pessoas cruzam por você todos os dias
E lhe assassina com o mesmo olhar lombriguento
E você é apenas mais um maníaco dessa mania
Apenas mais um homem de terra e de cimento

É como aquela velha brincadeira de assassinar
As crianças jogam com um piscar
Mas você pisca um milhão de vezes todos os dias
Pisca até mesmo para a mulher da sua vida

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Elas e Eu


Então elas chegam. A de lá com uma expressão de lágrimas recém-caídas; de um rosto que propõe uma feição diferente da que a impressão causa. Mas fatos são sempre minuciosos. De nada vale a generalidade das impressões.

Elas sentam, em um único acento. Fatos são fatos; e eu me lembro, orgulhoso, da minha ideia anterior. Uma no colo da outra. Todos olham desconfiados. Em instantes a desconfiança se torna espanto. “O que é isso?” “Não é possível”; é o que consigo ouvir dos cochichos. Já os veteranos daquele ambiente não se espantam mais; já se acostumaram. Apenas o novo causa espanto. Depois que deixa de ser novidade, se torna rotina. E depois tédio. Acredito que é assim, pelo que já vivi. Tédio corrói.

E é o que sinto agora: um belo tédio desafinado.

Faz calor e eu olho observando. Lembro-me de quando tomei o ônibus para vim até aqui. Até os transeuntes dos coletivos são os mesmos; nos mesmos horários.

Volto da minha divagação; a primeira passa a mão nas costas, por dentro da blusa, da outra. “O que é isso?” “Sutiã.” “Aquele que lhe dei?” “Não...” “Para, amor!” Amor? Alguns olham, outros não. Mas todos fingiram não ouvir. Inclusive eu.

As duas são belas, e eu encaro a segunda, a feminina. Apenas para irritar a primeira. Procuro o vinco dos ciumentos no rosto dela. Elas mudam de cadeira; se sentam de costas para mim.

“Você não faz parte deste mundo”. É, não faço. Mas temos gostos em comum.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Profissional


Você acha que é pelo dinheiro. Ter dinheiro é muito bom; com ele eu posso comprar tudo; com ele eu me sinto um senhor feudal rodeado de servos. Ser senhor nesse século é melhor do que séculos atrás; e sabe por quê? Por que os servos de hoje bajulam, além de tudo. Bajulação é algo que apenas o dinheiro compra. Com certeza eu não seria feliz sem o dinheiro; sem minha piscina aos domingos à tarde, sem minha sauna às quintas à noite, sem minhas bebidas finas. Eu se quer seria generoso, se não fosse o dinheiro.

Mas você pode me perguntar sobre a fama. Bem, é claro que eu não faço o meu trabalho apenas pelo dinheiro. Eu também adoro a fama; é uma necessidade ter os meus 15 minutos de fama. Nesse mundo no qual vivemos é inútil sonhar com um autorretrato que envelheça por nós. Não! Podemos ser capas de revistas. As revistas elegem, em suas capas, os novos príncipes do mundo contemporâneo. É o sucesso que me entrega os convites para participações especiais nos cinemas. Para ser sincero com você, é o meu sucesso que seduz as atrizes glamorosas que eu transo. Sou um grande colecionador de transas com mulheres famosas. Isso, é claro, me envaidece. Transar, graças ao dinheiro, com ninfetas fantásticas; gastar milhares em joias legítimas com essas vagabundas é bom. É algo apenas para os poderosos. Mas foder a coelhinha do mês ou a musa da novela das nove é algo apenas para os magníficos.

Isso tudo que eu disse até agora pode ser o suficiente para responder o porquê eu trabalhar com o que trabalho. O luxo, a vaidade, e até mesmo a arrogância, só não são tão sórdidos para aqueles que não possuem. Mas irei lhe perguntar: você gosta de apostas? De jogar? O jogo é a brincadeira dos riscos. Apostar todo o dinheiro batalhado, o sustento de uma família em uma partida, em um cavalo, em uma simples carta. O desejo do perigo, do tudo ou nada, fulmina em nossas entranhas. Eu adoro, sou viciado nisso! Diz se não é gostoso olhar os olhos arregalados de espanto das pessoas em volta? A confiança amedronta as pessoas, e eu me sinto exuberante assim.

Contar-lhe-ei um segredo agora, o porquê, verdadeiro, que escolhi essa profissão. Melhor do que jogar com dados ou cartas é jogar com a vida das pessoas. Perder não passa a ser apenas perder dinheiro, torna-se destruir vidas. No tribunal há uma pessoa que é o centro das atenções e eu sou o único que aposto ao seu favor; sou o único que faz apostas na probabilidade desvalorizada. A arte do meu ofício é nadar contra a maré. Defendo assassinos natos e jogo tão bem que no final da partida ele não é mais culpado. Torna-se vítima do sistema; o mesmo sistema que tenho como vítima preferida.
Eu sou um advogado. Eu nunca perco. Sou um jogador vibrante que embriaga a sociedade com uma jogada esplêndida, isto é, com uma retórica esplêndida.

É claro que tudo isso é bobagem. Tornei-me advogado pela justiça. Ofereço-me para defender aquele é acusado por que acredito que as pessoas nascem boas. Os meios que fazem as pessoas tomar ações impensadas. Essa pessoa, frágil que é, não precisa, como não deve, ser privada. É necessário meios para que ela se inclua na sociedade, contribuindo com a melhoria do bem estar comum. Acredito que todos que sentam no banco dos réus são inocentes até que se provem o contrário. O meu trabalho é apenas materializar esse conceito, e demonstrar claramente para a sociedade.

O ser humano é essencialmente bom.

Publique uma única palavra de tudo que acabei de lhe dizer e lhe mostrarei o homem da sociedade.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Blues da Loucura


Ser ético significa processar pelas vísceras
E quando o poeta esmaga o processo
O que sobra é o resto

O resto do previsível
Jamais será risível
O que eu digo para você, querida
É que a loucura é o exceto

sábado, 14 de agosto de 2010

Observação de um Passageiro


Ônibus é sempre interessante e cansativo ao mesmo tempo. O que o torna mais interessante que cansativo é a disposição do passageiro. Bem certo que quanto maior for o espírito do usuário, menor serão as chances de haver disposição para andar de ônibus. Afinal, ônibus é um bueiro ambulante: abafado, apertado e fedorento.

Ando de ônibus todos os dias; a maioria deles, lotados. Às vezes consigo sentar em algum banco suado. O fato que quero contar aconteceu em um dia que eu estava sentado. Sentar é um luxo, mesmo quando espremido por uma gorducha que ocupava três quartos de um banco duplo; maneira na qual estava eu acomodado, naquela estufa de salgados podres, denominada "transporte" público, naquele dia em que até mesmo os prédios derretiam de calor.

Quero fazer mais uma ponderação. No meu entendimento, pessoas de espíritos fracos gostam de andar de ônibus. Se sentem os donos da ratoeira, mas não passam de ratos. No dia do qual narro, eu prestava atenção na arrogância de uma senhora ao reclamar da arrogância dos passageiros. O sol queimava a minha cara e as palavras da velha queimavam os meus ouvidos. Fechei os olhos e me concentrei no banco claustrofóbico que eu estava sentado. Um grito de alma penada me despertou dos ranços escuros de minha mente.